Paterson

De samurai e vampiro a poeta, cuja espada ou os caninos são a caneta

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23 de abril de 2016

“Desde pequeno nos ensinam que existem três dimensões das coisas: a largura, a profundidade e a altura. Mas aí aprendemos que existe uma quarta dimensão: o tempo. Então, poderia haver outras, uma quinta, sexta, sétima…dimensões.”

Com estes versos o protagonista em determinado momento da projeção resume muito bem toda a estrutura narrativa usada no inventivo e minimalista novo filme do mestre indie Jim Jarmusch: “Paterson”. Paterson nome próprio do personagem-título na pele do promissoramente crescente ator Adam Driver, e Paterson nome da cidade onde ele vive. Uma duplicidade de nomes e simbologias que permeará toda a história. Afinal, a estrutura de tempos prenunciada no início deste texto quer dizer que o acompanharemos por 7 dias da semana, em todos os seus afazeres, manias e lugares de hábito, e mostrando como pode haver vários significados para as mesmas coisas que só percebemos com a quebra da rotina através da ruptura da repetição.

Repetição é a palavra chave. Quantas vezes podemos ver a mesma cena ou cenário até notarmos algo diferente ou novo ali? A conta disso, e por Paterson dirigir um ônibus cuja linha também se chama Paterson, que ironicamente o cineasta faz deste protagonista onipresente um coadjuvante de várias narrativas alheias, fluindo na tela como tentáculos de uma mesma história repetida em outras sinas. As conversas informais no ônibus (lembrando “Nós e Eu” de Michel Gondry), com a câmera sempre presa do lado de dentro da janela, mesmo quando mira pra fora, são alguns dos momentos mais originais do longa. Como a dupla de amigos fracassados que se gaba da relação com mulheres e é ironizado pela sobrancelha arqueada de uma incrédula ouvinte ao lado. Paterson apenas ouve. Passivamente. Tudo inspiração para seu caderninho de poesias, todas feitas das coisas mais ordinárias do dia-a-dia, como sobre caixinhas de fósforos para significar o amor por sua esposa, pois pode significar a primeira vez que conheceu sua mulher e acendeu um cigarro para ela. E isso quer dizer amor para ele. Pois a chave de sua persona é a contemplação, como também o é em vários outros filmes do diretor Jarmusch, sempre com arquétipos interiorizados para refletir a vida, como um samurai em “Ghost Dog” ou vampiros em “Amantes Eternos”, e aqui um poeta meio samurai e meio vampiro, cuja espada ou os caninos são a caneta…

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Jarmusch sempre encontra um jeito encantador de retratar as partes mais mundanas da sociedade do cotidiano, das cidades-operárias americanas, das instituições falidas. E neste exemplar a cidade respira através da fotografia  de Frederick Elmes, colorida e desperta, com lindas imagens de fundo da cidade sobrepostas em fade uma sobre a outra, até que a transparência das paisagens se mesclem à da esposa de Paterson, por exemplo, inspiração de seus poemas, interpretada pela plácida e bela Golshifteh Farahani (de “A Pedra da Paciência”). Ou mesmo quando funde as narrativas alheias em uma só, devolvendo a perspectiva para Paterson.

Cada personagem, ou melhor, cada segmento representado por um dos principais membros de elenco, adquire sua própria direção de arte em muito inspirada nas manias e músicas que tocam em suas cenas. A esposa é a exótica, não só pela etnia da atriz iraniana que a interpreta, como pelo gosto por canções de country antigo (escolha esdrúxula e deslocada do diretor, mas compreensível em sua filmografia). E a conta disso os recintos da casa que lhe representam são todos retrô, preto e branco e cores suaves de azul, com fixação por muitas bolinhas pretas e riscados geométricos art déco. Já o dono do bar noturno (Barry Shabaka Henry), colecionador de anedotas famosas da cidade, é ouvinte de jazz e toda a sua ambientação é calcada na solidão das lanchonetes à meia luz de quadros de Edward Hopper. E o próprio Paterson, sempre ao ar livre dirigindo seu ônibus ao som de trilha orquestrada é o visual mais clássico-tradicional do filme, com fotografia límpida e cristalina, como a água da cachoeira que ele tanto admira.

Melhor prevenir que apesar e justamente devido a toda esta riqueza interpretativa, não é e nem se pretende um filme ágil ou editado em exagero na montagem. Cada transição em fade de dias da semana se dá com mais uma repetição sobre a monotonia. Mas leia-se aqui ‘monotonia’ como palavra de ordem sem a qual Paterson não vive. Haverá a vontade ansiosa do espectador em querer se apropriar da história e desejar quebrar a rotina na tela, como se ele estivesse ‘errado’ em apenas querer continuar exatamente daquela forma. Porém ele é feliz. Ele é uma inércia gravitacional inabalável com todas as coisas em seu devido lugar de onde tira paz e felicidade; assim como seus amigos, seu chefe na rodoviária, ou mesmo sua esposa o respeitam e aceitam exatamente por isso, em um incrível estudo de personagem com todas as suas esquisitices e idiossincrasias. Quando as coisas quebram o hábito é que formam digressões a lhe reiterar o valor desta mesma rotina. O que não está lá dá valor ao que está, pois só quem vive o cotidiano é que pode perceber quando as coisas desaparecem do entorno de seu convívio. Ironicamente, Jarmusch consegue mostrar de forma bastante sutil que não deseja manipular o espectador a julgar a monotonia, assim como espera que o público não julgue tão rapidamente seus personagens, em uma das catarses mais originais dos tempos recentes, contanto que a plateia tome seu próprio tempo para apreciar.

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Mostra de São Paulo

Paterson (idem)

EUA, 2016. 120 min

De Jim Jarmusch

Com Adam DriverGolshifteh FarahaniHelen-Jean Arthur

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5
  • Vera Maria

    Muito boa avaliação, longa e calma como o tempo do filme. Merci.