Palestra com Curadora da Quinzena dos Realizadores de Cannes

Ancine proporciona aproximação com processo de seleção dos filmes brasileiros no Festival Cannes

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28 de fevereiro de 2018

Palestra com a curadora da Quinzena dos Realizadores em Cannes, Anne Delseth

Consultora de outros Festivais, mas em Cannes faz parte da equipe de curadoria da Quinzena dos Realizadores em Cannes, que é uma seção um pouco mais punk e foi criada após a revolução de 68. Muitos estudantes foram ao Festival protestar, porque Cannes era julgado de forma muito burguesa. Da Manifestação foi gerada a Sociedade de Diretores da França criada naquele ano procurando por novidades. Antigamente os filmes eram enviados pelas próprias embaixadas, e a partir dali deixou de ter quota e foi possível ser enviado de qualquer lugar.

20180228_151937A primeira edição da Quinzena foi 69 e era para fazer como uma declaração. Muitos cineastas de linguagem autoral passaram por lá desde então. Hoje em Dia temos outras seções autorais também como Un Certain Regard e etc….

Possuem mais liberdade para exibir filmes fora do padrão, com tamanhos diferenciados, até mais longos, ou seriado completo até. Sessão não Competitiva, único aberto ao público e ir sem roupa a caráter…. Mas concedem menção Honrosa para fazer valer à pena a inscrição das pessoas. Recebem uns 2000 filmes do mundo e selecionam 20.

Exemplos mais concretos:

Para inscrever melhor seu filme, a solução é tentar inscrever em todas as sessões, e se for selecionado por todos, afunilar e selecionar. As sessões têm certa competição saudável entre si, mas com comunicação entre si. Mas não necessariamente recomenda filme de uma sessão para a outra. A equipe trabalha também para outros Festivais. A curadoria apenas da Quinzena não é o suficiente para trabalhar no ano, claro. (Eles recebem por 4 meses para assistir filmes, e fazem de coração, pois é uma dedicação que dura o ano inteiro.).

Pode inscrever em formato DCP ou DVD….vêem filmes todos os dias em Paris neste período de 9h às 19h em DCP assistindo junto. Os em DVD assistem de noite em casa não necessariamente juntos.

Claro que existe formato link que por enquanto se perde um pouco o registro, então ainda não consideram oficialmente, mas o formato cada vez mais pende para aí, e o formato talvez mude em breve para receber melhor links

Quando recebem filmes de alguma nacionalidade, não esperam nada específico, como se fosse ser um movimento, como o atual cinema brasileiro. Esperam algo novo de cada um. Querem ser surpreendidos. Mas de fato percebem quando vem algum filme com “cara de Cannes”, por exemplo imitando Dardennes, e eles não apreciam isso.

Mas sobre filmes brasileiros dos anos 60 a 80 muitos longas eram inscritos e iam muitos para lá. Mas depois minguou. Apesar de ter continuado a selecionar curtas….

Anne vem há uns 7 anos ao Brasil, e vai a Festivais como Tiradentes, como possibilitado pela Ancine, mas acha que ainda há uma impressão de Cinema Novo ou de colagem daqueles recursos e que não corresponde mais com o que procuram na cinematografia contemporânea mundial. Por incrível que pareça, andam encontrando uma liberdade à parte desta linguagem justamente a partir dos curtas, que andam sendo mais criativos e livres. Gostaria até de entender isso é perguntaria aos presentes aqui depois se sabem explicar. Também entendem que há uma filmografia mais comercial de sucesso no Brasil, mas que também não tem a ver com Cannes.

Eles fazem esse contato de entender e conhecer melhor as filmografias internacionais indo a vários países como vêm ao Brasil. E amam também as pessoas por trás dos filmes, conhecer cineastas e etc…. Existe uma necessidade de se aproximarem das pessoas que já programaram e gostariam de acompanhar a linguagem de suas filmografias etc…

Tem que saber a média de bom senso em procurar por eles (os curadores), claro que todos têm direito à resposta…Mas não de pedir feedback a cada 7 min no Facebook por exemplo. Reconhecem que não são nada sem os realizadores…E nem todo perfil tem o perfil de Cannes, pode ter a ver com outro Festival ou sessão. Por exemplo, se possui um documentário experimental sobre peixe raro brasileiro, quando que só entram uns 2 Docs por ano, geralmente sobre cinema. E se o experimental não está sendo o perfil nesta administração, evite…pois a inscrição custa dinheiro.

E às vezes a seleção também tem a ver com o dia ou a ordem que vêem. Por exemplo, se viram uns 3 sobre máfia no mesmo dia, os filmes do mesmo gênero podem acabar influenciando a própria seleção uns dos outros por comparação.

Às vezes, Anne luta por filmes que não entram, mas fica feliz que entrem em Locarno ou Veneza e etc…

Também há prazos e filmes ficam velhos, pois há ciclos de um ano. Se o seu filme ficou pronto em outubro é melhor inscrever em Berlim, por exemplo….Não desperdiçar a chance para esperar. E cuidado também para não ter inscrito em mais de um para dizer: ah, fui selecionado em Berlim…, mas quis esperar por vocês (como se usasse a seleção em Berlim como moeda de barganha, seja verdade ou mentira/blefe, e declinasse para se inscrever em Cannes e dizer que Berlim já tinha aceito) — cuidado pois eles se comunicam entre os Festivais.

E precisam de ineditismo mundial, não podem ter sido já exibidos.

O lançamento mundial tem de ser muito conversado com seus produtores para não queimar em outros Festivais.

Qual a relação com a Ancine?

Vem ao Brasil para ver filmes, como recebeu lista de 72 longas e 30 e poucos Docs, sendo ao todo uns 100 filmes inscritos, e recebem bios de realizadores etc…E faz uma pré-seleção através de teasers, sinopse e etc, até porque vêem muitos work in progress.

Vai assistir esses filmes e projetos no MAM, vai ter pré-seleção. Se há filmes não inscritos quando gostam de algum que viram de fora, enviam um email pedindo para sugerir com que se inscrevam. Valendo lembrar que um voto de um dos curadores da equipe basta para eliminar.

Perguntada sobre possibilidade de inscrever em mais de uma sessão (a palavra sessão é como eles chamam cada Mostra de Cannes), já que na maioria dos Festivais não pode se inscrever em mais de um Mostra interna ao Festival, o que eles dizem é que as sessões de Cannes são como se fossem 3 Festivais diferentes. Inscrever-se para a competição principal é excludente sim (pela Palma de Ouro), mas as outras seções são como se fossem Festivais independentes. Como se fosse o nosso Festival de Brasília e do Rio (você pode se inscrever em ambos e ser ou não selecionado, mas se for selecionado em ambos vai ter de declinar de um deles, pois só pode participar de um com ineditismo)… Pode se inscrever em todas as sessões paralelas justamente por causa desta autonomia entre elas. Como se fosse a sessão Forum da Berlinale que é independente das outras sessões.

Não há necessidade de inscrever pela Ancine para poder assistir. Qualquer um pode. E irá assistir em Paris mesmo que não tenha assistido na visita ao Brasil pela Ancine.

Há seções também mais alternativas como Laboratórios de filmes não acabados, e que possuem supervisão de produtores e distribuidores internacionais e podem receber auxílio posterior. Laboratórios inclusive externos à Cannes, como Berlim e etc, e os curadores também prestam atenção neles porque ganha um pouco mais de credibilidade e o projeto ganha mais visibilidade.

Talvez tenham até mais paciência com DVD porque estão sozinhos em casa e não querem ser aqueles que podem ter eliminado uma possível futura obra-prima, apesar de em DCP ser mais rápido quando todos juntos que confiam mais no grupo e em quando alguém elimina um filme.

Às vezes assistir teasers de filmes ainda em pós produção pode atrair atenção, até porque vêem muitos filmes inacabados ainda….work in progress….Aí vêem a ficha da pessoa para ver se ela tem outros filmes, ou mesmo curtas já no currículo ou até se já tem carreira. A biografia é muito importante, pois mostra que outros já prestaram atenção em vocês.

Às vezes seleciona em outras fases que reserva com outras cores (verde, por exemplo, para um pouco mais amadores ainda, ou amarelo para maior ousadia etc). E pode não passar agora mas anota para prestar atenção para próximas edições se já lhe chamou atenção antes com outros trabalhos

Neste ponto pergunto se para selecionar há espaço na inscrição para reconhecer gênero, raça, etnia, territorialidade (países com filmografia rara que supera adversidades) e regionalidade (regiões ainda mais raras de produzir dentro de um território), ou mesmo se eles faziam um levantamento destes dados em edições anteriores para avaliar o quanto a pluralidade destes dados contribuiu para a diversidade de filmes e resultados de cada edição:

Anne responde que eles não se atêm a esta questão.

Por exemplo, cinema brasileiro em geral pode ter toda esta pluralidade, mas eles estão programando apenas uma seção de um Festival inteiro….E não precisariam desta especificidade. Pode ser que a sessão acabe com um filme selecionado do Brasil, ou até mais de um, e pode ser que representem regiões diferentes, ou representatividades diferentes, ou mesmo podem não representar. Ou pode ser que nenhum entre, mesmo representando diversidades interessantes. Não é um critério necessariamente.

Já trabalhou em Festivais maiores que já trabalhou na totalidade da seleção com 200 /300 filmes onde importa mais avaliar a diversidade no todo que permeia as sessões. Mas a Quinzena é apenas uma sessão independente e não atrelada à responsabilidade de um tema geral que permeie as decisões. Claro que às vezes defendem com mais afinco alguma produção, como foi o caso recente com o filme “Eu não sou uma Feiticeira”, dirigido por mulher e produzido na Zâmbia, que entrou na seleção, e onde isso não norteou a decisão, mas com certeza a qualidade do filme atrelada a estes fatores contribuiu para ampliar

Durante 5 anos Anne foi a única mulher do comitê de seleção. Agora tem uma segunda.

Mas tem de ser filme bom. Não adianta ser mediano. Claro que possui mais regozijo em ser dirigido por mulher, por africanas, que é mais raro, mas ficam muito felizes e pedem para o comitê prestar mais atenção, mas não podem se ater apenas a isso.

E filmes brasileiros por exemplo podem ter uma diversidade natural imensa por ser um país enorme e diversificado culturalmente…

Ano passado viram muitos filmes brasileiros sobre retorno ao campo, às origens, sobre magia, religião, tendência de olhar para as origens …

Pode argumentar, mas não fazer uma seleção desta forma.

Na seleção nunca houve menos de 3 filmes dirigidos por mulheres, o que fica agradecida, mas não é uma condição.

Presta atenção à questão de gênero no mundo todo, as questões de assédio incomodam mesmo. Mas por exemplo como os filmes que assistiu recentemente pode falar sim que os filmes brasileiros precisam prestar mais atenção na representação feminina dos filmes brasileiros. Para tomarem cuidado em não sem querer fazer personagens sem motivação própria, ou sem individualidade etc…E não é uma acusação específica, mas em geral sobre construção em geral do que ela pôde observar do todo….

Sobre olhar outras narrativas:

Sundance, Berlim e etc que tem temáticas ligadas à atualidade, mas são Festivais com 200/300 filmes com uma visão geral. Mas a Quinzena é visto como uma sessão à parte e não possui porte para representar uma mensagem em si, no máximo o filme em si pode representar uma mensagem. Cannes tem esse histórico de nunca ter feito edições temáticas justamente pela independência entre sessões que não se programam como um todo. E sim independentemente.

E acha sim que a representação de gênero na França estejam sim em atraso, vide a representatividade nos filmes, e no próprio país como no caso Catherine Deneuve…, e acha que há muito o que avançar ainda sim.

Mas não necessariamente acredita que um Festival de classe A é que teria uma função de alcançar a falta de acessibilidade que falta a alguns filmes de pluralidades e diversidades e que tenham dificuldade de chegar lá. Não daria para escolher um filme mais fraco apenas por vir de uma representatividade importante ou rara. Não há quota também. Não há necessidade de equilibrar as nacionalidades na seleção. Nem também uma necessidade de ter um filme iraniano por exemplo só porque o país talvez estivesse com um foco político em voga no mundo… É que ela acredita que o país é que seria responsável por suprir a defasagem da falta de acesso que filmes e representatividades teriam de chegar até lá, ou possuir finalização à altura para competir de igual.

Não se lembra necessariamente de filmes que quase entraram na Quinzena. Lembra sim só filmes que passaram em outros Festivais, como do Karim Ainouz, Trabalhar Cansa de Juliana Rojas e Marco Dutra, ou mesmo Gabriel e a Montanha na Semana da Crítica ano passado. Passaram mais curtas pela Quinzena, como o do Kleber e que pavimentou por exemplo caminho para ele entrar anos depois na competição principal com Aquarius.

Claro que houve Cinema Novo que entrou muito no Festival, havia uma forma de contar histórias que representavam o que acontecia no país e inovar em linguagem. E agora claro que os franceses estão bem curiosos com o cenário brasileiro e o que vai acontecer e como seus filmes irão reproduzir isso, mas precisam ter linguagem que interesse também, porque não é só a temática que irá ajudar.

Sobre a duração dos filmes, ela explica que isso não é uma condição, apesar de sua sessão da Quinzena exibir tanto longas quanto curtas, e, claro, se tiverem filmes com duração média que possam ser emparelhados numa sessão com curtas pode ajudar muito. E de fato algumas durações atrapalham bastante o encaixe em horários de exibição. Mas não são impeditivos quando há a vontade de fato em exibir o trabalho. O que Anne aconselha é não tolher o filme só para se encaixar em moldes pré-determinados de tamanho e com isso sem querer cortar algum frame ou cena que seriam cruciais para a obra ser selecionada.