Os Irmãos Lobo

Como o Cinema pode salvar vidas, literalmente

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03 de outubro de 2015

Ode ao cinema como arte que respira vida e vice versa, “Os Irmãos Lobo” é o primeiro filme imperdível do Festival do Rio este ano. Um documentário inspiradíssimo sobre como uma família trancafiada dentro de casa pelo pai, em constante estado de sítio psicológico para não sair, pôde se libertar através da magia do cinema…até o ponto de eles mesmos começarem a fazer cinema. Claro, esta história é real, pois se trata de um documentário. E é por si mesmo um excelente filme uma vez que sua diretora Crystal Moselle escolheu a história certeira para exprimir a emoção e veracidade na medida de algo inovador. Foi um trabalho em conjunto. Afinal, foi necessário ser muito psicanalítico para que uma diretora e sua equipe conseguissem autorização para filmar dentro de uma casa cerceada pela ditadura de um pai imigrante com medo das pesadas regras americanas, e que pretendia criar sua própria sociedade ali dentro, com quantos filhos pudesse ter. Sua esposa parou no sétimo, ainda bem. E não por coincidência o nome do filme é “Os Irmãos Lobo”, pois, numa alusão direta a ‘Mogli, O Menino Lobo’, ou mesmo a ‘Rômulo e Rêmulo’, criados por uma loba na Roma Antiga, esta família realizou um feito admirável: primeiro, sobreviver de cinema. Segundo, se libertar também através da sétima arte.

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Outro fator que não pode ser coincidência, para quem acredita em destino, é o sobrenome da família, ‘Angulo’, ou seja, um novo olhar, um ponto de vista diferente para se ver a vida. Pois eles começam todos iguais, magros e longilíneos, de cabelos igualmente compridos até o joelho, quase uma seita. Porém, conforme vai se mostrando acervo de filmagens caseiras que eles fizeram ao longo da vida, vão se individualizando de acordo com talentos e personalidades diferentes ao reproduzirem cenas favoritas de seus filmes, como alguns de máfia de Tarantino, Scorsese, ou de heróis como Batman. E tudo feito com o material que encontravam em casa, de caixa de cereais a outros recicláveis que ninguém dá crédito no dia a dia e eles recortam, pintam e moldam à perfeição. É impressionante o nível de detalhes artesanais que dão aos personagens e filmagens. Esta ânsia de conhecer e produzir mais certamente foi a chama que transcendeu um dos irmãos a fugir de casa apenas quando chegou aos quinze anos e ser preso por engano, no que o Estado exigiu tratamento psiquiátrico e a história antes isolada dos irmãos chegou ao conhecimento de terceiros, inclusive da diretora do presente documentário. Com um nível de honestidade e auto-conhecimento impressionante, o qual eles próprios admitem que não possuíam até somente depois das sessões de terapia, quase faz se indagar o quanto foi realmente dirigido pela cineasta por trás das câmeras e as ambientações perfeitas que ela passa a criar.

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Todavia, sua força de expressão é tão grande que dificilmente poderia se reproduzir algo com tanta veracidade. Até porque eles ainda vivem condicionados pelo calcanhar de Aquiles do documentário e da vida deles: o pai controlador que de início mal demonstra interesse em participar das filmagens, para depois mostrar seu próprio ponto de vista; e a mãe omissiva e acuada pelo domínio de seu marido, mas que é nitidamente quem mais se liberta conforme o documentário prossegue, ao ponto de o espectador poder enfim respirar aliviado por aquela família após tensos momentos de sufoco, quase horror claustrofóbico físico e mental. A única que fica de fora é a irmãzinha dos garotos, provavelmente por ser menor e ter sido contratualmente preservada. Mas ainda assim foi alcançada uma grande verdade através das lentes de uma câmera que começou por captar o amor recíproco que seu objeto de estudo também tinha pela câmera.

Festival do Rio 2015 – Midnight Docs

Os Irmãos Lobo (The Wolf Pack)

EUA, 2015. 89 min.

De Crystal Moselle

Com: Bhagavan Angulo, Govinda Angulo, Jagadisa Angulo


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