Olhar Retrospectivo traz cinema de Djibril Diop Mambéty e Jean Rouch

Em sua primeira retrospectiva dupla, festival busca o diálogo entre etnoficções e ficções alegóricas dos dois realizadores

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03 de maio de 2018

Em sua sétima edição, que acontecerá de 6 a 14 de junho, o Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema faz sua primeira retrospectiva dupla. A mostra Olhar Retrospectivo deste ano apresenta um diálogo entre dois influentes realizadores da história do cinema: Djibril Diop Mambéty e Jean Rouch. Em comemoração ao vigésimo aniversário de seu falecimento – algumas semanas após a exibição na mostra Cannes Classics da nova restauração digital de seu filme Hienas (1992), será apresentado um conjunto quase completo de filmes do mestre senegalês Mambéty, e um recorte de filmes de Rouch, que contará com oito cópias restauradas em homenagem ao seu centenário.

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A escolha dessa dupla nos permite o mergulho em duas facetas de uma mesma história” diz o diretor e diretor de programação do Olhar de Cinema, Antônio Junior. “Ambas as cinematografias se completam, ao mesmo tempo em que se chocam, propiciando assim uma oportunidade única de reflexão sobre o cinema e o nosso mundo. A experiência com propostas cinematográficas através de duas visões de mundo, provenientes de locais e visões tão distintas, catalisa ainda mais a força que cada um dos cineastas possui por si mesmo. É, além de tudo, a proposição de um diálogo de contrastes, e com o distanciamento do tempo ficam evidentes as aproximações entre essas filmografias igualmente sensíveis e humanistas”

Nascido na França em 1917, Jean Rouch faleceu em 2004 em um acidente automobilístico no Níger, país que tomou como seu lar e que visitou pela primeira vez em 1941, enquanto engenheiro de hidrologia supervisionando uma construção. Rouch ficou fascinado pelos rituais e cerimônias locais que passaria a registrar, criando uma série de filmes no país e em outras colônias e ex-colônias francesas da África Subsariana ao longo de mais de meio século. Grande parte de seus filmes foram considerados documentários na época do lançamento, como “Os mestres loucos” (1955), “Eu, um negro” (1958) e muitos outros, embora resultassem de uma elaborada mescla de cenas roteirizadas e reencenações com registros captados em estilo vérité. Quase todos estes filmes foram o resultado de íntimas parcerias com as pessoas filmadas, como o curandeiro tradicional Damouré Zika, que se tornou personagem frequente do cineasta francês. Rouch dirigiu mais de 100 trabalhos nesse estilo, os quais denominou “etnoficções”, filmados tanto em paisagens africanas quanto em seu país de origem – país no qual passou a se sentir como um estrangeiro, conforme afirmou em entrevistas.

Djibril Diop Mambéty nasceu no Senegal, em 1945, e faleceu prematuramente de câncer de pulmão na França, em 1998. Ele foi poeta, artista do teatro, orador e músico, além de diretor de sete filmes marcantes ao longo de 30 anos. Vários de seus filmes são ficções alegóricas, tragicômicas por natureza, realizados com atores do Senegal em seus locais de origem. Os protagonistas dos filmes de Mambéty, como em “A Viagem da Hiena” (1973) e “Le Franc” (1994), são cidadãos autônomos que transitam entre visões de utopia e distopia, à medida que lutam contra o sentimento de serem sujeitos do colonialismo. Eles sonham em deixar seus lares para fazer fortuna na Europa, assim como em levar para casa a riqueza acumulada no estrangeiro. Os filmes testemunham eles intercalarem os papéis de colonizadores e colonizados sem com isso emitir um julgamento moral; ao contrário, as obras de Mambéty evidenciam personagens livres para escolher ser o que desejarem.

A carreira de Rouch teve início duas décadas antes dos primeiros trabalhos de cineastas da África subsariana. O filme inaugural de Mambéty, o curta anárquico “Contras’city” (1968), foi realizado oito anos após o governo do Senegal ter declarado independência e dois anos após a estreia de “Garota Negra” (1966) de seu compatriota Ousmane Sembène, frequentemente considerado o primeiro longa-metragem da África subsariana. Rouch se tornou uma importante referência para Jean-Luc Godard e os demais integrantes da Nouvelle Vague francesa, assim como para cineastas africanos, dentre os quais a senegalesa Safi Faye, estrela do filme de Rouch “Pouco a pouco” (1969). Mambéty também é tido como uma potente influência para realizadores africanos, como Souleymane Cissé e Abderrahmane Sissako, e para cineastas contemporâneos de outros continentes, incluindo o estadunidense Billy Woodberry e sua própria sobrinha Mati Diop, diretora e atriz de origem francesa.

Ao propor um diálogo inédito entre cineastas que compartilharam a mesma época e o mesmo continente, embora de pontos de vista distintos, a mostra revela as diferenças e similaridades estilísticas e temáticas que singularizam estas obras de enorme potência”, diz Carla Italiano, integrante da programação de longas-metragens do Olhar de Cinema, e co-curadora da retrospectiva junto a Aaron Cutler. “A trajetória de Rouch sinaliza um viés pelo campo da Antropologia, registrando os encontros entre realizador e personagens em encenações partilhadas, que lidam com certo grau de improviso e espontaneidade. Já o cinema de Mambéty mostra a confluência de diversos modos de criação artística, tendo a música e a poesia como fontes de inspiração para a liberdade formal de seus filmes. Cada qual a seu modo, as duas filmografias apresentam formas inventivas de lidar com as fronteiras entre documentário e ficção, muitas vezes utilizando o humor como poderosa ferramenta criativa na construção de sensíveis reflexões sociais e históricas”. 

As atividades da retrospectiva incluem uma mesa de debate acerca dos legados das obras de Djibril Diop Mambéty e Jean Rouch, além de debates com convidados após algumas sessões.“As conversas públicas que completam a programação da retrospectiva têm o potencial de suscitar temas em voga no debate sobre cinema no Brasil, e também, sobre a sociedade brasileira”, continua a Carla. “Mais notadamente, são questões de representatividade e autoria negra, de reflexões sobre as semelhanças e diferenças entre as realidades dos países africanos exibidos na retrospectiva e a do Brasil hoje, e, também, dos legados de raízes culturais de matriz africana e do passado europeu sobre o nosso país”. 

Os colaboradores na realização da retrospectiva incluem a empresa norte-americana Icarus Films (http://www.icarusfilms.com/if-rouch) e Teemour Diop Mambéty, filho de Djibril Diop Mambéty e fundador da empresa MD Crossmedia (https://vimeo.com/mdcrossmedia).

A programação completa da mostra Olhar Retrospectivo, contendo exibições e atividades complementares, será anunciada em breve. Maiores informações sobre a mostra e os demais programas da 7ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba estarão disponíveis no site do festival: https://www.olhardecinema.com.br/.

Filmes de Djibril Diop Mambéty confirmados para a retrospectiva:

– Contras’city (1968, 22min, DVD fornecido pelo Institut Français do Brasil)

– A Viagem da Hiena (Touki Bouki, 1973, 89min, DCP restaurado fornecido pela Cineteca di Bologna e pelo World Cinema Project) 

– Parlons grand-mère (1990, 33min, cópia em HD fornecida por Pierre-Alain Meier e Thelma Film) 

– Hienas (Hyènes, 1992, 111min, DCP restaurado fornecido por Pierre-Alain Meier e Thelma Film)

– Le franc (1994, 44min, cópia digital fornecida por Silvia Voser e Waka Films) 

– A pequena vendedora de sol (La Petite Vendeuse de Soleil, 1999, 43min, DCP restaurado fornecido por Silvia Voser e Waka Films)

Filmes dirigidos por Jean Rouch confirmados para a retrospectiva (todos serão exibidos em DCPs restaurados fornecidos pela produtora francesa Les Films du Jeudi, com a exceção de “Crônica de um verão”, que será projetado em Blu-ray cortesia do Institut Français do Brasil):

– Os mestres loucos (Les Maîtres fous, 1955, 29min)

– Mammy Water (1956, 19min)

– Eu, um negro (Moi, un noir, 1958, 74min)

– Crônica de um verão (Chronique d’un été, co-direção de Edgar Morin, 1961, 90min)

– A pirâmide humana (La Pyramide humaine, 1961, 93min)

– A punição (La Punition ou les fausses rencontres, 1962, 64min)

– A caça ao leão com arco (La Chasse au lion à l’arc, 1965, 81min)

– Jaguar (1967, 93min)

– Pouco a pouco (Petit à petit, 1969, 96min)

Olhar de Cinema

O Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba acontece de 6 a 14 de junho. O evento, em sua sétima edição, tem como objetivo destacar e celebrar o cinema independente, por meio da seleção de filmes com propostas estéticas inventivas, envolventes e com comprometimento temático. Sem rejeitar gêneros, formatos e durações, a programação privilegia filmes que se arriscam em novas formas de linguagem cinematográfica, estão abertos ao experimentalismo e possuem potencial de comunicação.

O Olhar de Cinema também apresenta ao público novos diretores que, mesmo com uma curta filmografia, já possuem forte identidade artística. Dessa maneira, o evento tem a intenção não só de proporcionar ao público experiências cinematográficas singulares, mas também fomentar a reflexão acerca da linguagem e história do cinema.

O 7º Olhar de Cinema é uma realização da Grafo Audiovisual em parceria como o Ministério da Cultura e conta com o patrocínio BRDE, FSA, Ancine e apoio SESI-PR.

FONTE: Divulgação