Os Últimos Românticos do Mundo

Apocalipse de arco-íris

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01 de fevereiro de 2020

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Sabe como é se apaixonar? Cair perdidamente de amores e não saber viver sem esta referência para tudo o que você faz? Sentir borboletas no estômago, um entorpecimento inebriante tipo entornar num só gole uma garrafa de vinho direto no gargalo ou subir na mesa para cantar uma serenata para o mundo todo ouvir? Algo que te coloque de ponta-cabeça, com os pés no alto e a razão abaixo… Já passaram pela experiência de um amor eterno…? Será que ele sobreviveria ao esfriamento natural da paixão e do calor da juventude…? Estas e outras questões são o mote do novo cult instantâneo “Os Últimos Românticos do Mundo”, curta-metragem de Henrique Arruda, parte da Série 4 da Mostra Panorama na 23° Mostra de Cinema de Tiradentes.

O filme aborda um romance com que todos podem se identificar numa distopia queer: casal de jovens tem apenas algumas horas de amor antes que o mundo termine coberto por uma nuvem rosa alienígena que varreria qualquer vida na terra… “Meu amor, o que você faria se só lhe restasse um dia? Corria no meio da rua, andava pelado na chuva, entrava de roupa no mar…?”, segundo a letra da música nos versos de Paulinho Moska. E é nesta jornada que qualquer um poderá se identificar independente se o casal em questão fosse hetero, gay, lésbica ou trans… O amor é universal, e uma paixão que enfrenta de coração erguido e pleno a ameaça de fim do mundo decerto pode inspirar qualquer pessoa.

Esse tipo de sensação parece apenas existir em filmes, mas estamos vivendo um florescimento da primavera do cinema brasileiro tão potente que até mesmo paixões e amores outrora deixados fora de quadro começaram a reocupar as telonas e imaginários coletivos, de modo a fazer com que a sétima arte começasse a sonhar com outras realidades. Se antigamente éramos nós espectadores que sonhávamos com o cinema, hoje em dia isto se inverteu e fez com que fôssemos sonhados pelos filmes em realidades que nem o ecrã mais ousado jamais teria alcançado antes.

E é com muita sagacidade que o diretor Henrique Arruda e sua equipe transformam e recriam o ecrã do cinema num universo ligeiramente futurista e completamente crível, que poderia acontecer amanhã ou daqui algumas décadas ou centenas de anos… Como se olhássemos por um caleidoscópio sob uma lente rosácea, somos apresentados ao casal principal composto por Pedro e Miguel. Com roupas despojadas em meio a outras metálicas em neon, parece muito natural que esta realidade fosse nossa vizinha, porém não seria o suficiente para a imersão cinéfila estar completa e é aí que a equipe técnica assina seu diferencial.

“Os Últimos Românticos do Mundo” de forma bastante acertada se coloca repleto de referências a incontáveis signos e imaginários da sétima arte: desde o efeito digital de fingir que o filme foi filmado numa película antiga, cheia de ranhura e estática, típico dos sci-fi de antigamente… a homenagear a nossa cultura que recepcionava estas obras na grade da Sessão da Tarde na telinha de todo o Brasil. Filmes que dialogam com esse espírito perpassam na tela, como “Thelma & Louise”, assim como novelas do naipe “Dancing Days”, o documentário “Paris is Burning” e até coisas mais recentes com estética oitentista como o seriado “Black Mirror” em seu episódio antológico “San Junipero”, sem falar no videoclipe “Telephone” de Lady Gaga com participação de Beyoncé.

Mas falar sobre estas referências faz parecer que o filme está preso à chave do saudosismo como dispositivo único, o que seria bastante injusto. Reduzir a obra a isso poderia levar a interpretações tão equivocadas quanto de que o ultrarromantismo ou o metamelodrama seriam maniqueísmos de forças no curta de Henrique Arruda, e isso não acontece de forma alguma. Estes elementos podem até ser usados como pinceladas no quadro maior, porém de forma alguma emolduram uma forma isolada de interpretação desta leitura. Isto porque o ultrarromantismo aqui não é binário ou maniqueísta, e sim queer e distópico, e isso faz toda a diferença para subverter as convenções.

Sim, reitero o que expressei no início do texto de que o amor é universal e que poderia ser quaisquer casais se amando aqui, todavia não é qualquer casal, nem qualquer universo construído para eles. O fato de serem dois homens que se amam, com elenco majoritariamente LGBTQIA+, além de ter mulheres trans interpretando as mães dos protagonistas, sejam suas personagens trans ou cis, são todas declarações de seu diretor. Há um legítimo carinho no extracampo por seu elenco e equipe, inclusive pela terceira idade (um destaque já dado desde seu trabalho anterior, “Verde Limão”, algo ainda mais importante na terceira idade, como o direito de envelhecer e de amar na velhice)… O que reservará algumas surpresas catárticas guardadas na manga (preparem-se!).

Todas estas questões são a própria desconstrução da narrativa clássica desde a tragédia grega para uma felicidade queer pós moderna da dimensão do possível, um campo de possibilidades que antes não era dado, e onde enfrentar o fim do mundo com a pessoa amada pode ressignificar a tentativa de se infiltrar e subverter um final “feliz”… Afinal, o que é final feliz?! Finais felizes talvez sejam superestimados… Ou talvez finais felizes sejam simplesmente um apocalipse de arco-íris para a realidade superada.