Power Rangers

Colocando os fãs em primeiro lugar

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12 de abril de 2017

Diferente do que poderíamos ter cogitado, a produção de “Power Rangers” O Filme de Dean Israelite (da interessante aposta “Projeto Almanaque” que não deu muito certo em 2015) realmente colocou os fãs na frente, com mil referências a toda a simbologia da franquia da série que começou na TV e foi ganhando todas as mídias. E não só, em geral há um esforço, inclusive, de se filmar com certa habilidade de câmera e algumas experimentações alheias a esse tipo de produção, como usar câmera subjetiva (em 1° pessoa), há de exemplo a cena de um carro capotando vista ora do ponto de vista do motorista e ora invertendo de forma objetiva para ver o motorista, rodando dentro do carro (ao invés de fora) para nos dar a sensação de vertigem como a que está acontecendo metaforicamente na vida do personagem. Ou mesmo os travellings e efeito chicote para transição de quadros mais dinâmicos principalmente nos momentos mais fantásticos sobre os poderes dos Rangers, para anunciar a suspensão da realidade adentro da abstração de sci-fi. Até porque a maior parte do filme se concentra num tom mais documental, de câmera tremida na mão e próxima do rosto, acompanhando a respiração dos atores. O filme evita o máximo possível a parte fantástica até dois terços de projeção pra se manter fiel à cartilha iniciada com os filmes de super-herói em semitonar ou calçar o pé no chão do realismo fantástico mais crível, no desenvolvimento de personagens antes de mais nada, para que no momento em que finalmente ocorrem as coisas absurdas, você acompanhe mais de perto.

powerrangers-movie-196089-1280x0Há sim um maior aproveitamento de 3 Rangers, o vermelho e a rosa, claro, que permaneceram intactos, e o azul que agora representa o ator negro, pois a associação anterior da série da etnia com a cor do uniforme foi toda trocada. A verdade é que o azul tem a melhor construção inusitada de persona, bem como, mesmo de soslaio, a ranger de amarelo rouba a cena, desmistificando a heteronormatividade não só de sua própria orientação como da lealdade mais cinza de se sentir traído pela adolescência.

Power-Ranger-2017-CastO filme transforma a jornada do herói em rito de passagem para a sensação de inadequação púbere eterna, mas enquadrando os jovens numa pegada mais desconstruída moderna.
Não que tudo funcione, e nem precisa funcionar, porque sabemos que a parte galhofa dos zords irá chegar. E chega, mas até aí você já embarcou junto na diversão das referências e aceita melhor tanto a barriguinha no meio do roteiro quanto a mensagem bonitinha mas necessária sobre união das diferenças.
Sem falar que o filme entende o recado de assimilar a cultura pop de sua época, diferente de “Tartarugas Ninja” por exemplo, e dá pra se encontrar inúmeros filmes ali. Da primeira tomada à la “A Árvore da Vida”, à segunda sequência que involuntariamente irá lembrar os brasileiros de “Boi Neon”, e depois um misto de “Meninas Malvadas” e “O Clube dos Cinco” e até “Poder Sem Limites”, ou na hora dos zords “Círculo de fogo”.
O mesmo ocorre com a regravação de famosas músicas referenciais, como a da série original que aparece no ínterim, ou “Stand By me” eternizada no maior filme de amizade, “Conta Comigo”, aqui numa bela cena na água que simboliza a solidariedade e fraternidade que significa ser ranger.

power-rangers-2017-movie-zordonHá até uma mensagem (assumidamente) subliminar em problematizar os valores modernos para os quais as pessoas dão importância, seja o capital ou a fama, por exemplo, e quais seriam os verdadeiros valores humanos que os Power Rangers deveriam defender (para além de impedir a destruição do mundo, claro, rs). Isso fica claro na profissão do pai do protagonista da história de pescador, mão-de-obra honrada desde tempos bíblicos, em contrapartida à vilã Rita Repulsa (interpretada por Elizabeth Banks curiosamente num misto jocoso e assustador), que precisa de ouro pra rejuvenescer e criar o monstro que procurará a fonte da vida no Planeta, que adviria de um cristal no centro da Terra. Estes valores contrapostos aparecem permeados sutilmente em toda a trama do filme, como o bullying na Internet oposto ao castigo na detenção, ou até mesmo o nome da cidade sob ameaça que é Alameda dos Anjos (a utopia idílica a ser protegida) em oposição ao que seria esperado desses jovens como padrão de família e sucesso quadradinho e retrógrado, quando a história incentiva que cada um seja como é e não siga fórmulas pré-condicionadas.

Agora…se vai ter música-tema na versão brasileira cantada por Sandy, aí só esperando a versão dublada no circuito comercial para nos responder… (ficamos no aguardo da assessoria da Paris Filmes confirmar