Ponto Zero

Na Contracorrente do cinema nacional atual, uma obra estética e com misto de surrealismo imagético de Buñuel com crônica familiar de Nelson Rodrigues.

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02 de junho de 2016

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“Ponto Zero” de José Pedro Goulart não é um trabalho fácil para um realizador. Contracorrente do esperado no cinema nacional atual, o filme ousa em imagens e temas com a seguinte premissa estrutural: o cinema pode prescindir da fala e diálogos? Bem, desde que o cinema mudo ganhou cores e som no início do século passado, alguns cineastas ainda tentaram se debruçar sobre estas questões principalmente de linguagens imagéticas. Vide Chaplin que mesmo diante do fim do cinema mudo, escolheu conscientemente continuar a filmar seus filmes em P&B e sem som/diálogos durante anos e anos, assim como muitos continuam até hoje, há de exemplo os prêmios para “O Artista” em 2011. José Pedro Goulart, em seu primeiro longa metragem, teve duas ideias bem claras: uma sobre a vida comum de um jovem silenciado pelas circunstâncias ao redor, como muitos jovens tidos como nerds deslocados são; e como um acidente pode mudar tudo, o ‘ponto zero’ do título, que na verdade não é o acidente em si, e sim o momento de escolha de qualquer pessoa na vida onde todas as suas experiências se reúnem na formação da personalidade e obrigam a assumir responsabilidades para o resto de sua vida como um ser pleno.

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O diretor realmente reflete com primor algumas sequências das mais liricamente belas do ano em imagens que substituem qualquer fala do garoto central, quase sempre calado. Como há de exemplo o prólogo/epílogo, onde uma longa tomada do universo, como se o jovem protagonista fosse um astronauta tocado apenas pelas ondas de rádio da Terra, de repente se tornasse um mergulho numa piscina da alma do rapaz, brincando imageticamente de “Eram Deuses Astronautas?”. Outras ideias também são muito expressivas, como fazer no olhar do jovem todo o trânsito de veículos na rua ser invertido de ré, como se sua inocência ainda fosse na contramão do mundo; e igual força têm as pedaladas de bike através de cenas do filme com outros personagens, sempre invisível. Noutras vezes, o asfalto é retratado como céu. Tudo muito lúdico e belo, com um quê surrealista de Buñuel, não apenas no olhar da câmera, porém também nos sentidos ampliados principalmente pelos efeitos sonoros, pois o som aqui ganha destaque, seja nas transmissões de rádio que permeiam a história de mais de uma forma, ou o barulho dos carros ou mesmo o peso da chuva caindo sobre a cidade alagada, transbordante, outra coadjuvante importante no desenrolar da trama; água como sinônimo de fonte de vida e de morte na natureza.

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Por outro lado, como dito, o filme é claramente construído através de dois mundos: O de construção da personalidade do jovem, com uma mãe carente traída pelo pai negligente, e o do tal ‘acidente’ como ponto de ruptura que botará os ensinamentos à prova, e, de fato, as ideias em torno do cotidiano de formação do protagonista acabam superando as ideias que se seguem ao acidente, independente da beleza de filmagem em um chuva torrencial do fatídico evento do ponto zero. Há tentativas de inserções muito válidas de questões familiares ‘Nelson Rodriguianas’, propondo que o amadurecer precoce do garoto terá de fazê-lo encarar cedo alguns destes fardos da vida que advém com responsabilidades na vida ‘do outro’. Um bom exemplo disso é o desejo sexual, que marca muito da transição entre a juventude e a vida adulta, delineado pela imposição de consequências, de obrigações e respeito. Respeito pela/o parceira/o, como belamente o cineasta procura representar na culpa carregada pelo jovem através de uma bela mulher com que começa a alucinar. Este não entendimento em saber lidar com tais fatores causa uma depressão necessária para, no fundo do poço, poder reencontrar e se reconhecer na afirmação ou negação dos defeitos de seus pais, mais semelhantes consigo do que poderia pensar.

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Todos estes fatores que poderiam ser melhor trabalhados ou integrados da metade em diante da projeção, na quebra abrupta de uma dinâmica rítmica antes mais lúdica na narrativa, mas que não tira o grande valor das tentativas de José Pedro em ousar, pelo contrário, realça os contrastes. Grande empreitada de um diretor promissor, necessário para a diversificação do cenário atual, que vem a verter a experiência que já possui de curtas-metragens em parceria com Jorge Furtado, agora vertida para longas.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4