‘Peterloo’, um manifesto à la Ken Loach de Mike Leigh incendeia Veneza

Laureado com o Leão de Ouro por 'Vera Drake', o veterano diretor inglês se impõe como o principal rival do favorito 'ROMA' com um épico sobre um massacre em Manchester, em 1819

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31 de agosto de 2018

Peterloo Mike Leigh

Rodrigo Fonseca
Que bom ter levado “Mike Leigh on Mike Leigh” (Ed. Faber & Faber) na bagagem de leitura da viagem a Veneza, pois ficou mais fácil entender de onde brotou o momento Ken Loach que o consagrado cineasta inglês vive no festival italiano deste ano, com o monumental “Peterloo”. É o único dos longas-metragens em concurso, vistos até agora, capaz de fazer alguma frente a “ROMA”, de Alfonso Cuarón, o favorito ao Leão de Ouro de 2018. Leigh, que tem já uma juba dourada em sua casa, conquistada em 2004, com “Vera Drake”, chegou aqui seco para levar mais uma estatueta. Ou várias. Seu épico sobre o amordaçamento da democracia na Inglaterra do século XIX atomiza as noções clássicas de protagonismo, elegendo um incidente histórico como seu “personagem central”. Parece um “documentário de época”, como disse aqui um crítico português, que saiu da projeção afirmando: “É belíssimo”. É mesmo. Já assegurado pelo BFI London Film Festival (10 a 21 de outubro), em Londres, a produção do Amazon Studios é uma reconstituição rigorosíssima de um massacre ocorrido em Manchester, em 1819. Nessa data, tropas a mando do governo avançaram contra uma multidão que protestava contra o aumento das taxas de pobreza.

Dono de uma habilidade singular de dirigir atores, extraindo deles um naturalismo quase poético, Leigh fratura arquétipos de nobres, proletários e intelectuais de oposição, fazendo de todas as pessoas em cena peças equânimes num jogo de poder. A tese do longa: a aristocracia, temerosa de que algo parecido com a Revolução Francesa acontecesse na Inglaterra, resolveu silenciar ímpetos reformistas. E o sangue rolou. Numa narrativa proustiana de muito falatório, o massacre é reconstituído sem virtuosismo, de modo cru, mas chocante.

Mike Leigh no set de seu filme anterior, Mr. Turner, nunca lançado nos cinemas nacionais

Mike Leigh no set de seu filme anterior, ‘Mr. Turner’, nunca lançado nos cinemas nacionais

Que filme fraquinho, fraquinho é “The ballad of Buster Scruggs”, um faroeste cômico cheio de números musicais que os irmãos Coen fizeram para a Netflix: é “a” decepção de Veneza até agora, mesmo tendo feito muita gente rir. Graça não lhe falta. O que ele carece é da ambição tragicômica típica dos cineastas. Temos seis episódios que repensam as cartilhas do western num exercício de desmistificação no qual Tim Blake Nelson revive o arquétipo de Roy Rogers, um dos pioneiros do bangue-bangue, na pele do personagem título. Quem mais e melhor se destaca em cena é Tom Waits, no papel de um garimpeiro teimoso.

Neste domingo, Veneza vai conferir “El Pepe, uma vida suprema”, um documentário do sérvio Emir Kusturica sobre o octogenário ex-estadista José Alberto Mujica e seu legado no Uruguai. Mas há um outro filme por aqui, de ficção, super bem resenhado entre os europeus, que tem Mujica como personagem: “La noche de 12 años”, de Alvaro Brechner, do ótimo “Sr. Kaplan” (2014). O espanhol Antonio de la Torre, um queridinho de Almodóvar, vive o jovem Mujica no período em que foi condenado a 12 anos na solitária. É uma coprodução entre uruguaios, franceses e argentinos. Sua montagem é febril.

Neste sábado, na competição, Veneza vai conferir a releitura que Luca Guadagnino (de “Me chame pelo seu nome”) fez de “Suspiria” (1977), um marco do giallo, filão italiano do terror, dirigido pelo papa do gênero, Dario Argento.