Ou Tudo ou Nada

Brava luta do teatro ao escolher "Tudo" ao invés de paralisar-se diante de um país de incertezas

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12 de novembro de 2015

O espetáculo musical “Ou Tudo ou Nada” – versão em português de Artur Xexéo, e direção de Tadeu Aguiar -, em cartaz no Theatro NET Rio, em Copacabana, Rio de Janeiro, não se trata apenas de mais uma peça musical, mas sim de uma luta resiliente para manter-se vivo o mundo das artes, e o ato de se fazer teatro em um país tão desigual como o nosso. Transcrito a partir do filme britânico independente The Full Monty, de 1997, a comédia musical brasileira é ambientada também numa cidade antes próspera, e em fase de decadência, e conta a história de seis demitidos – sujeitos comuns – que arranjam um meio muito original de dar a volta por cima: subir ao palco para um striptease. Para isso, têm de enfrentar seus medos e inseguranças quanto à aparência ao investir no show em que, como diferencial, prometem a nudez completa. O filme, imediatamente ganhou o reconhecimento do público, virando fenômeno de bilheteria. Transformado em musical de sucesso na Broadway por Terrence McNally e David Yazbek, a comédia ganhou dezenas de montagens mundo afora. O texto de Artur Xexéu é bastante ágil e dinâmico. Fiel a história original, e nos transporta com muita fidelidade ao universo das personagens do filme, sem necessariamente as colocar no mesmo lugar de onde ocorre a trama original. Ela poderia facilmente acontecer em uma republiqueta qualquer, ou em qualquer país, bem perto de nós, que se encontre em crise profunda, e esteja descendo a ladeira economicamente. Onde diariamente podemos ver demissões em massa em suas indústrias, diminuição de salários, empresas quebrando, e até chegar ao extremo total em aniquilarem um caderno de literatura do jornal mais visto da cidade vitrine deste determinado país, e com 400 profissionais da imprensa sendo jogados à rua, da noite para o dia. Onde a cultura é o primeiro artigo “”supérfluo”” a ser cortado! Qualquer semelhança neste caso não será mera coincidência. Já sabem de que país se trata, não é mesmo?

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O sexteto de “Ou Tudo ou Nada” é liderado por Mouhamed Harfouch como Jerry, e tendo como ótimo contraponto o seu amigo Dave vivido por Claudio Mendes, e a introspectiva atuação de André Dias como Malcolm.

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Claudio Mendes e o divertido stripe vivido por Fabio Bianchini, que dá dicas ao grupo sobre como atuar.

A direção de Tadeu Aguiar é bastante delicada e precisa em constituir uma concepção cênica que reproduz uma fábrica, em riquezas de detalhes, meio abandonada. Utilizando com muita harmonia e criatividade, as entradas e saídas desta fábrica – e das cenas-; não incorrendo no erro de usar apenas as duas, a exaustão. Muito ao contrário, ele nos surpreende e nos encanta cena a cena. Aguiar explora muito bem todo o espaço cênico e também o bom uso da plateia. Ainda sobre a cenografia de Edward Monteiro, ela se adequa perfeitamente a proposta da encenação, que privilegiou o trabalho de ator, e as ótimas possibilidades que as personagens propõem ao enredo delicioso, destes homens comuns que resolvem, em situação de desespero, tirarem as suas roupas em um único show de striptease. Personagens estes, que enfrentam uma crise econômica, e buscam coragem e força para seguirem em frente, mesmo diante da crise econômica e do desemprego. Ótimos também são os figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal, que traduz bem as mazelas de cada personagem em seu vestuário. As coreografias de Alan Rezende são bastante orgânicas com o gestual natural, e as marcas da peça, e tem o mérito de não serem maior do que caberia a estas personagens desempregados. Tudo isto é milimetricamente pensado pela direção de Aguiar, que leva toda a encenação com delicadeza, destreza e grande sensibilidade. Aliando muito bem divertimento garantido a reflexão consentida. Sem grande espetacularização e muita verdade cênica. A direção musical de Miguel Briamonte e a versão das músicas brasileiras de Artur Xexéo são muito bem encaixadas também, e dialogam com precisão sobre as temáticas abordadas. O que é muito bom, pois o espetáculo todo tem uma vibração mais para uma sonoridade média, nos colocando os dois pés no chão, e nos aproximando de um som e de uma dança possível à todos. Humanizando as personagens. Este é o grande acerto do trabalho de toda a equipe, que soube explorar com inteligência o proposital despreparo das personagens, em função dos ótimos desempenhos globais. No elenco, podemos destacar a revelação de ator mirim Xande Valois como o lindo Nathan, o ótimo trabalho de liderança de Mouhamed Harfouch como Jerry, e tendo como ótimo contraponto o seu amigo Dave vivido por Claudio Mendes, e a introspectiva atuação de André Dias como Malcolm. Assim como as ótimas atuações de Larissa Landin como Joana, Patrícia França como Vicki e Sylvia Massari como a pianista ensaiadora.

“Ou tudo ou Nada” não é apenas um ótimo musical, mas sim uma vitória do teatro brasileiro, mas precisamente do teatro carioca, em conseguir colocar em cena uma empreitada teatral deste porte! Era para ser “ou Tudo” ou “Nada”, e felizmente, assim como no filme, foi “Tudoooo”!!!

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No elenco, podemos destacar a revelação de ator mirim Xande Valois como o lindo Nathan

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O grupo, ainda de tapa-sexos, antes da cena final, mais prometida de todas, de nudez total

FICHA TÉCNICA –

Autores: Terrence McNally (texto) e David Yazbek (música)

Direção: Tadeu Aguiar

Direção musical: Miguel Briamonte | Versão para o português: Artur Xexéo

Elenco: Mouhamed Harfouch (Jerry), Claudio Mendes (Dave), André Dias (Malcolm), Victor Maia (Ethan), Carlos Arruza (Harold), Sérgio Menezes (Jegue), Xande Valois (Nathan), Patrícia França (Vicki), Kacau Gomes (Geórgia), Sylvia Massari (Jeanette), Samantha Caracante (Pam), Carol Futuro (Estela), Sara Marques (Susan), Larissa Landin (Joana), Fabio Bianchini (Bobby/Keno), Felipe Niemeyer (Teddy), Gabriel Peregrino (Regis), Raphaell Alonso (Marty), Christiane Mattos (velha do asilo).

Duração: 140 minutos

Classificação etária: 10 anos

Cenário: Edward Monteiro

Figurino: Ney Madeira e Dani Vidal

Coreografia: Alan Rezende

Desenho de luz: David Bosboom e Daniela Sanchez

Desenho de som: Gabriel D’Angelo e Bruno Pinho

Multimídia: Paulo Severo

Assistente de direção: Flávia Rinaldi

2a. Assistente de direção: Claire Nativel

Assistente de coreografia: Rafael Camel

Assistente de produção: Leandro Giglio

Assistente de direção musical: Daniel Sanches

Orquestração: Harold Wheeler

Arranjos Vocais e incidentais: Ted Sperling

Arranjos para músicas de dança: Zane Mark

Preparador vocal: Mirna Rubim

Design gráfico: Claudia Xavier

Músicos: Miguel Briamonte, Daniel Sanches – piano / Josias Franco, Ricardo Hulck, Marco Moreira (Chiquinho) – sopros / Pedro Silveira – guitarra / Leandro Vasques – baixo / Tiago Calderano – bateria

Coordenação de produção: Norma Thiré

Produtor Associado: Brainstorming Entretenimento

Produção geral: Eduardo Bakr

Realização: Estamos Aqui Produções Artísticas

Baseado no filme da Fox Searchlight Picture escrito por Simon Beaufoy, produzido por Uberto Pasolini, dir. de Peter Cattaneo.

SERVIÇO-

Theatro Net-Rio

Estreia: 10 de outubro de 2015

Horário: Quinta e sexta, 21h | Sábado, 18h e 21h30 | Domingo, 19h

Capacidade: 614 lugares

Ingresso: R$ 150, R$ 100 e R$ 50

Bilheteria: segunda a domingo, 10 às 22h

www.ingressorapido.com.br

Endereço: Shopping Siqueira Campos

Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana, Rio de Janeiro – RJ

21 2147 8060

Estacionamento pago / Acesso para deficientes


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