Para os que estão em casa

Espetáculo de estreia de Leonardo Netto, na dramaturgia, aborda a relação de amizade e amor através do telefone e das novas mídias tecnológicas

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02 de fevereiro de 2015

Em cartaz no Espaço Sesc, no Teatro de Arena, “Para os que estão em casa” é livremente inspirado no filme Denise está chamando (Denise calls up) de Hal Salwen. Escrita e dirigida por Leonardo Netto, esta montagem marca a estreia de Netto na dramaturgia teatral. A encenação parte de uma premissa bastante interessante, as relações de amizade, e amor, concretizadas quase que integralmente, através do telefone fixo e dos mais diversos meios tecnológicos que vêm acoplados, atualmente, aos telefones celulares: aplicativos de envio de fotos, vídeos, acesso ao facebook, skype, instagran, flickr, entre muitos outros. Isso, sem deixar de mencionar o excessivo número de aparelhos que cada uma das personagens possuem. Em muitos momentos existem conversas paralelas entre três, quatro, ou mais personagens. Potencializando bem esse nova máscara social do século 21, que esconde uma grande parte da humanidade, hoje em dia, por detrás de uma relação digital usual e cotidiana, que só faz em aumentar o, já gigantesco, grau de solidão no mundo.

Para os que estao em casa _1_Crédito Julia Rónai

Os atores estão dispostos circularmente em um ambiente caseiro cenografado por José Dias

Dispostas em um palco circular, sete personagens, e junto à eles uma pequena e simples ambientação, criada por José Dias, que acompanha as características físicas, emocionais e sociais a que cada um deles pertencem. Através desta geografia espacial, e cenográfica, podemos ver muitas coisas sobre elas. Em comum à todos, um banco de madeira que os dividem, e os unem. Ele representa justamente a linha fronteiriça entre todos, dando uma ideia de tão perto e, ao mesmo tempo, de tão longe…um pequeno objeto físico que os distanciam, ainda que eles interajam, sem contraceno direto, com os espaços alheios desenhados em paredes de luz por Aurélio de Simoni. Interessante também são os figurinos despojados de Marcelo Olinto, bem com cara de “estar em casa”, “permanecer”; e a trilha sonora muito elegante de Netto. Dão suporte também à  cena, a exibição de vídeos que ora são projeções, e ora podem se transformar em uma Tv de casa. Ficando clara e diferenciada também a exibição de um vídeo com macacos vivendo em uma vida selvagem, livre, e principalmente partilhando presencialmente os seus momentos – nada mais do que ser, estar, permanecer na natureza- ; em contraponto a todos os outros momentos que são de uma cena de filme ao telefone e outra no skype. Assim como na peça, todas as cenas, com exceção desta, são pelo contato indireto.

Para os que estao em casa_João Velho_Crédito Julia Rónai

João Velho em cena de “Para os que estão em casa”

Para os que estao em casa_Ana Abbott_Crédito Julia Rónai

Apesar da simplicidade, os adereços de cena colaboram em definir o estado e a condição social de cada uma das personagens

A atuação naturalista dos atores Adassa Martins, Ana Abbott, Beatriz Bertu, Cirillo Luna, Isabel Lobo, João Velho e Renato Livera, juntamente com o texto esperto e afiado de Netto, colaboram em ampliar o desconforto que sentimos ao assistir ao espetáculo “Para os que estão em casa”. Por estarmos todos dispostos no mesmo círculo, podemos sentir melhor a solidão, as perdas e os ganhos em cada uma das histórias contadas; ao mesmo tempo em que vemos diante de nós a total incapacidade, e completa impotência, das personagens em dar um passo à frente nas relações da vida no “mundo real”. Ao mesmo tempo em que a internet e a tecnologia nos uniu, ela também aumentou, em muito, a nossa distância. O tempo hoje é bastante fulgaz, pueril…trocamos anos, meses e dias de convívio; por minutos, segundos, instantes e nada mais…


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