Pele de Vênus

A Vênus de Polanski faz acerto de contas com sua vida, filmografia e com o espectador

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02 de outubro de 2015

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Após o polêmico projeto de Lei sobre o Estatuto da Família ser aprovado na Câmara reconhecendo apenas a relação entre homem e mulher e excluindo as homoafetivas, solteiras ou afins, como se gênero definisse alguma coisa, quão curioso é que o filme “Pele de Vênus” dirigido pelo célebre Roman Polanski em 2013 estreie somente agora, num momento tão a calhar, transcendendo o gênero ou o sexo. Dono de uma cinematografia complexa e sempre polêmico, quem diria que acertaria contas com seu passado profissional e familiares tão bem resolvido com um só filme. A sinopse é simples: uma desconhecida aspirante a atriz chega tarde às audições para o papel principal numa adaptação do romance homônimo (“A Vênus de Peles”) que quebra a fôrma de amor tradicional romântico e discute se existe amor ideal frente as relações de poder, porém a atriz envolve o diretor, antes descrente e de saída, num jogo de sedução para convencê-lo do contrário.

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As aparências não são o que parecem. Numa metalinguagem tripla e interdisciplinar, o livro adaptado na peça dentro do filme é real, e seu autor, Leopold Von Sacher-Masoch, acabou inspirando a denominação ‘masoquismo’, derivado de seu nome. Assim como nas artes entrelaçadas, os únicos dois protagonistas em cena também vão se revelando, e não se contentam em ser apenas personagens, e sim arquétipos, verdadeiras instituições representantes do ying e yang; dos deuses da beleza e amor aos da destruição e recriação. Ambicioso, porém certeiro. Graças à escalação de Emmanuelle Seigner, esposa do diretor na vida real e ex-musa de inúmeros cineastas de peso como Godard, bem como de um dos maiores nomes franceses dos últimos anos, Mathieu Amalric, do sublime “O Escafandro e a Borboleta”. A química é inegável, e ampliada pelo fato de o homem em cena querer ter ou possuir a força incontrolável feminina que, para decifrá-la, passa a desejar ser ela. E de outro lado, Seigner, encarnando uma Shiva dona do caos que domina a cena com precisão cirúrgica para um papel que parece reservado por milênios a ela, para além do feminino ou masculino, como uma figura de poder divina que ao mesmo tempo é assexuada e usa sua sedução para construir a bel prazer uma única família: a raça humana.

Muitos podem se perguntar se não recai na categoria depreciativa de ‘teatro filmado’, já que as cenas se concentram no palco e assentos da plateia vazia, como um grande ensaio libertino. E é aí que entra a maturidade inegável de Polanski. Como um ditador que peça nenhuma poderia substituir, seu olhar de câmera aprisiona o espectador, envolvendo-o numa das melhores iluminações do ano, bem como trilha orquestrada inspirada, em ângulos furtivos e jogos de palavras que desarmam. Há aqui alusões a seus clássicos como “Repulsa ao Sexo” e até mesmo “A Dança dos Vampiros”, do mesmo modo que resgata a figura feminina e da família em foco como tão tragicamente em sua vida lhe veio a ser tirada tantas vezes: sua mãe morta pelos nazistas; sua ex-mulher grávida assassinada pela seita de Charles Manson; a menor de idade que lhe acusou de estupro há tempos e depois voltou atrás, mas por isso até hoje ele ainda não pode pisar nos EUA para evitar prisão…e a deusa de esposa atual, que resgata todas as enormes lacunas de familiares e lembra que toda a dor, o medo e angústia são bons para acalmar a fera bestial que todos temos dentro de nós e abrimos concessões para viver harmonicamente em sociedade – eis uma outra leitura do masoquismo e recalque moral. E após uma repressão histórica, a mulher retoma seu ligar de direito como mãe natureza, como força inabalável geradora de pulsões de vida, de teatro e cinema.

 


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