Planetarium

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10 de outubro de 2016

O enredo de “Planetarium”, da cineasta francesa Rebecca Zlotowski, a princípio interessa pela singularidade ― duas jovens irmãs, uma delas interpretada por Natalie Portman, viajam em uma turnê mundial na qual apresentam um espetáculo médium. As duas sobem no palco de uma casa de espetáculo, como uma atração circense, e iniciam contatos espirituais. Por mais que essa descrição já pareça original, não é todo dia que surge um filme com essa oferta, a ousadia mesmo está no vínculo do tema da mediunidade com a indústria cinematográfica.

Estamos em Paris, na década de 1930. Laura (Natalie Portman) e Kate Barlow (Lily-Rose Depp, filha do ator Johnny Depp), norte-americanas, chegam à Cidade Luz para dar continuidade aos seus espetáculos sobrenaturais. Quem tem mesmo o talento de envolver as pessoas com a dita comunicação com os mortos é Kate, a mais nova. Já Laura, dona de uma presença hipnotizante, importante nos palcos, assume também a postura de uma mulher de negócios quando o assunto é a prosperidade do show itinerante que mantém com a irmã. A sorte das moças muda quando um expoente do cinema francês, Andre Korben (Emmanuel Salinger), propõe um contrato no cinema a fim de filmar, um projeto inédito, o fenômeno apresentado pela dupla. Laura, prevendo um leque de possibilidades, aceita a proposta e se muda com a irmã para a mansão do produtor, a convite dele.

É inegável que a cineasta Rebecca Zlotowski tem em “Planetarium” um projeto ambicioso, o que aqui se torna um perigo. Dito isso, é irresistível fazer um trocadilho com o tema espiritual proposto pelo filme — na trama, é visível apenas um espectro do robusto conteúdo que a diretora pretendia desdobrar na tela. A mudança das jovens para a casa do produtor, somada à entrada de Laura na sétima arte francesa, é o estopim de uma série de acontecimentos que, explorados por alto, tornam o filme obtuso em um primeiro olhar. Superficialmente, o longa toca em assuntos como a megalomania cinematográfica, o mistério que envolve a existência de espíritos e até antissemitismo. Uma característica que parece fora do lugar é o erotismo — em determinado momento, quando é mostrada a união de Korben e Kate em uma sessão sobrenatural, a tensão sexual que paira na ocasião soa um tanto despropositada; ou melhor, é somente útil para gerar uma rivalidade, igualmente pouco convincente, entre as irmãs apegadas a Korben. A grande chance de sobrevida de “Planetarium” advém da experiência de Natalie Portman. Sombria e encantadora, em medidas ideais, a atriz é capaz de sustentar o magnetismo de sua personagem até o fim da projeção. Um teste de câmera, assim que a personagem ingressa no cinema, com variadas feições de Portman com o requinte de uma intérprete de época, é um presente de Zlotowski ao público.

Festival do Rio 2016

Panorama do Cinema Mundial

Planetarium, França / Bélgica, 2016, 105’

Rebecca Zlotowski

Elenco: Natalie Portman, Lily-Rose Depp, Emmanuel Salinger

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3