Peripatético e Vazante

Contando suas próprias histórias

por

18 de setembro de 2017

Hoje no 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro houve o debate histórico com realizadores dos filmes da Mostra Competitiva exibidos na última sessão da noite anterior, “Peripatético” de Jéssica Jessica Queiroz e “Vazante” de Daniela Thomas. E, apesar de que de fato o longa-metragem de Daniela Thomas precisasse ser desconstruído (o que foi, por sinal, com uma verdadeira aula magna de roteiro gratuita dada pela roteirista Francine Barbosa, presente na plateia, que teria poupado o filme de inúmeros constrangimentos caso houvessem contratado consultorias especializadas antes de realizar o projeto), existe uma pequena grande injustiça que precisa ser renivelada na balança.

20170917_124306

Com tudo isso, o filme “Peripatético” de Jessica Queiroz acabou não tendo toda a atenção que merecia, até porque a própria relevância de se problematizar o filme de Daniela Thomas em muito se deve à potência de contraste dada por terem sido conjugados na mesma sessão, escancarando o vácuo entre como é fazer uma produção nos dias atuais em que se haja uma real crítica social originária do respectivo lugar de fala e de sua representatividade na tela, em contrapartida de narrativas que apenas reiteram a normatividade do status quo – Independente da beleza plástica com que podem ser revestidas, assim como um bombom velho dentro de um invólucro da Kopenhagen.

Bem, em relação à parte estética não se há o que falar de nenhum dos dois filmes, ambos inovadores em seus nichos opostos também neste quesito, mas que até aqui só amplia o abismo: por um lado a fotografia em P&B e sóbria de “Vazante” e do outro o colorido vibrante de “Peripatético”. O primeiro tentando emular um maior realismo e crueza da violência histórica, enquanto o segundo buscando no lúdico a catarse que potencializa e entranha a crueza do real na atualidade, que precisa da reinvenção de um imaginário positivo para existir afora da violência dos telejornais.

21192308_1448584355231768_6217830067405062005_n

Enquanto o filme de Daniela Thomas fala de escravidão mais uma vez pelo ponto de vista dos brancos escravocratas, narrativa repetida por tempo demais dentro do cinema que se pressupõe uma arte antropofágica por essência a reinventar a si mesma, o filme de Jéssica reincendeia o enregelamento dos afetos de questões da violência atual que transbordam de significados interativos sobre as noções pré-concebidas da plateia. Tratar-se-ia da história de três jovens amigos amadurecendo a decidir o resto de suas vidas pela frente, até serem atropelados pelos fatos reais de 2006, quando a polícia de SP reagiu ao crime organizado subindo comunidades periféricas e retaliando em cidadãos que não tinham nada a ver com isso. Eles apenas perteciam a uma estatística demográfica que foi feita de alvo. Mas o espectador de telejornais que recebe estatísticas está cada vez mais apático e auto-centrado e é através da catarse metafórica da arte que se consegue penetrar em sua armadura.

Still_Peripatético4-1024x435

Como numa homenagem a uma forma Wes Anderson de contar histórias, criando interlúdios oníricos em meio à narrativa do real, a diretora e sua roteirista Ananda Radhika criam analogias cênicas a materializar os pensamentos da protagonista (a ótima Larissa Noel) que não poderiam se esgotar na veracidade, pulando para o mundo dos sonhos. Desde animações bem inseridas como grafites dançantes pelos muros da cidade ou uma sequência na piscina para provar visualmente que pessoas diferentes podem ter o mesmo acesso ao mergulho, mas não podem nadar da mesma forma se não lhes foram oferecidas as mesmas condições. Ou mesmo uma interpretação da chacina de inocentes através de crianças no lugar dos policiais e das vítimas, com balões vermelhos estourados no lugar de tiros, e ketchup como sangue, mostrando a força do cinema em catalisar feridas abertas, como no lirismo de Michel Gondry aqui também referenciado.

Still_Peripatético2-1024x435

Afinal, por quem é feita a arte e para quem é feita a arte? Duas perguntas e escolhas que não poderiam ser mais intrinsecamente políticas, como o colega crítico Juliano Gomes lembrou bem no respectivo debate de hoje já supracitado. E esta é uma diferença abissal entre os dois filmes aqui correlacionados. Um deles utiliza de pessoas como objeto da história, sem contar a sua própria versão, enquanto que o outro é contado por pessoas que não só tem a chance de contar suas próprias histórias, mas como de mudar o curso da História.