‘Photograph’, um 3×4 do amor, à moda indiana

Às vésperas de seu encerramento, o 69º Festival de Berlim se encanta com fábula multiculturalista de Ritesh Batra

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15 de fevereiro de 2019

7 O lambe-lambe Rafi, vivido por Nawazuddin Siddiqui, e a estudante Miloni, papel de Sanya Malhotra, vivem um quase romance em Photograph, de Ritesh Batra 7

Rodrigo Fonseca
Aos 45 minutos do segundo tempo, a Berlinale.69 – cujo encerramento está marcado para domingo, na capital alemã – provou do curry de um cineasta indiano tipo exportação, Ritesh Batra, diretor do sucesso “Lunchbox” (2013), de volta às telas agora com  uma história de amor daquela de fazer plateias suspirarem. Exibido em Sundance, no fim de janeiro, “Photograph” é uma fábula sobre o bem querer com temperos multiculturalistas e um toque de marxismo. Um “Cinderela” falado em hindi e cujarati que troca o sapatinho de cristal por um retrato feito em lambe-lambe. Na trama, o fotógrafo Rafi (Nawazuddin Siddiqui), que ganha o pão do dia a dia tirando retratos em pontos turísticos, clica uma estudante de classe abastada Miloni (Sanya Malhotra, do fenômeno de público “Dangal”) e se encanta com o que seu sal de prata produz. Ela também fica embevecida com a beleza do trabalho dele. Separam-se ali, dada a diferença de $ entre eles, mas não se esquecem.

De andança em andança, os dois, introspectivos, vão se cruzar… justamente quando ela quer escapar de um noivado arranjado e quando ele precisa de uma companheira para dar uma satisfação casamenteira à avó, que o criou. Num papo com a moça e na promessa de múltiplas fotos, ele consegue que ela se passe por sua namorada. Só que o amor que ele sente é legítimo e crescente. Pouco a pouco, vai haver reciprocidade, mas de um jeito que desafia as convenções de Hollywood. E isso é contado com uma mistura nada ortodoxa de fantasia e realismo, com não atores por todos os lados. Existe até um fantasma no enredo, que ganha mais densidade com a anciã que educou Rafi, uma senhora de muita experiência quando o assunto é amar ou pagar as contas de um lar.

Batra lança este ano “Little Bee”, com Julia Roberts, sobre os contratempos na adoção de órfãos africanos.

Sábado acontece a entrega de troféus no festival. No páreo pelo Urso de Ouro, dois filmes se impõem como favoritos: “God exists, Her name is Petrunya”, da Macedônia, no qual a cineasta Teona Strugar Mitevska denuncia o sexismo seja no mercado de trabalho, seja na religião; e “Elisa y Marcela”, no qual a catalã Isabel Coixet trás à tona a história do primeiro casamento entre duas mulheres na Espanha, em 1900. O chinês “So long, my son”, de Wang Xiaxoshuai, veio com fome de prêmios, ao narrar a reestruturação afetiva de um casal, ao largo das crises sociais daquele país, à sombra da morte de um filho.  O roteiro é um primor. Mas algo deve sobrar para “Piranhas – La Paranza dei Bambini”, de Claudio Giovannesi, cujo foco se volta para a juventude mafiosa de Nápoles. Idem para “The Golden Glove”, de Fatih Akin, com o desempenho exuberante de Jonas Dassler na pele de um psicopata da Hamburgo de 1970.