Pinocchio

Quando “menos é mais”: Pinocchio de Matteo Garrone

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16 de julho de 2020

Exibida no Festival de Berlim deste ano (um dos últimos presenciais antes do agravamento da pandemia do novo coronavírus), a adaptação feita por Matteo Garrone de Pinocchio, fábula escrita pelo também italiano Carlo Collodi, é um deleite visual. Para que o live-action chegasse ao resultado de o espectador ter a sensação de estar visualizando uma sequência de aquarelas na tela, o diretor usou e abusou de efeitos especiais e do talento de Mark Coulier, responsável pela maquiagem da produção.

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A trama, que mostra a ingenuidade infantil versus os malefícios do mundo real, traz Federico Ielapi como o teimoso boneco de madeira, enquanto seu “pai” Geppetto é interpretado por Roberto Benigni – que também já atuou como Pinocchio na versão de 2002, dirigida pelo próprio, inclusive. Ambos entregam boas atuações, mesmo que a química entre eles não funcione muito bem em cena. O vínculo entre pai e filho não passa sentimento o suficiente para emocionar o público, o que acaba exacerbando a petulância do boneco e uma inocência forçada do “pai”.

Mas nem mesmo a belíssima fotografia que remete a imagens literárias, ou as ótimas cenas como a passagem que acontece dentro do Tribunal de Justiça dos macacos, são capazes de minimizar as inúmeras falhas da produção. O roteiro é falho na adaptação do conto mundialmente conhecido; a premissa base do boneco que desejava tornar-se um “menino de verdade” e que a cada mentira contada vê seu nariz de madeira crescer, se perde completamente no longa-metragem. A escolha de colocar Pinocchio em repetitivas situações de “perigo” acaba minimizando um dos elementos mais interessantes da trama, que é o amadurecimento da personagem para que o mesmo faça a transição boneco/humano. O popular artificio do “crescimento do nariz” é usado somente uma única vez, e ao longo das arrastadas duas horas de exibição, o espectador acompanha o objetivo principal da trama – a transformação em menino de verdade – ser substituída pela busca incansável do boneco por seu pai, após um desencontro que os afasta. Em termos de adaptação, ritmo e síntese da história, a conhecida versão animada da Disney, lançada há 80 anos, tem muito a ensinar para a mais recente.

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Outra falha do filme que salta aos olhos acaba por ser aquela que também é sua melhor qualidade: a produção visual. Em sua crítica sobre o filme para o site Papo de Cinema, Bruno Carmelo fala sobre o “imperativo contemporâneo do fotorrealismo” observando a quantidade de produções com efeitos visuais ostensivos, que focam no resultado visual final, mas perdem boa parte do lado lúdico das histórias – algo que de fato acontece em Pinocchio. O número de interferências visuais na produção resultou em um “engessamento” das atuações e da trama, que perdeu elementos importantes, como por exemplo, a personagem do Grilo Falante. A tentativa da direção em representar da forma mais real possível personagens imaginários afetou ironicamente a veracidade das emoções que o público assiste em tela.

Com relação à estrutura da trama, Garrone optou por abordar uma fábula de moral altamente questionável de maneira inconsistente, deixando a história em uma espécie de meio termo entre a inocência de um filme infantil e a sobriedade de uma produção voltada para o público adulto – o que gera certa confusão para que um público possa ser definido. Tal escolha acabou facilitando o caminho de Guillermo del Toro, diretor mexicano cuja adaptação da mesma história tem estreia prevista para o ano que vem. Conhecido pelo tom sombrio de suas produções pode-se pressupor que o diretor entregará um produto final mais bem desenvolvido que seu colega italiano, principalmente em termos de roteiro e estética.

É possível concluir que a produção italiana possui um resultado visual final belíssimo, que encanta o público em um primeiro momento. Mas em seguida suas falhas estruturais vêm à tona, o que deixa a experiência final com um gosto agridoce. Memória afetiva e excelente fotografia fazem parte do conjunto que pode alavancar o status de um filme, mas o mesmo não pode ser somente isto. Nas palavras do professor e crítico de cinema Filippo Pitanga: “A história não pode virar escrava de um recurso” e infelizmente é isto que acontece com a produção trabalhada visualmente de forma excessiva de Matteo Garrone.

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