Paraíso

Novo enfoque para drama sobre a 2a Guerra Mundial

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18 de janeiro de 2017

“Paraíso” é uma coprodução russa/alemã, ganhador do Leão de Prata de melhor direção no Festival de Berlim para Andrei Konchalovsky, de melhor atriz para Julia Vysotskaya, e agora é um dos 9 pré-selecionados ao Oscar de filme em língua estrangeira concorrendo por uma vaga nos indicados definitivos.
Sim, todo ano aparecem vários filmes sobre 2a Guerra Mundial e Holocausto, e, para se individualizarem, costumam trazer ou um ângulo ou linguagem visual novas…, como foi o caso de “Ida” e “Filho de Saul” nos últimos anos.
E “Paraíso” começa com dois diferenciais: o enfoque russo, de uma princesa da aristicracia russa simpatizante da Resistência Francesa….., e a linguagem visual muito bem construída, com elegante fotografia em P&B que aproveita bastante a redução da janela de projeção da telona, concentrando mais os cenários e marcações de elenco no centro do foco. Aliás, metaforicamente, como estamos falando dos portais para um paraíso teórico, como alude o título, as cenas contém muitos enquadramentos fechados através de portas e batantes ou corredores, obstruindo parcialmente a visão do que se vê ou do que pode entrar…
Enquanto isso, a narrativa tradicional do filme é cortada de modo intermitente por depoimentos em planos fixos, onde os protagonistas encaram a 4a parede como se estivessem sendo interrogados pela tela, com outra combinação cromática de P&B, mais saturada e com iluminação estourada, assumindo ser uma filmagem (tanto que brinca de queimar um pouco o negativo do filme como se fossem pequenos defeitos da captação). Não se diz em que momento se encaixa no restante do filme, podendo ser antes, depois ou independente, e onde todos os personagens que depõem como num confessionário estão vestindo um mesmo uniforme, como prisioneiros homogêneos, como se aqui não pudéssemos distinguir em qual lado da guerra eles estão apenas por suas aparências.
No restante da história, para além do diferencial do foco da prisioneira da realeza russa, há uma reviravolta antes da metade que põe em xeque o sistema narrativo usado até então, para depois acrescentar novos personagens. Talvez seja na terceira parte que ocorra só um pouco de um excesso narrativo ligeiramente desnecessário, principalmente com o personagem do jovem comandante nazista, onde o roteiro enfatiza os horrores do campo de concentração de formas que já foram vistas antes. Nada que prejudique o todo através da melhor personagem na pele da visceral atriz Julia Vysotskaya, que agrega camadas de vulnerabilidade e resiliência simultâneas ao instinto de sobrevivência animal, superior à quaisquer arquétipos sociais hierárquicos que possamos criar para nós.
O título PARAÍSO ainda ganha alguns bons sentidos contraditórios no final, sendo um deles bastante torpe e utópico através do personagem alemão, o que suaviza por contraste o que podem acusar de pieguice no sentido dado pela protagonista de Julia, que fecha a história com uma fé mais espiritualizada. Duro, mas sensível.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4