Prevenge

Nada mais autêntico e empoderador do que uma mulher grávida de 6 meses dirigir e atuar seu próprio filme de terror slasher.

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05 de outubro de 2017

Com quanto tempo de carreira na atuação se faz uma diretora e roteirista em um longa metragem? No caso de Alice Lowe, essa vontade não se mostrava muito aparente, apesar dos diversos roteiros escritos – a maioria para séries – e seus trabalhos como atriz desde 2004, foi apenas com o indie slasher, Turistas (Sightseers) de 2012, exibido também no Festival do Rio no mesmo ano de lançamento, que até então, atriz e roteirista, conseguiu uma certa visibilidade, não só pela sua visceral atuação em interpretar uma psicopata com temperamentos angelicais, mas também, por ter dividido o roteiro com Steve Oram, que interpreta ao lado de Lowe sua outra metade assassina, formando o casal psycho stalker Tina e Chris.

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Em Prevenge, filme de estréia como diretora, Lowe assume alguma das características presentes em Turistas, principalmente em termos estéticos, tais quais as paletas de cores em tons mais neutros caindo para um azulado, firmando uma proposta estética muito presente nos filmes alternativos do gênero. Outra relação, se comparado Turistas e Prevenge, seria a grande facilidade que a roteirista teve em apresentar seus personagens principais sendo inseridos em um espaço caótico, fútil e sem esperanças. A partir de pequenos gestos dos cotidianos dos personagens secundários, a diretora consegue estabelecer esse contraste mundano, de que boa parte dos seres humanos em geral, são inúteis.

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Direcionando agora totalmente para Prevenge, existem alguns fatos que precisam ser ressaltados. Além de ser o debut de uma grande roteirista e atriz, Lowe totalizou o tempo de produção em termos de filmagem em apenas 11 dias, ou seja, em pouco menos de 2 semanas foi filmado todo o longa. Outro fato, e talvez o mais interessante, é que resumindo o filme, teríamos algo como: uma mulher grávida, que acaba de perder seu companheiro, passa a ouvir vozes e comandos que estariam vindo diretamente de seu bebê. Comandos esses de morte a todos aqueles que num passado falharam na vida dessa mulher. Lowe, grávida na época em que teve a idéia do filme, não conseguiu encontrar um diretor para realizar o projeto, nada mais autêntico e empoderador, do que uma mulher grávida de 6 meses, dirigir e atuar seu próprio filme de terror slasher.

Prevenge poderia ser mais um dos filmes que passam todo ano pela mostra Midnight Movies de forma despercebida, porém, são pelas suas sutilezas em criticar uma sociedade alienada em um passado e presente conservador, que o tornam um grande filme. Além de ironizar completamente alguns dos processos que são vividos pelas mulheres em suas gestações, como a preocupação que se passa a ter mais na saúde do bebê do que da própria mãe, mãe essa que agora não domina suas vontades, sendo essas vontades controladas e dominadas agora pelo ser que ali se forma. É claro que são questões colocadas como metáforas em que a própria Lowe deve ter passado durante sua gestação.

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Alice Lowe inova como uma diretora, atriz e roteirista que despersonifica o papel e ideal da mãe boa, apresentando uma personagem que rompe com todas as regras para proteger seu bebê, tornando-a mais uma intensa anti-heroina. Prevenge é necessariamente um filme que flerta intensamente com o feminismo, uma intervenção metafórica do movimento, resultando em sua intensão primordial: a liberdade feminina.