Permanência

Como fazer um Romance com gostinho de café brasileiro

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30 de maio de 2015

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É inegável que o pernambucano Irandhir Santos seja talvez um dos atores brasileiros mais prolíficos no cinema atual, principalmente o tido como independente e alternativo. Não à toa, com exceção dos mega hits Globo Filmes, ele está presente em quase todos os mais premiados e inesperados sucessos justamente em projetos de baixo orçamento no mercado, como “O Som ao Redor” e “Tatuagem”, a maioria do expoente cinema pernambucano. Talvez o público brasileiro tenha finalmente lhe reconhecido mais com a popularização na novela da Globo “Meu Pedacinho de Chão”, porém há tantos, mas tantos filmes ainda a estrear no circuito com a marca deste camaleão maior, que em breve ficará impossível Irandhir sair na rua sem ser reconhecido – o que é irônico, pois jamais foi este o seu mote. Mais ironicamente ainda, dois de seus filmes premiados recentemente são inversamente proporcionais, mas igualmente complementares, “Ausência” e “Permanência”, tendo este último acabado de aportar nos cinemas.

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Enquanto que em “Ausência”, ele é um professor coadjuvante mas crucial na trajetória de um jovem alienado pela própria mãe alcóolatra e obrigado a ser adulto cedo demais, em “Permanência” ele é o protagonista de um gênero quase não explorado na tela grande brasileira: o romance. E não comédias românticas, e sim Romance com letra maiúscula, em toda sua fragilidade e sofrimento de quando nos entregamos a alguém por completo, em abnegação do eu. Com um personagem tridimensional, cercado pelo triângulo de ser filho bastardo de um pai que só agora tenta se reconectar, ou de uma profissão como artista plástico prestes a deslanchar, é na hipotenusa que encerra os catetos que seu triângulo se torna mais doloroso: um amor do passado agora casada com outro homem.

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Só porque se falou em romance talvez o leitor esteja pensando que se vai resvalar em corridas desesperadas pelo grande amor no último instante. Mas não é sobre isso este singelo e sensível drama na estreia promissora do cineasta pernambucano Leonardo Lacca. Assim como todos nós, sorvemos a infância, crescemos, amadurecemos e assumimos novas responsabilidades, é quando este amor do passado recepciona o personagem de Irandhir em sua casa, como visita, enquanto ele está planejando sua primeira grande exposição de fotos do passado, que ela é obrigada a confrontar as falhas em seu casamento e as ideologias que deixou para trás. É nas menores e mais delicadas tiradas que reside todo o desabrochar. É no gosto de ambos pelo café, o que leva o protagonista até a idealizar a amada em outra mulher, numa das mais belas cenas do filme. Ou é na fobia de Irandhir por elevadores, que sempre o faz correr escada acima e abaixo, como se fosse uma brecha no tempo pela qual ele pudesse entrepassar, resfolegante, sempre um pouco atrasado ante a velocidade dos dias de hoje. Um filme de olhares, pela câmera do protagonista, do próprio diretor da película, ou mesmo do espectador. Uma foto pode revelar os recônditos da alma. Um filme também…, e o que permanece após a sessão.

E esperem por mais filme de Irandhir, como o acachapante “A História da Eternidade”, “Ausência”, “Obra”, “A Luneta do Tempo”, e muito mais

 

 

 


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