Pendular

Como diria Joy Division: "Love will tear us apart, again"

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20 de setembro de 2017

Sabem aqueles filmes que nos calam fundo antes de poder falar? Que vemos questionamentos humanos refletidos de tal forma que sentimos que fomos desnudados junto com o filme e precisamos nos recompor, vestir a roupa de volta antes de sair do cinema? E sabem quando isso não é uma coisa ruim? Muito pelo contrário, é desconcertantemente gratificante ver a plateia tão exposta por ter alcançado algo maior de si no cinema. E este filme é “Pendular” de Julia Murat. Pode tocar uma pessoa, duas, ou até não a todos ou a quase todos, mas com certeza ninguém ali deixará de sair mexido, como comprovaram os estrangeiros que também sentiram na pele ao premiar o filme no Festival de Berlim este ano.

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A história seria simples. Um casal de artistas, ela dançarina (Raquel Karro) e ele escultor (Rodrigo Bolzan), mudam-se para um Galpão na zona portuária “revitalizada” do Rio para poder ter mais espaço e privacidade, coabitando um ambiente de trabalho compartilhado no mesmo lugar onde moram, e é daí que virão as faíscas. Vale ressaltar que a questão de se a zona portuária carioca de fato foi revitalizada ou não será abordada mais adiante nesse texto. Mas o que importa primeiro é abordar o motivo deste filme conseguir sair da tela e tocar a alma humana. Para começar que há muitas verdades nele. Espere, cinema é feito de mentiras que podem provocar verdades no espectador, mas como as próprias mentiras poderiam ser verdadeiras? Pois bem, na verdade da criação. Toda criação carrega uma verdade dentro de si advinda da pessoalidade de quem a concebeu. Seja numa dança, escultura, roteiro e direção, pois, não por acaso, o roteiro do filme escrito a quatro mãos foi feito por um casal na vida real, Matias Mariani e Julia Murat, sendo ela também a diretora.

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Na verdade, à época em que escreviam o roteiro, estavam apenas começando a conhecer as intimidades um do outro, passando a estar numa posição privilegiada de familiaridade para depois ir desconstruindo todas essas intimidades de acordo com que a privacidade fosse sendo devassada, fundida e perdida no meio da mistura dos dois. Aliás, dos quatro. Os dois autores da obra e os dois personagens que, na esfera interna à do filme, também são criadores de sua própria arte. Há uma metalinguagem de mão dupla, numa metacriação, pois de fato há dança e esculturas construídas ali dentro das linhas do roteiro, tanto quanto a narrativa ainda insere uma visão crítica dentro da arte, pois há personagem amigo de ambos que é crítico profissional, tanto quanto se é lida crítica ao trabalho de dança da protagonista. Ou seja, nesta metacriação metacrítica, há uma forte troca da esfera dos afetos e do pathos dentro do ethos.

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Porém, mesmo tendo a visão masculina no corroteirista e no protagonista muito bem defendido por Rodrigo Bolzan, numa entrega total, a visão de uma mulher diretora não poderia se esquivar a tecer toda uma forte perspectiva a partir da protagonista de Raquel Karro, que acaba roubando silenciosamente o filme de sequestro relâmpago e só devolvendo quando nos juntamos a ela e nos deixamos nos sequestrar também. O nível de interiorização da personagem dela num filme que a retrata como uma dançarina perscrutando minuciosamente espaços, em meio a um galpão progressiva e agressivamente ocupado por tranqueiras das esculturas do companheiro, é de uma potência que poderia abarcar o mundo a cada investigação que ela faz do próprio corpo através de objetos que assimila e a partir de então se tornam familiares a ela. Seja a pilastra…ela se torna a pilastra. As cadeiras…ela se torna as cadeiras. Ou as obras ao redor que vão tomando seus “espaços vazios”…ela também se torna estas obras.

Porque a importante questão de gênero no tempo atual, de equiparação de direitos sociais e respeito mútuo ante o machismo estrutural, cabe aqui como uma metáfora de que o espaço sempre foi muito dado ao homem de forma visível, tangível, evidente. E à mulher não. Sempre teve de ser conquistado, mesmo que sutilmente sem que a misoginia hierárquica que a história consentiu aos homens percebesse. E o debate da relação do casal perpassa estas nunces de que a liberdade e escolhas da mulher sempre tiveram de passar por um crivo alheio ao seu corpo e à sua identidade…questão que não pode mais perdurar numa sociedade que avança a passos largos.

Raquel Karro e Felipe Rocha

Raquel Karro e Felipe Rocha

A questão também vai além unicamente da dicotomia ‘marido e mulher’. A relação dos dois parece procurar brechas nas armaduras binárias de sexualidade, desconstruindo o desejo e o tesão com fluidez de gênero. Uma excelente prova é a cena da dança na festa em que ela beija os amigos dançarinos gays quase como se fossem uma continuidade do movimento do corpo, e ele parece até gostar e sentir ainda mais tesão por ela. Não há necessariamente apenas uma pessoa ativa e outra passiva nesta relação, assim como não há na vida real, pois todo mundo toma atitudes o tempo inteiro. O sexo como metáfora não apenas de intimidade, porém de dinâmica, como se fosse um pêndulo que também inspira as obras do protagonista e que dá título ao filme, como se no vai e vem descortinado da rotina a carnalidade nos parecesse natural o bastante para não julgarmos, e sim fazermos parte da relação deles. A protagonista de Raquel dança o tempo inteiro. Os movimentos de dança dela muitas vezes são mais reveladores e até sensualmente eróticos do que qualquer cena de sexo, sempre belamente coreografada e ao mesmo tempo espontânea com o mesmo nível de autoexigência que as cenas de dança. – Tudo encarado pela fotografia igualmente íntima de Soledad Rodriguez como uma janela para a alma dos personagens.

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Mas espere. Eu disse que retornaria aqui para falar da tal “revitalização” da zona portuária do Rio, e isto é indissociável do restante, pois ao mesmo tempo se transforma em uma denúncia. O fato é que a escolha de o casal se mudar para uma região que era tida como extremamente perigosa e abandonada pelos serviços públicos é um ato político dos personagens e do filme. Não apenas procurando espaço em suas vidas, mas também na cidade e na identidade espacial que nos assimila ao mesmo tempo em que nós a assimilamos. Existe uma decisão consciente de trancar a câmera do lado de dentro do Galpão que vira moradia para eles. A câmera praticamente não vai à rua, apenas no final quando se liberta, enfim. Mas seria somente para se confinar e ampliar a intimidade claustrofóbica do casal? Ou seria pela insegurança do lugar que permanece inconstante? Mesmo após se vender a impressão de que tudo melhorou com a derrubada da Perimetral e obras de novos museus e transporte público (chamado VLT) a interligar toda a região? Ou talvez porque eles sejam um casal de elite que pode se dar ao luxo de se isolar e não se preocupar em como isto se interliga com as problemáticas do entorno? Que sequer absorveriam em sua arte a importância de se revitalizar aquela área como resgate recente do Patrimônio Histórico de resistência pela abolição da escravatura que o Cais do Valongo já foi ali naquela mesma região? Pode ser qualquer uma ou todas as alternativas ao mesmo tempo. Talvez por isso que a diretora os tenha isolado de tal forma microscópica, invasiva, como pêndulos a pender para um lado e para o outro e ao mesmo tempo para nenhum, por depender de seu contrapeso pelo qual estão atados…

E, então, como um pêndulo, voltamos ao início desse texto. É sempre muito difícil escrever sobre filmes muito íntimos para quem vê. A exposição do casal que se descarna à nossa frente era a minha mesma, de todos nós. E, como sempre, aqueles filmes que nos batem mais íntimos primeiro nos calam. Depois ressoam retumbantemente. Em parte a obra anterior da diretora de extrema delicadeza e força, “Histórias Que Só Existem Quando Lembradas”, já prenunciava o enorme talento de Julia Murat, como com primor em direção de arte que de fato já servia para contar sua história. Naquela ocasião, de uma comunidade de pessoas bem idosas que estavam fadadas a serem imortalizadas pelo esquecimento antes mesmo de terem a chance de morrer, até que se defrontam com uma pessoa jovem que traz a vida de volta à tona neles quebrando a rotina e a reinventando.

Agora, a palavra rotina regressa para a obra de Julia como sua força motriz, talvez uma influência dos livros de Virgínia Woolf que dialogava muito igualmente sobre como descobrir o essencial de nós mesmo através da repetição do cotidiano. Rotina dos personagens e até de equipe de filmagem, pois inúmeros nomes de colaboração de longa data retornam em funções como de produção ou montagem, como Julia Solomonoff e Marina Meliande. E é assim que ela faz seu raio X extremamente revelador de fora para dentro do filme e de dentro para fora. Portanto, abram espaço em suas prateleiras cinéfilas de clássicos de discussão de relacionamento de Woody Allen e Bergman para este filme devastadoramente pessoal.

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