Paulina

Estupro como elemento catártico de ruptura da linguagem cinematográfica tradicional, em uma das melhores atuações femininas do ano

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16 de junho de 2016

Há filmes que contém uma única cena em torno da qual o filme inteiro gira, e tanto se anseia para que ela aconteça desde o anúncio dos trailers, quanto se frustra um pouco quando a obra não consegue ir além do impacto dela. Mas e se um longa-metragem ousasse de tal forma que transformasse o choque, a controvérsia, em pulsão narrativa, e ao invés de depender da tal cena, a cena dependesse do filme para ressignificá-la a cada instante, mudando os sentidos e direitos a cada surpresa? Este é o caso do argentino “Paulina” (“La Patota” no original) de Santiago Mitre (do já promissor “O Estudante”). Ainda mais pelo tema tão famigerado a que esta obra se refere ser o estupro, justo quando o Brasil passa por uma repercussão mundial após o crime coletivo que houve contra uma menor de idade. Algumas pessoas talvez nem queiram mais ver e ouvir sobre o assunto, mas urge mais do que nunca debatê-lo por novas óticas esclarecedoras se a sociedade desejar mudanças de verdade. E qual forma de arte com maior alcance de debate cultural que não o cinema, principalmente se alcançar status de cult por todas as maiores qualidades que uma sétima arte deva ter?

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Não que seja a primeira vez a se usar o estupro como elemento catártico de ruptura da linguagem cinematográfica tradicional, como no caso de “Irreversível”, mas neste caso o empoderamento sexista ainda era o do homem, usando a cronologia de trás para frente como ferramenta transgressora a partir da vingança do protagonista e só depois contando o crime que motivou a cadeia de violências. Em “Paulina” o crime em si não precisa nem tem de resumir o filme, pois é o que menos engloba as transformações ético-sociais que a protagonista irá propor, e seu diretor através dela. Uma advogada idealista, filha de um poderoso juiz, que abandona a promissora carreira para virar professora numa cidade interiorana e humilde. O filme e a protagonista propõem um dilema ético-filosófico à la Rousseau: o quanto somos responsáveis por nossas ações no meio onde vivemos para vivermos em harmonia? Mesmo que cada um tenha a liberdade de agir, ainda está restrito a não invadir a esfera do outro, de modo a levantar a questão se a consequência do ato de terceiros na nossa esfera pessoal continuaria sendo nossa responsabilidade, ou se passaria a ser de outrem, ou mesmo se precisaria ser de uma Instituição ainda maior, como o Estado? E nisto abarcam-se inúmeras questões em voga até hoje, como o aborto, a eutanásia e etc…

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Paulina é além do título do filme o nome da protagonista que representa uma vertente do triângulo, no papel de esclarecedora e não de vítima. As outras duas são compostas pela Justiça na figura de seu pai juiz outrora de esquerda e ora de direita, e dos jovens estupradores pobres e ignorantes que poderiam ser qualquer pessoa, um vizinho, um primo, ou mesmo um aluno… E daí em diante o filme reitera as perguntas que já havia feito antes em outras escalas. Desde o ato de abandonar a carreira como advogada e ir servir ao povo necessitado, a negar a herança imponente de seu pai, não é o estupro que fará a personagem mudar de ideia de quem ela é ou o que pretende. Há de se perguntar se uma personagem tão obstinada e abnegada assim poderia ser real ou não, mas de fato existem inúmeras pessoas no mundo real que deixam suas famílias para trabalhar com instituições e ONGs humanitárias como ‘Médicos Sem Fronteiras’ e ‘GreenPeace’, e se sujeitam a todos os riscos. Não é o risco que define o sujeito que faz essas escolhas. Então não vamos reduzir o personagem de Paulina a este ponto. O importante aqui é debater o quanto a liberdade e consciência do indivíduo influi socialmente e o quanto de nossas ações são realmente fruto do ‘eu’ e não do meio social.

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Para provar esta teoria o filme se lança dos corredores frios e elitistas dos Tribunais e escritórios para locações em campos terrosos e pobres, de cor ferrugem e acinzentado como um eterno mormaço ético-moral. Além de que a câmera se torna quase cúmplice da obstinação da protagonista em quebrar os tabus e regras dentro e fora da tela, brilhantemente interpretada por Dolores Fonzi (“Truman”), numa corajosa entrega que despertará sensações propositalmente contraditórias no público como nunca antes, desafiando noções pré-concebidas de justiça do homem, social ou divina. Existiria uma justiça isenta em reequilibrar todas as vertentes humanamente desiguais? E ainda traz como personagem central feminina novas camadas de empoderamento feminista à típica personagem antigamente fragilizada e escorchada nesta situação, como a de Jodie Foster no clássico “Acusados”. Um filme para ver a sós com a consciência individual, e rever na companhia do debate coletivo, ainda mais à luz do debate direita/esquerda pegando fogo no cenário político mundial.

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Ganhador do prêmio da Semana dos Realizadores em Cannes 2015 e prêmio especial da FIPRESCI, além de inúmeros outros ao redor do mundo, “Paulina” é baseado em um filme homônimo ao título original de 1960, “La Patota”, com a vantagem de o novo ter alterado inúmeros elementos significativos, inclusive o final, perante o maior espaço de debate político reivindicado na atualidade, principalmente para as mulheres no cinema. Para quem se interessar, vale muito a pena depois assistir ao clássico como contraponto de evolução social feminina na sétima arte.


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