Pinceladas sobre Van Gogh

Willem Dafoe encarna o gênio da pintura em 'No portal da Eternidade', que vai abrir o Festival de Marrakech nesta sexta

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29 de novembro de 2018

 AT-ETERNITYS-GATE-Official-Trailer-HD-Willem-Dafoe Willem Dafoe encarna Van Gogh no ensaio No Portal da Eternidade

Rodrigo Fonseca
Embora tenha divido opiniões em sua passagem por Veneza, na briga pelo Leão de Ouro, “No portal da Eternidade” (“At Eternity’s Gate”) conquistou a Copa Volpi (o troféu de atuação) para Willem Dafoe e seguiu atraindo elogios em outros eventos internacionais, o que valeu ao novo trabalho do diretor e artista plástico Julian Schnabel (de “Basquiat”) a chance de abrir o menu de 2018 do Festival de Marrakech. Nesta sexta-feira, o Van Gogh de Schnabel vai ter vez e voz nas telas do Marrocos, inaugurando uma seleção de peso, cheia de potenciais concorrentes ao Oscar 2019 (como “Cafarnaum”, “ROMA” e Green book – O guia”). A interpretação em estado de graça de Dafoe é um cartão de visitas e tanto para o longa. “Cinema é algo que a gente faz pelo senso de descoberta, pela estranheza”, disse Dafoe ao Almanaque Virtual em fevereiro, quando ganhou o Urso de Ouro honorário no Festival de Berlim. “Gosto de papéis que possam me colocar em dúvida sobre a percepção do mundo”.

Mais próximo do conceito de ensaio experimental do que das cartilhas da cinebiografia, “No portal da Eternidade” investiga a mescla de loucura e introspecção na trajetória profissional de um gênio da pintura no auge da fúria criativa. Fã declarado de Glauber Rocha e amigo de Hector Babenco, Schnabel disputou o Leão de Ouro veneziano com este experimento psicanalítico que estetiza o delírio. Correm boatos de que o realizador criou a narrativa com Dafoe inspirado na dramaturgia dos quadros mais ilustres do mestre da pintura, driblando as convenções dos livros de História da Arte.

“Não filmo fatos de modo jornalístico, documental: eu trabalho com interpretações, com desmistificações. Cinema precisa ser assim. Depois que você vê uma obra como a de Glauber Rocha, por exemplo, fica difícil se conformar com um cinema careta, de causa e efeito ou de viradas de roteiro. Se eu decido encarar um personagem, preciso devassar sua psiquê, viver suas idiossincrasias e traduzi-las em planos que desafiam a norma”, disse Schnabel em recente entrevista ao Almanaque. “A arte é sensorialidade”.

Dafoe, que filmou “Miral” (2010) com o cineasta, pode concorrer ao Oscar pelo trabalho com Schnabel.  “Não sou galã, nem um vilão padrão, o que me levou a apostar num cinema autoral, sobretudo o mais radical. Isso leva muita gente a me escalar para interpretar artistas de temperamento marcado pela loucura ou pela fúria, como foi Pier Paolo Pasolini, a quem interpretei sob a direção de Abel Ferrara. O mesmo vale, agora, para Van Gogh”, disse Dafoe na Berlinale. “Essas viagens me abrem um terreno de descoberta sobre quem sou e sobre o que a arte me permite fazer”.

Após a projeção de “No portal da Eternidade”, Marrakech dá largada a uma seleção de longas em competição pela Estrela de Ouro, seu troféu de melhor filme. Vão concorrer este ano “Las niñas bien”, de Alejandra Márquez Abella (México); “The load”, de Ognjen Glavonic (Sévia); “Diane”, de Kent Jones (EUA); “Red snow”, de Sayaka Kai (Japão), “Joy”, de Sudabeh Mortezai (Áustria); “Look at me”, de Nejib Belkhadi (Tunísia); “Vermelho sol”, de Benjamín Naishtat (Brasil/ Argentina); “Vanishing days”, de Zhu Xin (China); “Une urgence ordinaire”, de Mohcine Besri (Marrocos); “Akasha”, de Hajooj Kuka (Sudão); “All good”, de Eva Trobish; e “La camarista”, de Lila Avilés (México). A essa programação em concurso soma-se uma seleção de títulos de peso em mostras internacionais mas que vão para Marrakech fora da disputa oficial, como o drama americano “Vida selvagem”, de Paul Dano, e a experiência narrativa colombiana “Pássaros de Verão”, de Ciro Guerra e Cristina Gallego.

Darío Grandinetti na coprodução Brasil x Argentina "Vermelho Sol"

Darío Grandinetti na coprodução Brasil x Argentina “Vermelho Sol”: em concurso

Quem vai julgar os concorrentes à Estrela de Ouro deste ano será um time formado por atrizes  (Dakota Johnson, Ileana D’Cruz), artistas visuais (Joana Hadjithomas), cineastas (Lynne Ramsay, Laurent Cantet, Tala Hadid e Michel Franco) e o ator alemão Daniel Brühl. A presidência desse júri foi confiada ao cineasta James Gray, que está finalizando o thriller espacial sci-fi “Ad Astra”, com Brad Pitt (e produção do brasileiro Rodrigo Teixeira).

Este ano, o Festival de Marrakech presta um tributo à prata da casa, homenageando o diretor marroquino Jillali Ferhati, consagrado na Europa desde os anos 1980 com filmes premiados em Cannes como “Bamboo brides”. Serão homenageadas ainda a diretora Agnès Varda e o ator Robert De Niro. Serão exibidas ainda versões restauradas de cults como “Os intocáveis” (1987), de Brian De Palma, e “Kundun” (1997), de Martin Scorsese, que passará por Marrakech para dar uma palestra sobre sua carreira.