Perifericu

Reinventar o próprio fazer cinema

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30 de janeiro de 2020

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Como reinventar o cinema? Faz um tempo que a sétima arte mundial anda estagnada e até retrógrada na muleta de seus símbolos e códigos, os quais, com o uso e desuso, foram perdendo muitos dos significados que seus significantes poderiam reinventar — especialmente no âmbito do cinema comercial. É triste reconhecer isso, mas também é evidente constatar que existem exceções potentes que ajudam a furar a bolha e a fazer o cinema respirar um pouco para fora de sua própria asfixia. O sistema precisa disso… A capacidade de se reciclar e se reinventar é inerente ao próprio existir desta arte cumulativa e coletiva, às vezes tratada como uma entidade intocável e impermeável presa dentro de suas respectivas máximas.

A própria descoberta e elaboração da linguagem do cinema na virada do século XIX para o XX foi um acontecimento ímpar, algo sem paralelo na forma de ver o mundo e poder gerar reações a ele…, porém isso também faz pensar se ainda pode existir uma nova descoberta que o supere e o suceda ou se iríamos precisar reinventar o fazer cinema em si para alcançar algo novo! Faz pensar se isto poderia existir e se não o encontraríamos em filmes como a obra-prima multipremiada “Negrum3” de Diego Paulino e o mais recente “Perifericu”, dirigido coletivamente por um grupo de mulheres que inclui Stheffany Fernanda, Vita Pereira, Nayara Mendl e Rosa Caldeira.

A resposta que esses filmes podem trazer dialogam diretamente com uma reflexão em parte provocada pela fala da pesquisadora, transfeminista, escritora e dramaturga Helena Vieira, que fez parte do debate proporcionado pela 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes na mesa sobre “A Imaginação como Potência”, tema principal desta edição do Festival. Helena provocava que precisamos “deformar as mesmas molduras tão sólidas que nos levaram a uma crise onde nossos referenciais perderam a capacidade de se reinventar, pois precisaríamos de um alargamento dos sentidos entre cinema, espectador e filme…, precisaríamos de filmes para dialogar com o corpo e que talvez nem saibamos definir, precisaríamos produzir algo como construir em outros gêneros”. E a palavra ‘gênero’ na fala de Helena possui muitos sentidos… Inclusive o de que o cinema necessita mais do que nunca das questões afirmativas como da transgeneridade… ou deveríamos abordar melhor através da interseccionalidade como com o afrotransfeminismo e a pauta tranvestigênere. Pautas que se comunicam diretamente com o recente “Perifericu” que foi exibido na Seção 3 da Mostra Foco aqui na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

O filme não estaria conectado com a provocação de Helena apenas em seu conteúdo, e sim também na forma e camadas de se fazer cinema, algo em voga nas discussões mais modernas de cinema. A expressão “lugar de fala” (“O que é lugar de fala?” de Djamila Ribeiro), já tão usada e às vezes mal interpretada, na verdade se expande aqui num fazer coletivo, de sororidade, e um olhar que vai além da sociedade cis-heteronormativa e binária que por tanto tempo dominou os códigos de cinema.

Podemos começar refletindo sobre signos do cinema clássico, como o elenco coral (ou seja, não há apenas um protagonismo)… Mas, se de plano nós debatemos que se trata de um fazer coletivo, por que o termo “elenco coral” já não estaria ultrapassado e defasado? Assim como poderíamos falar de plano-conjunto, travellings e panorâmicas na tentativa de democratizar a linguagem tradicional de modo a dizer que os corpos apresentados de forma coletiva e cruzando espaços e quadros teriam uma ocupação a ressignificar a tela… Porém, mais uma vez, por que estes termos fariam algum sentido numa fabricação de novos sentidos… Ainda mais termos norte-americanos como travellings ou franceses como plongées e contra-plongées… Ainda mais no Brasil, ainda mais em quebradas anti-hegemônicas…

Não estamos falando das tradicionais narrativas, e as ordens de polaridades podem ser invertidas também nesta nova dimensionalidade, como a presença no filme da espiritualidade e da fé, reocupadas e ressignificadas numa das mais potentes revalorizações da música evangélica contemporânea, com a performance dublada e dançada em ritmo de funk pela atriz e diretora Vita Pereira (um furacão em cena), numa sequência que definitivamente ficará marcada na memória deste crítico. Uma cena tão necessária para vencermos muitas intolerâncias, como a ausência de empatia ao próximo que alguns dos próprios representantes da religião evangélica atualmente no poder político do Brasil andam pregando, e que nem a religião evangélica nem os seus fiéis merecem tanto estreitamento do pensar e do amor! Ter fé é amar, sem distinção… Pois até a fé anda precisando ser ressignificada.

Pois, por que não? Que tal utilizarmos novos termos? Porque não falarmos sobre o transpassamento da câmera? Um translocamento entre espaços dançantes da boate para aqueles corpos existirem plenos e autônomos, em conjunto de autonomias… Sem jamais serem negativados à sombra de personagens antagonistas ao tema central, como a meninas que se aproxima na fila do banheiro para supor que poderia comprar drogas de uma das protagonistas… Inclusive, por que acreditar que a posição periférica na sociedade patriarcal e racista iria justificar que quaisquer sujeitos e sujeitas plenas de direitos deveriam se permitir definir pelo olhar estereotipado de qualquer pessoa que não o seu próprio direito de se autodefinir?

Por que os tempos e cortes do cinema deveriam levar sempre a um mesmo afluente de caminhos únicos, tão típicos da jornada do herói ou heroína, senão revolucionar ou avacalhar com o raccord da sociedade? “Raccord”…? O que diabo é isso na frente da potência de suas protagonistas também dirigirem suas personagens como dirigem suas vidas: livres de decupagem ou planos aprisionadores, atinadas apenas ao prolongamento eterno de suas vivências sem fim! — como na belíssima declamação dos versos finais pela personagem Denise (numa intimista performance reveladora de Ingrid Martins), de modo frontal à câmera, desafiando a todos nós a dar sequência a este plano por nós mesmos também, num cinema social 3D.

Esta é uma experiência extremamente válida e estética, quase um diário documental que se ficcionaliza ao trilhar seus próprios passos, permitindo na tela o que não podemos voar com asas que de fato quebrem as regras da gravidade, senão somente com a imaginação do cinema. As grandes mulheres que tiveram esta sacada, Stheffany Fernanda, Vita Pereira, Nayara Mendl e Rosa Caldeira, propõem subverter a ordem cinematográfica, convidando o espectador para confiar na aventura e se jogar! Um transcinema, ou deveria dizer uma cinema ou une cineme, ou quaisquer definições que queiramos dar a ele, pois a sétima arte não existe sem gente, e se é de gente que é feita, que o seja de modo inventivo, livre e contra o status quo, para “perturbar a paz”, nas palavras de Madonna e James Baldwin.

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Sinopse: A partir da coletividade e do afeto, a ficção conta a trajetória de Denise (Ingrid Martins) e Luz (Vita Pereira), mulheres negras que cresceram em um ambiente com canções de rap, louvores de igreja e passos de vogue, um tipo de dança que se popularizou nos anos 90, principalmente pelo público LGBT, e precisam se virar em um espaço pouco democrático e preconceituoso.

Com equipe majoritariamente feminina, periférica, LGBT+ e negra, o filme foi contemplado pelo VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), projeto da Prefeitura Municipal de São Paulo que fomenta a cultura. O filme é todo ambientado no Grajaú, bairro da zona sul de São Paulo, e foi gravado nos meses de fevereiro e março de 2019. (dados coletados: aqui)