‘Procópio’ crava nos palcos o punhal da erosão ética de nossa memória estética

Numa precisão cirúrgica do limite entre fábula e piquete, a direção de Dani Barros potencializa a dimensão filosófica deste 'Amarcord' carioca da dramaturga Carlo Faour, com delicadas atuações

por

21 de setembro de 2018

Procópio um exercício sobre o futuro

Rodrigo Fonseca
Perplexo diante de um resquício de juventude perdida, numa foto de seu quase “anfitrião”, um maltrapilho bom de canto olha para o sem-teto que o “hospeda”, nos refugos de uma casa de espetáculo, e diz: “O Tempo é cruel”. Recebe como resposta um aforismo quase nietszchiano: “O Tempo não é cruel: ele é justo”. O mesmo mendigo da resposta, com a fúria de uma ave de rapina, põe adiante o paralelismo do cordeiro ao dizer “Não se come História” ao colega. Este quer impedi-lo de usar tábuas daquele espaço como lenha para seu fogão, na fervura de uma canja de galinha. E ele tem fome. Aliás, famintos estão ambos os personagens do espetáculo em questão, “Procópio – Um exercício sobre o futuro”, em cartaz só até este domingo no Sesc Copacabana: eles e a gente. Eles têm fome de dignidade; nós, de memória. Da memória que foi incendiada no início do mês, nas brasas do Museu Nacional. Mas a autora deste comovente ensaio sobre a dialética entre desaparições e vestígios, Carla Faour, usa engenhos retóricos para abordar perdas patrimoniais e a erosão da ética brasileira.

No palco do Sesc Copcabana, o melhor desses engenhos é a construção de um passado quase idílico para um de seus protagonistas, defendidos de forma chapliniana por Kadu Garcia e Paulo Giannini, ambos em equilíbrio cirúrgico, ferozes e doídos. Dani Barros, na direção, usa o que há de clownesco (dentro do possível e do verossímil) no picadeiro distópico que Carla ofereceu a ela. E a direção dela é suficientemente acertada (e enxuta) na fusão de fábula e denúncia, de delírio futurista e de piquete.

Em cena, o febril Kadu é o lumpen por excelência, carregando numa perna lazarenta o misbehavior da miséria e do abandono. Já o implodido Giannini, com sua voz tonitruante, é o extremo outrora feliz desse par. Ele, um dia, teve um pretérito perfeito pra chamar de seu: relojoeiro desempregado, o sujeito já teve mulher, filha e canção de amor para aquecer seu peito nos dias de agosto. Mas tudo ficou para trás. O mês do desgosto é uma metáfora para o infinito de hipóteses que o Carlitos Kadu abre, ao deflagrar uma P.A. e P.G. de recordações no companheiro, cantarolando sobre uma musa “divina e graciosa” qual “estátua majestosa”.

Numa economia franciscana de palavras e ações, Carla faz um Amarcord (jargão romano para io mi recordo, ou seja, para a ação de relembrar) no palco e nos leva à compreensão do que se perdeu de essencial em cada um de seus “heróis”. Estão, os dois, perdidos numa noite suja sem amanhecer, qual Tonho e Paco no porto da Santos comatosa de Plínio Marcos. O Tonho aqui já não ajusta ponteiros de ninguém, pois o despertador de sua derrota pessoal tocou cedo demais. Maluco e perigoso, o Paco desta peça é a cigarra que celebra a miopia marxista das formigas, na tragédia da demolição dos templos de Apolo (quer dizer, da Arte).

Nesta Tebas de múltiplas pragas que o Rio de Janeiro virou, “Procópio” se impõe como um obrigatório inventário de cicatrizes, uma autópsia em corpo vivo do fracasso de uma cidade outrora maravilhosa.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5