Os Amigos

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30 de novembro de 2014

Cineasta que preserva em sua filmografia um marcante traço autoral, Lina Chamie retorna aos cinemas com “Os Amigos”, filme de rara delicadeza que fala da amizade como sentimento primordial. A narrativa gira em torno de um dia na vida do arquiteto Téo, personagem interpretado por Marco Ricca em mais uma parceria com a diretora. “Os Amigos” assume a forma de reflexão ao trazer à superfície a noção do rompimento dos elos do estágio adulto com a infância, tempo das descobertas, da espontaneidade que reforça a identidade ainda não distorcida por imposições do crescimento. O ponto de partida para a avaliação sentimental de Téo é a morte de um amigo de infância. Uma proposta que vai de um extremo a outro ― a vivacidade dos tempos de garoto que vão de encontro com as frustrações da morte.

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A assinatura do estilo da cineasta é sinalizada pela musicalidade do filme, sempre a serviço da valorização das imagens, e pela interferência das peculiaridades da grande São Paulo na trajetória dos personagens: os atrasos provocados pelas chuvas e congestionamentos, bem como a superpopulação de um lugar sem sossego. Ao saber da morte do amigo, Téo revive momentos do passado e tenta restabelecer a ligação com os sentimentos desse período. Por conta disso, o filme aposta na alternância entre cenas da fase adulta e infantil do personagem com a participação de um elenco de pequenos atores. A opção de submeter todas as passagens a uma ótica infantil é bem apropriada ― crianças são presenças constantes e os fragmentos de uma encenação mirim da “Odisseia” de Homero estão encadeadas com as experiências de Téo, todas elas vividas nessa odisseia do homem comum.

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Curiosamente, em “Os Amigos” as complexidades da existência dos mais velhos, frequentemente perdidos, são claramente definidas pela falência das relações de amor, com exceção da união desfeita pela morte ― Téo é solteiro e amargurado, sua melhor amiga (Dira Paes) divorciada e o casal prestes a casar (participação especial de Caio Blat e Alice Braga) é tão divergente que a infelicidade é quase uma certeza. Com o desenrolar dos minutos, nota-se a mensagem cada vez mais transparente: Téo está desorientado e seu guia está justamente na amizade revivida nos cantinhos da memória. Em certas ocasiões, o filme exige do espectador a apreciação diferenciada, afastada do julgamento resultante do olhar adulto e tedioso, cheio de rigidez. Sem vergonha, o filme se permite infantilizar-se no caos do dia a dia para assim atingir seu objetivo de emocionar.


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