Praça Paris

Racismo estrutural e a desconstrução da branquitude

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13 de outubro de 2017

Que incrível trabalho amalgamado o de “Praça Paris” de Lúcia Murat, com roteiro coassinado pela própria e pelo escritor bestseller Raphael Montes, e elenco contando com a diva máxima atriz e dramaturga Grace Passô, junto com Joana de Verona, além de consultoria de roteiro do psicólogo e crítico Luiz Fernando Gallego. O filme estreou na Première Brasil no Festival do Rio l Rio de Janeiro Int’l Film Festival 2017. A trama parece simples, mas vai se complexificando de forma vertiginosa e bem aproveitada, começando a acompanhar a ascensorista do elevador da faculdade UERJ (Grace), que se consulta no programa de atendimento psicanalítico comunitário dali com uma terapeuta portuguesa (Joana) que, por si, está no Brasil terminando sua pós-graduação na mesma instituição. A ascensorista possui um irmão traficante aprisionado que sabe tudo o que acontece lá fora. E esta relação de poder vai começar a inverter a polaridade hierárquica, onde a terapeuta se sentia naturalmente superior sem pensar que isto pudesse nascer de um racismo inconsciente, de modo a que começam a sofrer com a contratransferência da terapia e a introjetar os próprios medos uma na outra, como uma louca obsessão. A história demonstra como os preconceitos sociais não tratados se transformam em paranoia e perseguição todos os dias, seja por policiais, pela Justiça, pelas elites ou mesmo pela política.

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O filme todo perpassa algumas tensões no extracampo em relação às diferentes origens criativas de sua equipe técnica, por vários encontros que geram novas resultantes, como com algumas tensões do tipo: O primeiro instinto é procurar onde estaria a personalidade criativa de Raphael Montes ali, um escritor especialista em romances policiais e terror, o que acaba se mostrando de imediato a partir da primeira reviravolta que dá ares de thriller ao drama. Depois, procuramos se Raphael não poderia desequilibrar a construção de Lúcia Murat como diretora experiente e também com sua própria assinatura maturada (como com o brilhante “Que Bom Te Ver Viva”). Enfim, se a questão racial iria ser trabalhada de forma satisfatória, ainda mais ostentando ser o primeiro papel de protagonista em longa-metragem da atriz e dramaturga Grace Passô, cujas peças que escreve refletem este momento presente de extremo avanço positivo das questões afirmativas raciais em uma renovada produção cultural. E, claro, nada destas misturas de personalidades daria certo se o final descambasse tudo o que parecia um acerto até então!

Mas que frescor é atestar o resultado em ver o escritor Raphael renovar a cartilha de Lúcia Murat, e ela também se reapropriar da novidade e retomar sua identidade de novas formas; e enfim ver Grace Passô tomar o lugar de protagonismo que lhe pertence no cinema nacional. É um resultado estimulante de muitas primeiras vezes trabalhando juntos em sinergia na tela.

Praça Paris

A complexidade de “Praça Paris” está em que o filme tinha tudo para desviar do caminho, desde a mistura de personalidades completamente diferentes numa equipe ímpar ao tema extremamente controverso e polêmico nos dias de hoje, ainda mais depois da repercussão do Festival de Brasília e da acusação justificada de alguns filmes racistas (e de qual responsabilidade o cinema tem sobre isso). O tema sutilmente introjetado por trás da roupagem de thriller é justamente desconstruir a branquitude que gera as origens do racismo estrutural no Brasil. Um racismo que não tem nada de velado como muitos brasileiros gostam de pensar quando em comparação com o dos EUA. Mas se há talvez um elemento de ligação que une todos os elementos envolvidos é justamente a cola mágica de Grace Passô, que toma de jeito o filme e transforma ele em outra transcendência.

O filme é abertamente sobre racismo, e a personagem da terapeuta portuguesa vai desvelando o racismo estrutural dela mesma e da plateia, a qual deve ter reações bem distintas de desconforto proposital, seja da plateia branca que talvez rejeite se ver reconhecida na paranoia criada pela branquitude, ou pela parcela negra que verá provavelmente um sufocante retrato de injustiças acometidas até o dia de hoje. Um bom exemplo é o da polícia parando no meio da rua personagens que não fizeram nada, realidade esta que brancos quase nunca estão sujeitos, mas é um estereótipo que precisa ser vencido depois de mais de um século de segregação e discriminação nas bases institucionais.

O pulo do gato que acerta tanto no filme é justamente a nacionalidade dela ser portuguesa, muito bem defendida também por Joana de Verona em dobradinha na tela com Grace, e o filma acaba tendo um ponto de vista que raramente vemos, o de escancarar a branquitude colonizadora como herança eurocêntrica nas bases de nossa formação como cidadãos. Grace claramente transforma o filme a partir do momento em que emprega uma seriedade e credibilidade em sua personagem a não deixar a personagem da terapeuta portuguesa, que é a outra protagonista com mesmo tempo em tela, virar caricatura e se safar de assumir a toxicidade da paranoia dela. Tanto que Grace é favoritíssima para o prêmio de atriz no Festival do Rio deste ano.

E uma curiosidade antropológica: muitos críticos brancos estão se sentindo bastante incomodados com “Praça Paris” por talvez não estarem acostumados a verem a si mesmos como cidadãos alimentados pelas mesmas raízes de disparidade institucional, em seus preconceitos diários transformados em algo vilanizado…