Pantera Negra

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15 de fevereiro de 2018

Interrompemos a programação para dizer que “Pantera Negra” de Ryan Coogler (dos excelentes “Fruitvale Station” e “Creed”) de verdade são as mulheres! As amazonas da Mulher-Maravilha são fichinha na frente do exército Dora Milaje. Não à toa, a diretora de fotografia habitual a trabalhar com o diretor Ryan Coogler é uma mulher, Rachel Morrison. Ela já é uma recordista inclusive, pois este ano ela foi a primeira mulher a ser indicada na categoria de direção de fotografia do Oscar 2018 em 91 anos da premiação da Academia, pelo filme “Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi” da cineasta Dee Rees (também estreia desta quinta-feira, juntamente com “Pantera Negra”). 91 anos e esta era a última categoria que faltava ter uma indicação para mulheres em meio a quase um século de homens indicados, e esta diretora de fotografia sabe o valor de escolher projetos representativos e de importância social — como já declarou em entrevistas anteriores.

27540398_10209040593131816_2327925637813301191_nPor tudo isso e muito mais, quem começa falando sobre o filme a partir de sua produção Marvel Estúdios, com o perdão da palavra, mas não viu o mesmo filme que este almanaquista. Um filme que enfim honra o nosso berço do mundo no universo pop (enfim sem bichinhos fofinhos, tipo Rei Leão) traz às lágrimas quaisquer pessoas com o mínimo de sensibilidade.

Cena de ação com 3, sim TRÊS personagens femininas poderosas em cena (3 só nesta cena, pois em outras têm ainda mais) e apenas UM homem contra um exército armado até os dentes, e tudo o que a pessoa pensar em primeiro lugar ainda assim for que o filme é da Marvel, com o perdão da palavra, não tem sentimentos.

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Um filme que resgata o poder das crianças na reocupação do imaginário popular, não havendo um Ato do filme sem a inserção do olhar da novíssima geração germinada para o futuro, e ainda assim a pessoa se preocupa que é um filme Marvel….com o perdão da palavra, não tem coração.

Um filme com 90% do elenco e equipe de produção e filmagem negra, com uma declaração cultural inegável a partir do poder do afrofuturismo, ao pegar todas as crenças e tradições ascendentes africanas e ressignificá-las para o futuro, e ainda assim você ainda está se atendo ao selo Marvel…

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Uma direção de arte e figurinos com a combinação de cores mais arrojada de toda a história dos quadrinhos, até porque a Marvel costuma ter filmes predominantemente bicromáticos, quando não acinzentados, pegando neste exemplar desde o verde-amarelo ao roxo-avermelhado, ou mesmo o laranja com magenta, e sinceramente? A Marvel jamais sequer sonhou com estas cores.

Um filme de aventura/ação/fantasia onde a natureza e principalmente o SOL, o mesmo sol que ilumina a fotossíntese das plantações ou castiga a seca, que banha o gado ou dá energia à tecnologia futurista, esse mesmo SOL e a natureza são tão cruciais numa narrativa, como se personagens fossem.

Um filme que não teme navegar na dicotomia dúbia da responsabilização por uma visão alternativa de futuro onde uma terra intocada pôde prosperar como alternativa ao conceito hegemônico europeu capitalista, independente de preconceitos e discriminação ou escravidão, e contrapõe esta responsabilidade perante meios alternativos de governabilidade e mentalidade coletiva, sinceramente, tem todo o meu respeito.

Quem ainda assim pensa em primeiro lugar que é um filme Marvel… Queira me desculpar, mas não viu o mesmo filme que este almanaquista.

Podem retornar à programação normal…ou jamais se contentar com pouco novamente, agora que Pantera elevou o nível.

  • Elaine Thomazelli

    EXCEPCIONAL!!!!!