Oscar 2017: polêmicas nos Estados Unidos e no Brasil

A temporada de premiações ainda nem começou, mas já está dando o que falar.

por

14 de setembro de 2016

O ano começou com uma baita dor de cabeça para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) por causa da falta de diversidade na lista de indicados ao Oscar 2016, que, pelo segundo ano consecutivo, não tinha nenhum ator negro na disputa pela estatueta dourada. Criticada com veemência e alvo de boicote por profissionais que se recusaram a comparecer à cerimônia, a instituição tomou medidas de inclusão nos meses seguintes, dentre elas, o convite para novos membros – ao todo, 683 profissionais de 59 países foram convidados, sendo 41% não caucasianos e 46% de mulheres.

Esse convite foi uma medida importante na teoria, mas na prática não tem nenhum impacto significativo sobre o modus operandi da AMPAS, bem como no que tange às futuras indicações, porque o aumento é de menos de 5% se comparado ao quadro da Academia do início do ano – isso num cenário positivo em que todos tenham dito “sim” ao convite da instituição.

A verdade é que a AMPAS tem urgência em recuperar o respeito de outrora e não medirá esforços para isso. Afinal, é a responsável pelo prêmio mais cobiçado do cinema mundial, entregue durante uma cerimônia cansativa, mas que pessoas de todas as idades e nacionalidades param para assistir, apesar da perda de audiência dos últimos anos, especialmente nos Estados Unidos, algo que tem influenciado a própria dinâmica da premiação, que cada vez mais busca se aproximar do público jovem.

Nate Parker em cena de "The Birth of a Nation", drama baseado numa história real.

Nate Parker em cena de “The Birth of a Nation”, drama baseado numa história real.

Num cenário conturbado para AMPAS e para a indústria cinematográfica, a verdadeira responsável pela falta de diversidade dos indicados ao Oscar, surgiu na imprensa um título considerado o vencedor do Oscar 2017: “The Birth of a Nation” (Idem – 2016), dirigido, roteirizado e protagonizado por Nate Parker. Aclamado pela crítica estrangeira, vencedor do Festival de Sundance e ovacionado pela plateia do Festival de Toronto (Toronto International Film Festival – TIFF), o longa se tornou a grande polêmica da próxima edição do Oscar, uma vez que membros da Academia já anunciaram sua recusa em assisti-lo devido à antiga acusação de estupro contra Parker e Jean Celestin, que também assina o roteiro do filme, alegando que não há como dissociar o homem de uma obra escrita, dirigida e protagonizada por ele – Parker foi absolvido em 2001 e Celestin, condenado, mas teve sua sentença anulada após recurso.

Surpreendida por um repórter do TMZ em agosto passado, a presidente Cheryl Boone Isaacs precisou contornar a situação, afirmando que as pessoas precisam assistir ao filme, pois são questões distintas (pessoal e profissional). Contudo, o posicionamento neutro da presidente da AMPAS não diminuiu o burburinho em torno da produção, cuja campanha para o Oscar tem sido ofuscada pelo escândalo pessoal de Parker. Ainda é cedo para dimensionar o impacto das manchetes negativas sobre “The Birth of a Nation”, principalmente porque ele só chegará às salas de exibição americanas em 07 de outubro. Ou seja, a aceitação ou não do público também exercerá alguma influência sobre o desempenho desta obra na temporada de premiações que se encerrará com a cerimônia do Oscar em 26 de fevereiro.

Se na Terra do Tio Sam o imbróglio oscarizado deve-se a um escândalo de cunho pessoal, em terras brasileiras fica por conta da escolha de um filme igualmente inédito para representar o Brasil na disputa por uma vaga entre os cinco finalistas da categoria de melhor filme estrangeiro. Dirigido por David Schürmann, “Pequeno Segredo” (2016) desbancou o franco favorito “Aquarius” (2016), de Kleber Mendonça Filho, ocasionando uma onda de protestos que impulsionou ainda mais a polêmica em torno deste longa ovacionado no Festival de Cannes, onde sua equipe protestou contra o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Longa é baseado numa história real.

Longa também é baseado numa história real.

Num país politicamente polarizado, o protesto em Cannes gerou aplausos e críticas, inclusive do jornalista Marcos Petrucelli, que mais tarde seria anunciado como um dos membros da comissão formada pela Secretaria do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura (MinC), responsável pela escolha do título brasileiro na corrida pelo Golden Boy. Com um favorito absoluto entre os inscritos, obviamente o processo seletivo se deu sob pressão e, portanto, pode-se dizer que qualquer título selecionado em detrimento de “Aquarius” se tornaria alvo de críticas, potencializadas pelo ineditismo de “Pequeno Segredo”, que ganhou de brinde uma torcida contra em seu próprio país.

Na última terça-feira, dia 13, o cineasta Bruno Barreto, presidente da comissão, disse em entrevista ao jornal O Globo que o processo seletivo não sofreu “nenhuma pressão política”, em resposta às incessantes acusações contra a comissão, mas reclamou da ausência de Carla Camurati e Adriana Rattes na reunião para a escolha do representante nacional – as duas não compareceram, mas votaram à distância. “Um debate justo se faz com todos os presentes. As pessoas que faziam parte da comissão eram qualificadas, todos os filmes foram debatidos, e o resultado foi o que foi. Se elas estivessem lá, o resultado poderia ter sido outro. A ausência delas me deixou muito irritado porque gera um monte de teorias de conspiração que não são verdadeiras”, disse Barreto ao jornal.

Ao jornal Estado de São Paulo, o cineasta, que teve uma de suas obras indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), disse que a prévia da votação indicou uma disputa entre “Pequeno Segredo” e “Aquarius”, cada um com quatro votos, enquanto outro votante tendia para “Nise – O Coração da Loucura” (2016), de Roberto Berliner, que foi o voto decisivo para o longa de Schürmann, baseado na história real de sua família, enfatizando a adoção de sua irmã, Kat.

Com isso, a campanha de “Pequeno Segredo” não será fácil, não apenas em relação ao Oscar, num processo seletivo árduo, mas também em relação a derrubar a barreira de parte da plateia, convencendo-a a lhe conceder o benefício da dúvida e assisti-lo, para, então, julgá-lo da maneira devida.