Capitã Marvel: qual a relação entre Carol Danvers e Mônica Rambeau?

Entenda a relação entre as mulheres que já foram chamadas de Capitã Marvel nos quadrinhos

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01 de março de 2019

Vamos lá. Hoje a imprensa carioca pôde assistir ao badalado filme da ” CAPITÃ MARVEL” — dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck.

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Nós estamos embargados até o dia 05 de março. Ou seja, para quem não sabe o que é um embargo, todos estamos proibidos de lançar críticas do filme até o prazo determinado no termo com que todos se comprometeram.

Porém, a Marvel/Disney (que distribui o filme internacionalmente) autorizou que profissionais da crítica apenas revelassem suas primeiras impressões. O que farei em uma frase logo abaixo. Porém, eles não proibiram uma análise dos quadrinhos, até porque os quadrinhos que originaram estas personagens são clássicos. Estão postos no mundo. E já até analisei eles anteriormente com trechos que irei colar aqui e colocarei o link lá embaixo para provar que já publiquei quando da análise do lançamento do primeiro trailer deste filme. Ou seja, o presente texto nem é novo. É uma colagem de algo que já escrevi.

Minhas primeiras impressões sobre “CAPITÃ MARVEL”: a melhor parte e melhor núcleo do filme, tanto quanto também é a melhor relação, construída de forma mais sofisticada no roteiro e focada no poder social do matriarcado, é a que existe entre a Capitã Marvel/Carol Danvers (personagem de Brie Larson) e Maria Rambeau (Lashana Lynch). Pronto. Estas são minhas primeiras impressões.

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Relação esta que eu já havia até previsto desde que foi anunciado o filme e a ficha técnica com elenco e equipe creditados em ordem quando apareceu no IMDB. Vide o link que colarei abaixo da minha análise do primeiro trailer, que data de setembro de 2018.

Quando a atriz Lashana Lynch (“Brotherhood”) foi anunciada com o sobrenome de uma de minhas personagens FAVORITAS em todo o Universo Marvel, “Rambeau”, eu imediatamente saltei de alegria que enfim fariam jus à primeira heroína negra a fazer parte dos Vingadores e, inclusive, a liderá-los na década de 80: Mônica Rambeau, filha de Maria nas HQs. — lembrando que a trama do filme notoriamente se passa na década de 90.

Curiosamente, mas não por coincidência, ela foi a primeira personagem feminina nos quadrinhos a ser chamada na década de 80 de Capitã Marvel! Muito antes, por sinal, que Carol Danvers ganhasse esta alcunha. O antigo personagem original do Capitão Marvel como herói masculino havia morrido nas HQs — aliás, uma das melhores e únicas mortes praticamente “definitivas” nos quadrinhos! Ele era um alienígena da raça Kree e seu nome original era Mar-vell — um nome que a editora “Marvel” precisava utilizar para garantir os direitos autorais sobre o nome “Marvel”, já que o personagem da editora concorrente, a DC, o personagem “Shazam”, antigamente, chamava-se “Marvel” (antes mesmo de qualquer outro herói se chamar assim). A DC perdera os direitos sobre o nome “Marvel”, e sua concorrente se apossou do nome. O personagem Mar-Vell morre de maneira originalíssima: com câncer, envenenado pelos próprios super poderes, pois seu corpo não aguentava tamanha potência.

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Agora é hora de fazer uma distinção aqui: Não é porque Mônica Rambeau se chamou Capitã Marvel antes de Carol Danvers que esta já não existisse há mais tempo nos quadrinhos. Carol já era, inclusive, a super-heroína Ms. Marvel (isso mesmo, “Miss”…, alcunha que atualmente passou a pertencer à outra heroína, a popularíssima personagem islâmica Kamala Khan).

Mas voltando à ordem cronológica, Carol é de fato uma das mais antigas super-heroínas mulheres dos quadrinhos. Ela foi criada por Roy Thomas e Gene Colan em 1968 (atrás em importância de membros femininos que se tornariam membros dos Vingadores apenas da Viúva Negra, criada em 1962, a Vespa em 1963 e a Feiticeira Escarlate em 1964). Carol se torna Miss Marvel em 1977. O Capitão Marvel original (Mar-vell) morre em 1982. E também em 1982, é criada por Roger Stern e John Romita Jr. a personagem Mônica Rambeau, que passa a ganhar a alcunha de Capitã Marvel para a editora não perder os direitos autorais sobre o nome, cujo personagem original havia acabado de morrer. Não à toa, Mônica emergia de um boom de criação de personagens femininas negras por toda a década de 70, como Ororo Munroe (a Tempestade dos X-men), Mercedes “Misty” Knight (parceira de Luke Cage) e a primeira Mulher-Aranha (Valerie) — influenciadas pela primavera racial e as grandes ativistas como Angela Davis e Assata Shakur, bem como o cinema blaxploitation e heroínas de filmes policiais na tela grande como “Cleopatra Jones” e “Coffy” (aliás, deste último filme citado, o look da atriz Pam Grier serviu bastante de influência para a criação de Mônica Rambeau nos traços de John Romita Jr.).

Desde então, pode-se dizer que a relação entre Carol Danvers e Mônica Rambeau sofreu vários impactos, não apenas pelo compartilhamento do mesmo nome por um tempo, mas como pelo espírito de liderança que ambas possuem nas HQs. A diferença é que a Marvel, depois de dar a liderança dos Vingadores para Mônica Rambeau, passou a tratar a personagem de forma bastante inglória… E acabou cada vez mais a colocando numa espécie de banco de reservas, de maneira não merecedora de sua potência. Só a partir da década de 2000 é que Mônica começou a voltar a ser tratada com um pouco mais de destaque, primeiro como líder de um grupo chamado “Nova Onda” (2006/2007), depois de um projeto chamado Marvel Divas, e, finalmente, voltou a ser Vingadora na equipe dos Vingadores Sombrios.

A relação no filme entre as duas “Capitães” dos quadrinhos, Carol e Rambeau (pelo IMDB, Maria, mãe de Mônica) parecia indicar que seria uma relação de amizade, já que ambas apareciam como pilotas de aviões de caça lado a lado. Mas a verdade é que havia muito mais ali a ser explorado. Talvez até uma amizade poderosa e bastante sugestiva… Mais até do que o potencial da relação entre o Capitão América (Chris Evans) e o Soldado Invernal (Sebastian Stan) na série cinematográfica do Capitão, que todos conhecem bem o status de bromance que foi dado aos dois.

Outro fator importante de se mencionar é a sexualidade da Capitã Marvel nas HQs. Outras pessoas também já adotaram a mesma famosa alcunha que agora dá nome ao filme de Carol Danvers (Brie Larson). Inclusive o filho do alienígena kree Mar-Vell, o personagem Genis-Vell, e sua irmã/clone, Phyla-Vell, ambos já tendo adotado o nome Capitão/Capitã Marvel, e sendo Phyla uma das personagens mais notórias e abertamente lésbicas nos quadrinhos — algo que era muito raro de ser assumido até muito pouco tempo atrás. Phyla, inclusive, tem até relação complexa e bem construída com a personagem “Serpente da Lua”, filha de Drax dos “Guardiões da Galáxia”.

Quanto à sexualidade de Carol Danvers nas HQs, principalmente desde que mais mulheres andam escrevendo e desenhando a personagem, e até mesmo por sua enorme importância como mulher protagonista da Marvel nestas eras recentes, muito há de se falar por um anseio de que se assumisse a personagem como “bissexual” — assim como a DC recentemente o fez com a Mulher-Maravilha. Até porque outros personagens Marvel recentemente tiveram suas orientações assumidas após muitas especulações, como a homossexualidade do Homem de Gelo (Bobby Drake) e a bissexualidade de Psylocke (Betsy Braddock) — um subtexto existente desde o legado do artista Jim Lee à esta personagem. Ok, ok, que ambos os personagens citados na frase anterior são membros da equipe mutante X-men, cujas histórias sempre foram metáforas contra a intolerância e o preconceito pelo que é diferente, então nada mais justo que a equipe sempre tenha tido vanguardas em relação a isso: como o primeiro beijo gay nas HQs entre os personagens Rictor e Shatterstar (da equipe derivada X-Factor); e o primeiro casamento LGBTQI+ do personagem Estrela Polar (Jean-Paul Beaubier, ex-membro Tropa Alfa e atual X-Men).

Mas seria MUITO bem-vindo se eles dessem este passo a mais na vanguarda destes tempos afirmativos que urgem por posicionamentos mais representativos ante o crescimento de um novo conservadorismo perigoso no mundo. Ainda mais a partir de uma personagem carro-chefe da Marvel como a Capitã de Carol Danvers. Mas seja o que o futuro trará, reitero que a melhor coisa do filme da “CAPITÃ MARVEL” é o subtexto riquíssimo da relação ampliada e modernizada a partir dos quadrinhos entre Carol e a família Rambeau.

Confira o link da matéria que fiz em setembro sobre isso:
http://almanaquevirtual.com.br/primeiro-trailer-de-capita-marvel-comentado/