Pelican Blood

“A força da maternidade é maior que as leis da natureza”

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12 de fevereiro de 2020

Atenção: Este texto pode conter spoilers sobre a trama

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Pelican Blood é uma produção belga-alemã, dirigida e roteirizada por Katrin Gebbe, que conta a história da persistência de uma mãe em ajudar uma filha cujo comportamento é atípico. O filme, exibido na abertura da Mostra Orizzont em Veneza e também no Festival do Rio de 2019, desenvolve-se muito bem em sua maior parte. Ao abordar as dificuldades de adaptação de uma criança traumatizada a uma nova família, aborda uma temática inicialmente similar ao excelente longa alemão System Crasher, de Nora Fingscheidt, exibido no mesmo Festival carioca.

Em Veneza, durante uma entrevista, Gebbe disse que o roteiro trata de “fronteiras afetivas que precisam ser transpostas”, e ele de fato trabalha o tema satisfatoriamente durante seus dois primeiros atos. Com uma interpretação brilhante da atriz Nina Hoss no papel principal como Wiebke, uma adestradora de cavalos e matriarca da família, o uso de uma estética dura e um cenário quase idílico, o filme cumpre seu objetivo. O mesmo consegue transmitir ao espectador a angústia de uma mãe que esgota todas as possibilidades possíveis para não desistir – ou aceitar – as limitações de sua filha adotiva. Porém, no terceiro ato a história se perde, levando com a ela a qualidade que até então vinha sendo transmitida.

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Ao utilizar o “sobrenatural” para justificar e solucionar o problema de Raya (muito bem interpretada pela atriz infantil Katerina Lipovska), Gebbe abriu mão não apenas da razoabilidade de seu roteiro, mas também de um final chocante, mas condizente com o que havia sido construído previamente. O foco deixa de ser a obstinação de Wiebke e o desenvolvimento da maternidade da mesma – exaltando inclusive a construção do vínculo entre mãe e filha – e passa a ser sobre a insanidade e obsessão de uma mãe que não se conforma com a condição de sua filha.

A metáfora desenvolvida ao longo da trama entre o cavalo incapaz de ser adestrado e a inadaptabilidade de Raya, onde em ambos os casos a protagonista recusa-se a aceitar o inevitável (colocando inclusive terceiros em risco, como a policial e sua outra filha, Nicolina) é mais latente ao público do que a que intitula a obra. É seguro dizer que o roteiro teria se beneficiado muito com o desenvolvimento e apresentação do passado da personagem principal, facilitando a compreensão e empatia por seus atos, muitas vezes desesperados. Inclusive havia espaço para tal, já que o filme possui uma duração mais extensa que o necessário, apresentando um ritmo lento, principalmente em seu segundo ato.

É válido ressaltar que críticas importantes estão presentes na trama. A produção de um longa-metragem que foca na busca da mulher pela maternidade sem a presença de qualquer figura masculina no contexto é algo ainda pouco abordado no audiovisual. Se considerarmos o país de origem da diretora e roteirista a relevância é ainda maior, pois na Alemanha não é permitido à mulheres solteiras ativas no mercado de trabalho adotem crianças – motivo pelo qual Wiebke vai até a Bulgária em busca de suas filhas. Apesar de um país moderno em muitos aspectos, ainda há um pensamento retrógrado com relação à configurações familiares, e Katrin Gebbe toca no assunto com uma sutileza eficaz.

Pelican Blood tinha todo o potencial para ser um destaque do gênero, ao abordar ousadamente temáticas psicológicas complexas, porém após o distanciamento do caminho racional, abriu-se mão do que seria uma inteligente solução. Mas é indispensável manter a diretora e roteirista alemã Katrin Gebbe “no radar”, por tratar-se de uma profissional que claramente tem um grande potencial a ser explorado, afinal este é apenas o segundo filme de sua carreira.

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