Primeiro Balanço da 41ª Mostra de São Paulo

Dia cheio de mestres do cinema com Agnès Varda, Naomi Kawase e Hong Sang-Soo

por

23 de outubro de 2017

Grandes mestres do cinema em sessões seguidas, como Agnès Varda, Naomi Kawase e Hong Sang-Soo.

Com ingressos esgotados para cada sessão, o dia começou com uma lírica poesia ao cinema em forma de dedicatória fílmica feita pela japonesa Naomi Kawase (de “O Segredo das Águas”). Seu novo filme, “Esplendor”, segue a tradutora de audiodescrição cinematográfica, que é a profissional a descrever as cenas dos filmes para deficientes visuais. Com linguagem extremamente sensorial, a cineasta realça os sons e sensações de cena, como o calor de um raio de sol ou o molhado de um leite derramado sobre os pés descalços, como se quisesse desafiar o espectador a como seria sentir na pele o que está acontecendo na tela para além do único sentido da visão.

Leia a crítica de “Esplendor” na íntegra aqui: http://almanaquevirtual.com.br/esplendor/

O próximo sucesso de filas na Mostra foi o novo filme do coreano Hong Sang-Soo, “O Dia Depois”, sobre relacionamentos no ambiente de trabalho, beirando uma denúncia ao assédio em relações hierárquicas de poder. Isto porque o aclamado diretor passou por uma experiência metalinguística e também polêmica nas manchetes de jornais internacionais, para ter a ideia de fazer “O Dia Depois”, porém nesta ocasião de origem diversa: ele confessou ter um caso extraconjugal com a atriz Kim Min-Hee, depois que se conheceram no primeiro trabalho conjunto, o brilhante “Certo Agora, Errado Antes” de 2015. Isto alcançou um pandemônio midiático recente, e o mais inesperado ocorreu: virou matéria-prima de novas parcerias entre os dois amantes, transbordando realidade em ficção na telona e dando vida ainda mais dinâmica a seus filmes. Como bom filósofo do tempo e da simetria espacial da memória, Sang-Soo costuma trabalhar a montagem de seus filmes com uma complexidade bastante oposta à simplicidade de suas tramas, sempre sobre desencontros existencialistas entre casais hesitantes no amor, que correm num familiar naturalismo habitual. Os diálogos são ponto forte, com uma estranheza de fala que constrange os respectivos personagens em cena e à plateia junto com eles, e é assim que opera o tipo de humor do cineasta.

Leia a crítica na íntegra:

http://almanaquevirtual.com.br/o-dia-depois/

E o terceiro filme mais disputado do dia foi “Visages, Villages” de uma das fundadoras da Nouvelle Vague, ainda em plena atividade, Agnès Varda. Após ter dito que havia se aposentado quando finalizou seu filme anterior, o mais autobiográfico até então e multipremiado “As Praias de Agnès” (2008), a diretora retomou o batente para dividir a direção com o famoso artista visual europeu conhecido apenas como JR. Os dois saem de carro na estrada perpassando inúmeras cidades europeias a tirar fotos de cidadãos locais que contam suas histórias, e depois vêem o resultado de suas fotos espalhadas em murais gigantes pela respectiva cidade. Uma expressão de arte, de humanidade e mais uma vez de autobiografia especialmente de Varda, pois, para quem pensou que havia se exaurido toda a revisão de seus trabalhos com o filme antecessor, engana-se redondamente. Ela consegue alcançar ainda mais catarses de vida aos 89 anos de idade, espremendo ainda mais emoções controversas e xeque-mates históricos com dores guardadas, como o reencontro nada previsível com o antigo amigo Jean-Luc Godard.

Enfim, sobrou tempo para assistir uma pequena dica inusitada: o sueco “A Ex-Mulher” de Katja Wik, uma dramédia dividida em três capítulos entrelaçados pela montagem, seguindo três mulheres em fases diferentes da vida e como são afetadas ou não pelo comportamento dos homens ao seu redor e como suas maturidades cambiantes transtornam a rotina. A primeira é a ex-mulher de um homem que voltou a se casar e constituir uma família feliz, ainda que dividam a guarda dos filhos; a segunda é uma jovem mulher casada e mãe de duas crianças pequenas, cujo marido parece que não cresceu, e a terceira é a namorada de um rapaz ególatra que não consegue lidar com a divisão de espaço na ambição natural da juventude que ambos pudessem compartilhar.