Platamama

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26 de janeiro de 2018

Advinda do sucesso “Meu Corpo É Político”, que versava sobre a temática trans, Alice Riff aporta agora com seu novo filme “Platamama” na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes na Mostra Olhos Livres. Desta vez a diretora se debruça sobre a questão raramente abordada nos cinemas de imigrantes estrangeiros no Brasil, no caso em tela, bolivianos, absorvidos pelo mercado de trabalho opressor e desigual. O filme acompanha uma família que se muda para São Paulo para trabalhar em oficinas de costura, quase escravos do capital que jamais é o suficiente para além da sobrevivência básica. Ainda assim, não deixam de sonhar, do micro ao macro, de férias merecidas ao plano de ingressar no mundo da música e virar um artista de sucesso. Mas acompanhar essas esperanças é algo positivo ou negativo para a situação de nosso país e a precariedade com que ainda deixamos a situação dos imigrantes?

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Correspondendo muito bem aos anseios e expectativas de abordagem por uma diretora não necessariamente atravessada pelas particularidade de seu objeto de estudo, Alice Riff conseguiu fazer um filme anterior sem precisar ser uma pessoa trans e agora o novo trabalho sem precisar ser uma imigrante estrangeira. Alice é bastante respeitosa e é um exemplo a ser seguido perante esta dicotomia tão polemizada para além do necessário sobre “lugar de fala”, que, por sinal, é algo sim muito válido, mas não inviabiliza de forma alguma com que as pessoas trabalhem fora de sua zona de conforto, apenas propõe que as equipes a se inserir num ambiente estranho a elas seja mais inclusiva e convidativa perante aqueles que pretende retratar de perto, para não deixar danos ou prejuízos ao meio inserido.

O fato é que Alice se utiliza de uma estratégia totalmente oposta nesta nova obra ao que estava mais acostumada. Ela permite certa liberdade total aos documentados, praticamente fazendo parecer que a câmera é deixada ligada até que naturalmente surja uma narrativa na frente dela, quase como um técnica de fluxo. E por si só isto já seria ótimo, pois percebe-se que há muita cumplicidade da família retratada em estar de frente com a tela e em colaborar com abertura a todos os departamentos de sua vida. Uma naturalidade que remonta à escola de um aparente pseudo documentário ficcional à la Chantal Akerman, que, vice versa, igualmente poderia ser visto como uma ficção documental com fronteiras enevoadas. Porém, para olhares mais atentos, há de se observar que na verdade há um trabalho de roteiro ali, e principalmente de montagem. Aquela narrativa não se construiu sozinha. Vários detalhes simbólicos acertados se assomam para passar esta impressão, como o plano fixo diante da casa desta família, que se dá por um portão de ferro que compreende a porta de entrada da casa e também o acesso a uma garagem que jamais é utilizada, até porque nem poderia ser caso quisessem: eles não possuem carro, e há uma árvore gigante na calçada da frente da casa, bem diante do portão. Esta árvore é muito curiosa porque demarca exatamente o quão impedida a passagem da vida deles está, ao mesmo tempo que significa que mesmo impedida há vida ali diante deles. A árvore é crescimento natural e bloqueio ao mesmo tempo.

Por outro lado, Alice também acerta ao não demonstrar praticamente nenhum traço da cultura brasileira em tela por quase todo o tempo de projeção. Para uma família retirada de seu habitat cultural natural, é um poder muito grande que o cinema possibilita ao exercer a escolha criativa da diretora em auxiliar que a câmera apenas pegue a liberdade de no interior da casa daquela família apenas poder existir o que lhes é próprio. Conscientemente próprio. Talvez neste sentido Alice até dê um pouco de liberdade demais, pois o ritmo do filme se permite seguir o fluxo dos familiares calmamente, nem sempre seguindo algum mote ou meta. Ao mesmo tempo, para um diretora mulher, também acaba sendo corajoso e ao mesmo tempo ambíguo escolher seguir como protagonista justamente o único personagem masculino adulto da família. Talvez pela própria cultura daquela família privilegiar um pouco a figura do homem, afinal, enquanto as mulheres precisam se dedicar exclusivamente à costura dentro de casa e à criação de uma criança que também é do rapaz, este é o único a quem é concedido tentar alcançar seus sonhos, por mais utópicos que sejam. E a parte feminina da família ainda se desdobra a conseguir tempo para ajudá-lo, como o filmando para videoclipes. Neste sentido, claro, independente de lugar de fala, documentários acabam por escolher personagens em cena, pois quando a câmera decide olhar para eles, sempre há uma transformação em objeto de estudo, mesmo que este objeto tenha decisões conscientes e subjetivas de como queira ser retratado.

Nisto, para uma fluência mais orgânica, talvez houvesse de se abrir mão um pouco da única centralização no personagem masculino, ou talvez uma priorizada na montagem em acertar os ponteiros de interesse nos entroncamentos da trama com maior identificação. Afinal, montagem também é carisma e clímax, mesmo se respeitando os personagens. E neste sentido não se pode dizer que Alice deixou de ter o maior dos respeitos, e isto é muito positivo para que se possa obter exemplos proveitosos e frutíferos de que se pode filmar sempre com responsabilidade social sem se deixar de obter uma obra artística no processo.