projeto brasil

Contundente, tocante e verdadeiro projeto de teatro sobre um brasil inacabado

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24 de outubro de 2015

Poucos projetos teatrais conseguem seguir a risca o plano traçado de encenação, ainda mais quando se trata de propostas mais contemporâneas, e conceituais, como a da cia brasileira de teatro e o seu contundente “projeto brasil”. Ficando ainda mais difícil quando esta proposta se baseia na quebra real do limite entre palco e plateia, e das dialéticas entre a verdade e a mentira, o ser e o estar, o atuar e o viver. Geralmente, estas premissas, acabam esbarrando, em quase a sua totalidade, em um falso e aparente ruir de cordas. Disfarçado, muitas vezes, de uma tentativa de ruptura, estes espetáculos acabam caindo em um grande formalismo de uma cartilha pré-estabelecida dos códigos que ditam a narrativa cênica de um projeto em sua contemporaneidade. Com tudo isso, dificilmente eles conseguem atravessar fronteiras mais subterrâneas, dar realmente saltos plenos sem rede, andar na corda bamba sem um camuflado fio de aço que os mantêm seguros entre o mergulhar de cabeça ou se manter falsamente em sua zona de conforto. Uma parte disso podemos observar também em “projeto brasil”:  a desconstrução da cena, narrativa não linear, cenografia limpa, um figurino para cada personagem, uma luz aparentemente bem desenhada, o uso do preto, poucos objetos e uma busca pelos detalhados recursos interpretativos criados e desvendados diante de nossos olhos atentos e surpresos. Entretanto, algo de muito revelador realmente acontece na cena teatral deste espetáculo. Começando pelo próprio título em minúsculo, “projeto brasil” com ótima direção de Marcio de Abreu, e que se apresenta no Mezanino do Espaço SESC, em Copacabana- Rio de Janeiro. Estas letras minúsculas é como se nós não tivéssemos um verdadeiro projeto de um país sério, um Brasil com letras maiúsculas, mas sim um pequeno projeto de um país que finge avançar cinco passos e em seguida vemos ele recuar mais dez. Ficamos neste movimento sanfona – nada mais brasileiro -, indo e vindo. Destruindo, preservando, apontando ao futuro e retornando ao passado.

projeto brasil

“projeto brasil” desnuda em todos os sentidos, a ideia de um brasil inacabado, e em franca construção

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Cenas estanques, música, corpo, performance, múltiplas narrativas enriquecem o projeto

Um projeto que se constitui em quadros independentes entre si, e que se unificam com a mesma percepção em que conseguimos unir um Brasil tão díspare, tão diverso, tão estranho, e tão parecido em si. Um Brasil tribo, um Brasil plural, um Brasil em desenvolvimento, um Brasil arcaico, um Brasil primitivo, um Brasil festeiro, um Brasil que aponta para o futuro, um Brasil retrógrado, um Brasil potente, e impotente ao mesmo tempo. Um Brasil que fala muitas línguas, onde pouco se entende, e onde todos vivem em uma verdadeira harmonia consentida entre todos os povos e tribos. Criado a partir de um processo colaborativo, entre os artistas Marcio Abreu, Nadja Naira, Giovana Soar, Rodrigo Bolzan, Fernando Marés,  Felipe Storino, Marcia Rubin e Ticiana Passos; o projeto foi tomando forma através de dois anos de turnês da cia em apresentações de suas peças de repertório, realização de seminários, troca de informações, palestras, experiências, leituras e vivências junto ao público que ajudaram a formar a matéria-prima que construiu este mosaico performático, este grande caleidoscópio do Brasil, que inclui também um projeto inacabado de uma América do Sul, tão pior que o nosso. Temos desde falas do ex-presidente do Uruguai José Mujica e até da ministra francesa Christiane Taubira, entre performances que incluem a participação do público. Cenas independentes, fala, corpo, música, luz, uma multipluralidade que mistura todos os sentidos, sem exceção, incluindo aí até o tato.

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Rodrigo Bolzan apresenta um trabalho dos mais humanos e refinados no teatro brasileiro, em “projeto brasil”

Este “projeto brasil” de fato nos provoca e nos instiga verdadeiramente a desconstruir o pensamento das linhas narrativas tradicionais nos formatos pré-estabelecidos dos códigos teatrais, não especificamente pela a escolha de sua estética – bastante característica deste tipo de teatro- , mas fundamentalmente pela extrema entrega dos envolvidos no projeto e a absoluta sinceridade na troca real com a plateia. Raras, muito raras, são as propostas que conseguem de fato dialogar sinceramente com o seu público, sem termos a sensação de uma falsa interação programada e tímida. Onde as ações ficam mais no campo das sugestões do que no campo das realizações. Em “projeto brasil” sentimos, vivemos e experimentamos algo que parece de fato estar acontecendo ali pela primeira vez – ainda que sempre seja assim com o teatro, sempre será a primeira vez em que será executado o espetáculo, naquele dia, naquela hora, com aquele público. Ele será sempre um ato único, mas até isso já virou também um lugar comum, em ser uma repetição mecânica de algo já exaustivamente apresentado a nós.

“projeto brasil” realmente nos toca profundamente, seja física ou emocionalmente, e nos alimenta de uma profunda reflexão sobre o ato de fazer teatro, a verdade e a mentira sobre os fatos, nossa história, nossa gente, nossas tribos, os excluídos de nossa sociedade como os índios, os nordestinos, os homossexuais, os surdos e mudos, os estuprados, os enganados politicamente, os discursos confusos, retóricos, tecnicistas e vazios; ou seja, toda esta horda de gente que habita o nosso solo! Com muita carnalidade, força, e empenho, todos os atores se entregam bravamente – brava essa gente -, ao ofício da arte. Há muito tempo não era tocado fisicamente, na arte, com tanto carinho, ao mesmo tempo que eu levava uma grande surra de vara de marmelo, direto na carne. Saímos do teatro perplexos, doloridos, leves e com questões que não param de ecoar em nossa mente. Rodrigo Bolzan nos guarnece de uma das maiores falas de sinceridade dos últimos tempos no teatro brasileiro, mostrando um trabalho de ator, e de homem, dos mais refinados, acompanhado pelos ótimos companheiros de cena – Giovana Soar, Nadja Naira e do sensível músico Felipe Storino – que vivem com carnalidade todas as suas personagens.

 

FICHA TÉCNICA:

Direção: Marcio Abreu

Elenco: Giovana Soar, Nadja Naira e Rodrigo Bolzan

Músico: Felipe Storino

Dramaturgia: Giovana Soar, Marcio Abreu, Nadja Naira, Rodrigo Bolzan

Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino

Assistência de Direção: Nadja Naira

Direção de Movimento: Marcia Rubin

Iluminação: Nadja Naira e Beto Bruel

Cenografia: Fernando Marés

Figurino: Ticiana Passos

Adereços: Fabio Rodrigues e Jussara Santos

Orientação de texto e consultoria Vocal: Babaya

Direção de Produção e Administração: Cássia Damasceno

Produção Executiva: Isadora Flores

Produção local: Quintal Produções – Verônica Prates

Equipe Quintal produções: Maitê Medeiros, Iuri Wander e Thiago Myiamoto

Produção técnica e transcrições: Henrique Linhares

Libras: Erelisa Vieira

Artistas Colaboradores: Eleonora Fabião, Ranieri Gonzalez, Edson Rocha, Renata Sorrah, Cássia Damasceno

Assessoria de Imprensa Curitiba: Fabiano Camargo (FC Comunicação)

Patrocínio: Petrobras | Parceria: Sesc

 

SERVIÇO:

MEZANINO DO ESPAÇO SESC – Capacidade: 60 lugares

2 a 25 de outubro de 2015 (quinta a sábado às 21h, domingo às 20h)

Duração: 1h50

Classificação indicativa: 18 anos

Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana, Rio de Janeiro – RJ – Telefone: (21) 3816-6200

Ingressos: R$20 (inteira) R$10 (funcionários da Petrobras com crachá e clientes Petrobras com cartão na compra de até 2 ingressos) R$5 (comerciários)

Assessoria de imprensa – VERBO VIRTUAL

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 5