Personal Shopper

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17 de março de 2017

O francês Olivier Assayas, ao dirigir Kristen Stewart no longa “Acima das Nuvens” (2014), é o cineasta por trás de uma inestimável recompensa — a intérprete, apedrejada por críticas que alegavam uma incômoda inexpressividade em todos os seus papeis, ganhou o César de Melhor Atriz Coadjuvante, premiação francesa equivalente ao Oscar hollywoodiano. A grandeza do reconhecimento, contudo, não parou por aí: ao levar a estatueta, a jovem, afastando-se cada vez mais do estigma sanguessuga da franquia “Crepúsculo”, foi a primeira atriz americana a conquistar um César. O reencontro dela com Olivier Assayas, dando continuidade ao êxito da parceria, acontece em “Personal Shopper”, filme integrante da mostra competitiva e ganhador do prêmio de direção na edição mais recente do Festival de Cannes. No roteiro, Kristen Stewart é a protagonista na pele de Maureen, uma estrangeira remunerada para passar os dias em Paris montando o vestuário de uma celebridade. Fora desse ambiente que não lhe pertence, ela exercita seus dons de médium em uma busca perturbadora por sinais do irmão gêmeo, recentemente falecido.

A condução de Olivier Assayas em um filme que passeia por gêneros distintos — drama, terror e suspense; sem de fato assumir um deles — revela uma direção precisa, ciente do potencial de todos os territórios que adentra. O drama do enredo é bem contornado pela existência descolorida de Maureen, ela odeia seu emprego e a mulher famosa para qual presta serviços, além de passar boa parte do seu tempo na solidão, sentimento típico dos que vagueiam na procura de um lugar no mundo. Com Lewis, seu irmão, ela não compartilha apenas a mediunidade — os dois possuem a mesma insuficiência cardíaca, condição que o levou à morte. A grande casa onde Maureen tenta contato com Lewis, com cômodos de uma escuridão ameaçadora, é o cenário ideal para a injeção de boas doses de terror. A materialização de espíritos, convincente ao extremo, pode tirar o sossego do espectador mais seguro. É assim, sem descambar no tosco e ignorando apelações desnecessárias, que “Personal Shopper” atinge o auge de uma inquietação muito bem manipulada. Nuances de suspense são delineadas por mensagens incessantes que Maureen recebe no celular. Seriam ou não sobrenaturais? O diálogo mantido é puro mistério — o interlocutor desconhecido adivinha os hábitos e trajetos da perseguida e a desafia constantemente. A essa altura, o espectador já está, como a personagem, completamente enredado pelo enigma. Em “Personal Shopper”, Maureen e o público que a acompanha se equiparam; viram joguetes, embarcando sem resistência em uma viagem obscura que desemboca na cena de um crime.

Na vontade da personagem de “ser outra pessoa” para escapar das obrigações enfadonhas, Kristen Stewart tem a oportunidade de explorar, com maturidade, seu lado sensual. E o melhor, com gestos mais naturais possíveis. Por ser uma atividade proibida, o ato de vestir as roupas de grife da celebridade detestável reforça o suspense da película, com uma pitada de fetichismo. Os trajes femininos e sofisticados, em contraste com o figurino folgado da protagonista, causam um efeito de metamorfose em Maureen, visual que muito bem representa o desejo de sair um pouco da própria realidade. “Personal Shopper” não é um filme de verdades absolutas, com a missão de dirimir todas as interrogações até o último minuto. Por toda a projeção, é nítido o envolvimento, mas é difícil definir com exatidão o que seduz. A estrutura de labirinto é uma essência do filme e expor a saída seria um desfecho de profunda incoerência. O diferencial é justamente a sensação de continuarmos presos nos corredores desse labirinto, mesmo após deixar a sala de cinema.

Festival do Rio 2016

Panorama do Cinema Mundial

Personal Shopper, França, 2016, 105’

Olivier Assayas

Elenco: Kristen Stewart, Sigrid Bouaziz, Lars Eidinger, Ty Olwin.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5