Pastor Claudio: Como o cinema dialoga com a realidade

Filme recém-disponibilizado online sobre tortura e desaparecimentos na época da Ditadura Militar ganha novas camadas à luz da urgência presente como diálogo com a atual administração do país

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31 de julho de 2019

Por falar em declarações polêmicas e por falar em governo atacando o cinema… Há pontos de convergência gritantes nesses dois fatores que demonstram e desnudam as verdadeiras intenções do governo em querer desmontar o cinema pensante do país! E um dos maiores pontos de convergência suscitado recentemente pelas polêmicas do executivo desta nação com certeza é o documentário “Pastor Cláudio” de Beth Formaggini — uma evidência audiovisual que destrói com as calúnias proferidas sobre a Ditadura Militar e sobre a responsabilidade no homicídio de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz.

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Não estou me filiando aqui à vertente histórica de que o gênero documentário nos cinemas deveria ser alçado ao pedestal de verdade absoluta por “reproduzir” a realidade como ela é… Pois entraríamos numa seara muito mais complexa sobre a verdade na representação da vida no cinema, e teríamos de mergulhar na pergunta sobre ‘o que é real e o que é ficção?’ segundo Christian Metz, por exemplo, ou sobre o ‘risco do real’ segundo Jean-Louis Comolli… Esta não é a questão aqui. O ponto é que o documentário de Beth Formaggini, como ótima documentarista que é, e seguindo a escola do grande Eduardo Coutinho, não pretende encerrar ou engolfar uma realidade muito mais complexa do que pouco mais de uma hora de projeção pode mostrar… Pretende sim colocar em diálogo perspectivas diversas que, uma vez contrapostas e tensionadas, podem gerar catarses ímpares que nem a Comissão da Verdade julgando os crimes da Ditadura às vezes pôde alcançar, por toda a formalidade de seus ritos e burocracia. E isto não é apenas algo que o cinema documentário deveria almejar, e sim o cinema como um todo, pois cinema é encontro de perspectivas, é coletivo, é imersão social, e é participação do destinatário final com a obra em constante transformação. Nenhum cinema é uma ilha, e sim cachoeira – como dizia o grande Humberto Mauro.

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Exemplos disto são as cenas em que Beth interpõe poeticamente forças opostas (e aí somos lembrados da força poética da poesia em constranger as vergonhas veladas da chamada ‘realidade’, caso sequer possamos provar o que é ‘real’), como a imagem de um Pastor Claudio Guerra (sim, seu sobrenome é Guerra!) aparentemente sendo franco, e sentindo-se redimido através da religião e da fé, com projeções dos familiares de suas vítimas sobrepostas sobre sua face. Ele é obrigado a ver seus depoimentos e sentimentos tanto em telas à sua frente quanto refletidos pela luz do projetor em sua própria pele, em seu corpo, em sua consciência muito mais pesada do que aparenta… Mas não pelo “peso” que pensamos.

Não é culpa o que ele aparenta… Diante de todas as formalidades e etiqueta da vida social vivendo na coletividade, ele sente um pesar de não poder até falar muito mais do que ele está falando… Ele sente orgulho do que fez. Chega em determinado momento a corrigir o interlocutor que o entrevista (o ativista por direitos humanos Eduardo Passos), pois outra pessoa na projeção da tela à sua frente estaria assumindo um crime que na verdade o próprio Pastor teria cometido! Crimes que englobam desde torturas ao desaparecimento de corpos durante o período da Ditadura Militar. – Ele corrige o suposto “equívoco” embevecido de seu feito! E o único peso que ostenta é o de não poder encaixar a sociedade que representa com o regramento social contemporâneo que deveria proteger os cidadãos desta representação que o Pastor gostaria de rever operando… Algo que o atual presidente da República está na sintonia ideológica que o Pastor Cláudio. Isso é algo que jamais uma Comissão da Verdade poderia extrair de seu personagem, pois apenas a catarse do cinema e diálogos propostos com a imagem e público, dentro e fora da tela, é que pode promover encontros para além do tempo e espaço de nossa consciência limitada da realidade.

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O mesmo Pastor Cláudio admite ter sido um dos responsáveis pelo descarte do corpo do pai do atual Presidente da OAB, através de incineração. Um relato que o Pastor já havia prestado na Comissão da Verdade e reitera com convicção e riqueza de detalhes no filme de Beth Formaggini. Afinal, podemos ver a reprodução deste conflito até nos sobrenomes dos protagonistas do filme sob o olhar da semiologia: Cláudio “Guerra” e Eduardo “Passos”, pois, onde um deles confronta os preceitos sociais, o outro estabelece um diálogo possível dando passos na direção de a sociedade tentar uma cura de anomalias como a do referido Pastor. Anomalias que não podem virar regra.

Como demonstram preceitos da psicanálise, a repetição de atos e relatos a cada sessão de terapia demonstra muito mais de nós do que poderíamos confessar apenas à primeira vista, e o cinema é a possibilidade de ampliar a potencialidade desta catarse de cura a nível do alcance de massas. Uma análise aprofundada de tensões dialéticas… E isto que é tido como tão perigoso para o governo atual, um meio de comunicação que dialoga e escuta a resposta, absorvendo as mudanças no sistema, diferente do monólogo unilateral e imposto que anda sendo tática desta administração no poder. Um diálogo coletivo não apenas na feitura e realização, com equipe técnica que envolveu nomes como Cleisson Vidal (fotografia), Julia Bernstein e Marcia Medeiros (montagem), Toninho Muricy (boom), Bernardo Gebara (supervisor de som), e muito mais gente que é empregada pelo audiovisual neste momento de crise, como é um diálogo também com o público que recepciona a obra e pode fazer algo com ela quando a recebe em suas vidas.

O filme da cineasta Beth Formaggini, que estreou no ano passado e já pode ser encontrado online*, não é a única evidência no momento disposta a diálogos… Nossa sétima arte anda produzindo um grande número de poderosas armas revolucionárias de contestação, tanto em cartaz no circuito como o doc “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” de Marcelo Gomes (do cult “Cinema, Aspirinas e Urubus” e outras obras ímpares), que reflete muito sobre a famigerada Reforma da Previdência que está sendo aprovada pelo governo; a distopia “Divino Amor” de Gabriel Mascaro, abordando a fusão entre política de Estado com a religião como ópio do povo; e “Democracia em Vertigem” de Petra Costa, disponível na #Netflix, sobre o Impeachment da Presidenta Dilma Rousseff e a prisão do Presidente Luíz Inácio Lula da Silva (sobre isso, imperdível também “O Processo” de Maria Augusta Ramos).

Mas há filmes na história do cinema que, inclusive, servem como corajosas evidências históricas cruciais de crimes de Estado, como o paradigma brasileiro “Cabra Marcado Para Morrer” de Eduardo Coutinho, ou, em terras estrangeiras, como “When The Mountains Tremble” de Pamela Yates e Newton Thomas Sigel, filme que chegou a ser usado em Tribunal Internacional para julgar crimes perpetrados por um Ditador na Guatemala no genocídio da população maia – e cuja obra a diretora Pamela Yates transformou numa espécie de trilogia acompanhando os desdobramentos deste julgamento em outros dois filmes. – Imaginem, então, se começássemos a dispor o nosso cinema como arma de contra-ataque nos tribunais para julgar os atos do atual presidente da República?

*Vale lembrar que além do longa-metragem “Pastor Cláudio”, já disponível nas plataformas VOD: iTunes, Google Play, Vivo Play, Now e Looke, a partir do dia 11/07/2019, há também uma obra em curta-metragem que deu origem ao longa chamada “Uma Família Ilustre” para quem se interessar em aprofundar o olhar na linguagem cinematográfica:

O filme Pastor Claudio pode ser visto nas plataformas:
iTunes – http://bit.ly/pastoriTunes
Google – http://bit.ly/pastorgoogle
Now – http://bit.ly/pastornow
Vivo – http://bit.ly/pastorvivo
Looke – http://bit.ly/pastorlooke