Oikos

A frágil dramaturgia escrita a dezoito mãos compromete toda a encenação do espetáculo

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11 de dezembro de 2014

Ao assistirmos ao espetáculo “Oikos” da Cia dos Bondrés, com dramaturgia de Eduardo Vaccari, Fabianna Mello e Souza, Keli Freitas, em colaboração com os Bondrés, e com direção de Fabianna Mello e Souza, ficamos bastante impressionados com o ótimo trabalho em máscaras balinesas realizado pelos atores Flávia Lopes, Lucas Oradovschi, Matheus Lima, Patricia Ubedo, Thomaz Nogueira e Camila Nhary. Cada uma delas possui características muito peculiares, que se desenvolvem por todo o corpo, postura, andar, boca e olhos, na parte exterior; e na voz, e estado de alma, na parte interior. A impressão que temos é de que cada um dos atores treinam, em laboratórios teatrais, a exaustão, para poder atingir resultados dos mais expressivos e orgânicos no modus operandi da interpretação com máscaras balinesas. Tamanha dedicação é a essência da corporificação orgânica e plena, atingida por eles, que esvaziam as suas personalidades, e vivem as características de cada uma das máscaras representadas, independentemente do ator que a esteja usando.

O elenco apresenta uma boa preparação corporal e vocal ao vestirem as máscaras baliensas

O elenco apresenta uma boa preparação corporal e vocal ao vestirem as máscaras baliensas

Entretanto, a preocupação exacerbada com este ritual e a sua forma, os afastou de um cuidado maior com o enredo e a dramaturgia de “Oikos”, politicamente correta, até um certo ponto, e tratada com ares extremamente didáticos-educativos. A dramaturgia é toda muito frágil, pontual e quase professoral, mais próxima de um teatro educativo escolar. O enredo, um fiapo de história, que pode ser resumido em apenas três fases, trata de maneira muito simplista, um assunto tão importante como o lixo no planeta e principalmente o descarte do lixo tóxico, que já causou algumas grandes tragédias em nosso mundo – uma delas inclusive no Brasil, com o Césio 137, em Goiânia. A direção, aparentemente despreocupada em aprofundar o assunto, não seguiu alguns conceitos básicos dos códigos teatrais, e assim, a montagem ficou muito confusa em várias resoluções cênicas. Como por exemplo: apenas os lixos dos moradores é o suficiente para poluir toda a cidade, assim como conta a história? O que polui todo o Rio? As águas? Os poucos habitantes, de um lugar pequeno e distante, ainda que seja identificado como um lugar cheio de gente? Quem mais suja este lugarejo, em seu dia a dia? Outra questão técnica, é a falta de diferenciação entre os lixos. Todos são retratados como simples sacos leves com espumas brancas picadas, ficando difícil de vê-los como lixo, e muito menos em definir, onde cada um deles é reciclado – uma outra situação muito simplista, e superficial, da peça. Porém, uma situação muito grave na encenação, é o mau tratamento que é dado aos bichos, ainda mais em se tratando de uma estética que nos remete muito mais aos povos orientais – de Bali, da Indonésia, da Índia -, do que aos ocidentais. Em Bali, povoado em sua maioria pelos hindus, é duplamente constrangedor ver uma cena enorme de uma caçada a um pobre rato, que não apenas é morto por uma das personagens mais velhas, como também é espancado com tamanho ódio e crueldade pela senhora – um rato que cumpria apenas o seu ritual natural que era procurar o lixo que os “porcos cidadãos” jogavam nas ruas. Uma lástima extrema ter que assistir a uma cena tão constrangedora e absurda como esta em um espetáculo para a infância e juventude. Além de que temos também uma outra cena de morte, de tão mau gosto como a outra, de uma suposta barata voadora, que é morta com inseticida. Em relação a cenografia de Gabi Windmüller, ela é bem interessante, feita em traineis com rodinhas, que consegue dar uma boa dinâmica na construção de espaços cênicos modulares. O figurino também de Windmüller é  interessante – saias longas, mesclando tecidos lisos e estampados, em uma mistura grande de cores e formas na costura -, que parecem bem inspirados nos povos asiáticos, mas que parece sofrer também de uma escolha de mau gosto no uso de blazers com cortes ocidentais, por cima dos figurinos, que causam uma poluição visual devido a mistura das peças. Uma combinação que estraga e empobrece a concepção visual. A música tocada ao vivo por Karina Neves e Luis Barrueto, também acompanha a tradição do teatro oriental, e colabora na construção dos climas e nos sons incidentais.

A cenografia realizada em traineis móveis dá agilidade na construção de novos ambientes

A cenografia realizada em traineis móveis dá agilidade na construção de novos ambientes

Infelizmente, a opção – ou a dificuldade de fugir desta prisão – pela forma, e não pelo conteúdo, prejudica demais o desfecho, também abrupto da peça, tratando-o de forma ritualística estético-simplista, na eliminação do grande mal do enredo: o lixo tóxico. Através de quadros vivos, a direção constrói, uma animação onde o lixo tóxico vai parar dentro de uma caixa transparente, sem nenhuma pista de como ele chegou ali. Poderiam eles pegar o lixo com as mãos? Poderia o lixo tóxico ficar tão próximo a eles, sem nenhum prejuízo de contaminação ao homem? Estas perguntas não precisam ser feitas, com tanta minúcia, à todos os espetáculos, mas em uma peça que se propõe a abordar um assunto tão sério, e de forma tão didática, precisa responder cenicamente a algumas perguntas básicas, na cartilha teatral, sobre como este conteúdo foi parar ali e que consequências isso poderá causar ao lugarejo. É uma tarefa um pouco exagerada no teatro, estas questões levantadas por mim, onde a sua função é representar a vida, e não vivê-la realisticamente? Não, neste caso não. A Cia dos Bondrés, ao optar em contar uma história tão séria e aparentemente tão supostamente embasada, a partir dos textos explicativos do programa, não poderia entregar ao público um material tão primário, como este apresentado no Oi Futuro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

As personagens da longínqua Oikos diante do perigoso lixo eletrônico

As personagens da longínqua Oikos diante do perigoso lixo eletrônico


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