Os Miseráveis

Filme que empatou com Bacurau em Cannes dialoga de forma arrebatadora com o cinema brasileiro

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15 de dezembro de 2019

“Os Miseráveis” de Ladj Li que dividiu o Prêmio do Júri em Cannes com “Bacurau” definitivamente é um dos melhores filmes do Festival e do ano! E é uma honra profunda podermos compartilhar o Prêmio de Cannes com este filme, pois o fato de ser dividido entre os dois quer dizer muita coisa! Os dois filmes dialogam muito. Ambos são sobre levantes populares contra injustiças sociais… Ambos falam do direito de revide das minorias, dos tidos como hipossuficientes de direitos, mas que são potências gigantescas, cada qual à sua maneira!

Sem falar na estética sufocante do filme que, quando não segue os personagens com câmera ante a face tensionada, ou sobre o ombro nas movimentações em cenários externos, só se abre quando sobrevoa a ação com panorâmicas em zenital filmadas com drone — o qual não é jamais gratuito! Até o drone se torna personagem da história, parte da tensão, e respira e engasga no mesmo ritmo que a falibilidade dos demais personagens que vão sendo postos à prova em efeito cascata!

Uma linguagem que dá continuidade e evolui a espiral de desconstrução através do gênero policial nas periferias francesas pouco vistas no cinema, e que contava com alguns poucos novos cults franceses realmente eficazes como “O Ódio” de Matthieu Kassovitz, “Polissia” de Maïwenn e “Divines” de Houda Benyamina. (Algo que o Cinema francês dialoga bastante com a nossa sétima arte, desde a violência policial execucionista ao encarceramento em massa…).

A forma como tanto o roteiro quanto a montagem vão encurralando os personagens que foram aos poucos introduzidos de início de forma aparentemente dispersa ou desconexa, e vai costurando o aparente elenco coral, consegue manter o suspense e a adrenalina de um crescente thriller como poucos filmes fizeram na filmografia europeia em um bom tempo. Cada personagem importa para debater os pequenos poderes…a polícia corrupta e assassina, os políticos manipuladores, os mafiosos bairristas, o coletivo muçulmano, os ciganos circenses e as crianças… O futuro! As crianças sempre são e serão o futuro…, enquanto ainda tivermos um futuro para defender. E o levante popular do filme envolver justamente as crianças talvez seja a mise-en-scène mais original que esta obra veio agregar ao panteão da sétima arte (algo como raros exemplares na história do naipe de “Who Can Kill a Child”). Afinal de contas, idade não é documento.

Há comparações desde já entre “Os Miseráveis” de Ladj Li e “System Crasher” de Nora Fingscheidt, mas eu elegantemente discordo das amizades profissionais. Isso porque “System Crasher” é um tipo de ponto cego completamente diferente na sociedade. A menina protagonista deste filme possui provavelmente mil diagnósticos e transtornos clínicos. Tipo TDAH, bipolaridade etc… E a sociedade não sabe lidar com isso também. Mas é outro tipo de “lidar”. Estaria mais para “Coringa”, através de temas como a negligência psiquiátrica e ambulatorial, pois escondemos da sociedade nossos pacientes com desafios psicológicos. Vide a realidade brasileira que nem aceita mais inscritos em manicômios e os coloca na rua como mendigos, igualmente rejeitados por suas respectivas famílias. Já “Os Miseráveis” é questão de classe e raça. A condição da menina de “System Crasher” jamais faria um policial, por exemplo, apontar uma arma para ela. Jamais colocaria ela em risco real, como aqueles que já assistiram puderam confirmar. Não importasse o quão absurdo fosse o ato dela. Já em “Os Miseráveis”, aquelas vidas humanas possuem um valor muito baixo. Não preciso dar spoiler, é só trazer o exemplo para o Brasil. Qual vocês acham que é o valor de um morador da favela para uma bala perdida policial?

Também não duvido que muito rapidamente algumas pessoas farão analogias com nosso referencial mor para o mundo: “Cidade de Deus” de Katia Lund e Fernando Meirelles, mas devo separar uma coisa da outra igualmente, com todo o respeito a ambas obras citadas. Apesar de esteticamente “Cidade de Deus” ter se tornado referência incontornável, com ângulos de câmera, travellings persecutórios e montagem frenética, o personagem de Zé Pequeno é o completo oposto do arco narrativo do protagonista Issa de “Os Miseráveis”. Zé Pequeno quer se tornar ‘o maioral’, nem que para isso precise se igualar às ações daqueles que lhe fizeram mal, como a polícia fascista. Já “Os Miseráveis” é um direito de resposta, é um apelo, é um grito de basta e de repúdio à humilhação que coloca em risco todos os dias a vida daquela comunidade (e tantas outras no mundo).

Parafraseando livremente as palavras do próprio Victor Hugo, autor que escreveu a obra homônima “Os Miseráveis”: o homem não é bom, nem mal, e sim aquilo para o que for cultivado.

Sinopse oficial do filme: Inspirado no curta-metragem homônimo do diretor e nas manifestações de 2005 em Paris, o filme conta a história de Stéphane (Damien Bonnard), que ingressou recentemente no Esquadrão Anti-Crime de Montfermeil, nos subúrbios onde Victor Hugo escreveu seu famoso romance “Les Misérables”. Ao lado de seus novos colegas, Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djibril Zonga) – ambos membros experientes da equipe -, ele rapidamente descobre as tensões entre as gangues locais. Até que o trio se excede em uma abordagem durante uma perseguição, e um drone captura o momento, ameaçando expor a realidade da vida cotidiana.

Trailer:

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