Pérola do Varilux entra na programação da maratona cinéfila carioca

Dirigido por Antony Cordier, 'A excêntrica família de Gaspard' é uma das atrações do cardápio francês do Festival do Rio 2018

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06 de novembro de 2018

A Excêntrica Família de Gaspard na foto Johan Heldenbergh, Marina Foïs poster

Rodrigo Fonseca
Diante do medievalismo dos tempos atuais, responsável pela evaporação gradual do corpo (o nu, em especial) das telas, “A Excêntrica Família Gaspard”, valiosa joia garimpada nas minas do Varilux (a mostra anual de iguarias francesas), chega ao Festival do Rio na contracorrente da caretice – caretice esta disfarçada de correção política -, fazendo do tesão uma ferramenta psicanalítica. Tocas as franjas da transgressão o modo lírico e lúdico como o filme põe a ótima atriz Christa Théret em cena, a raspar suas axilas diante de um irmão também pelado, incestuosamente embatucado diante dos aromas daquele ser humano luminoso à sua frente. Quarta é a data da estreia: às 16h50 no Estação NET Gávea, às 16h50. Tem uma sessão a mais na quinta, às 21h30, no Estação NET Rio.

Dirigida por Antony Cordier (de “Para Poucos”) no arame farpado da dramédia, a produção, originalmente batizada de “Gaspard Va Au Mariage”, dá um recheio de complexidade a cada personagem em cena, assumindo um zoológico falido na região francesa de Limousin como seu cenário. Sua trama – estruturada em atos e um epílogo, todos titulados com uma tirada cômica – se situa nos dias que antecedem uma festa de casamento do dono da bicharada, o hipongo mulherengo Max (Johan Heldenbergh, de “Alabama Monroe”). Só o fato de aceitar as perversões de Max, sem julgá-lo ou execrá-lo, já torna o longa-metragem de Cordier uma experiência libertadora. Mas tem outras libertações morais no caminho de Gaspard (Félix Moati), um ex-chef, hoje devotado a trabalhos braçais, que leva consigo para o casório uma maluquete, Laura (Laetitia Dosch), a quem ajuda numa situação bem inusitada (nada de spoilers, galera!). Cheia de esquisitices, sobretudo acerca de seu apetite sexual, a moça acaba desenhando pra si um espaço de expressão de sua singularidade naquela  fauna de transgressores potenciais, alocadas no zoo de Cordier. O animal mais selvagem ali se chama Coline (papel de Christa): a caçulinha do clã, que se veste de pele de urso e cultiva um futum de mamíferos peludos em sua epiderme.

É um filme de mil afrodisíacos éticos, a começar pela desmistificação de interditos moralistas.