Pecados antigos, longas sombras

Grande vencedor do Goya 2015 chega ao Festival do Rio

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04 de outubro de 2015

Há em “Pecados antigos, longas sombras” um lembrete recorrente para o público: belíssimas tomadas aéreas do cenário onde ocorre a ação, um pequeno povoado ao sul da Espanha pós-Franco, alertam que afastar-se dos fatos é, muitas vezes, a melhor maneira de compreendê-los. Essas tomadas advertem, também, para a insignificância do ser humano, cuja irrelevância é especialmente retratada na brutalidade de um assassinato duplo ocorrido na região.

No longa de Alberto Rodríguez dois detetives madrilenos são destacados para apurar o desaparecimento de duas irmãs adolescentes. Logo eles descobrem que as duas foram mortas com requintes de crueldade e que existem outras vítimas com o mesmo perfil, dando início à investigação do que parece ser a obra de um serial killer.

Pecados Antigos, Longas Sombras

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A trama, que se desenvolve organicamente e de forma bastante clara, é enriquecida por uma série de recursos narrativos que constroem uma atmosfera intensa de tensão e suspense. Abusando de closes, planos detalhe e profundidade de campo reduzida, o filme cria uma sensação de clausura que – mesmo em cenários amplos, como as plantações que fazem parte da paisagem da cidade – é constante. Esses recursos servem, também, para enriquecer o mistério que ronda os personagens, inclusive os protagonistas, cujas diferenças suscitam dúvidas quanto ao passado dos dois. Completa esse panorama a fotografia de Alex Catalán, que cria um cenário perfeito da falta de perspectiva do lugar a partir do contraste entre as cores frias que retratam os ambientes internos e a aridez evocada nas tomadas externas, cuja desolação remete à primeira temporada do fenômeno televisivo “True Detective”, ainda que em ambientes completamente distintos.

Pecados Antigos, Longas Sombras

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Aliás, a própria dinâmica da relação entre os detetives Juan e Pedro, vividos por Javier Guitiérrez e Raúl Arévalo, respectivamente, lembra a do seriado, contrapondo a truculência de um à humanidade (na falta de melhor termo) do outro. Do gritante conflito de personalidades surge uma simbiose que dá à dupla um sentido de unidade, de que a dupla se sobrepõe ao indivíduo, ainda que as ações de um soem, eventualmente, repugnantes ao outro, especialmente no contexto da redemocratização espanhola, período em que se desenvolve a história.

Pecados Antigos, Longas Sombras

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As inúmeras qualidades de “La isla mínima” (no original) fazem do longa de Rodríguez um primor em termos de técnica cinematográfica e um prazer enquanto entretenimento, sensação próxima a que foi causada por “O segredo de seus olhos” (2009), do argentino Juan José Campanella. Não por acaso, a obra arrebatou 10 Goya, principal prêmio do cinema espanhol, incluindo os de melhor filme e melhor diretor.   

Festival do Rio 2015 – Panorama do Cinema Mundial

Pecados antigos, longas sombras (La isla mínima)

Espanha, 2014, 104 minutos.

Direção: Alberto Rodríguez.

Com: Raúl Arévalo, Javier Gutiérrez, Antonio de la Torre.


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