Quase Memória

Um dos maiores cineastas brasileiros vivos na ativa se desafia a adaptar Cony em Pantomima estética transgressora

por

08 de abril de 2018

filme Ruy Guerra foto1

*Crítica originalmente publicada por Filippo Pitanga em 18 de outubro de 2015 durante o 17º Festival do Rio

**Confira o debate à altura de uma boa masterclass com Ruy Guerra  e equipe do filme durante o 17º Festival do Rio, clicando aqui

Ruy Guerra é um dos maiores cineastas brasileiros vivos ainda na ativa. Isto é um fato e não uma opinião. Então se o cineasta leva quase vinte anos para adaptar uma obra tão complexa quanto a de Carlos Heitor Cony, há de se parar e prestar a devida atenção. Ainda mais com um elenco rico e diversificado que vai de Tony Ramos a João Miguel, de Mariana Ximenes a Antonio Pedro. “Quase Memória”, do romance “Quase Memória, Quase Romance”, é isso mesmo: um amálgama de quases exitosos de experimentalismos profundos, bem a caráter do diretor. A história perpassa presente, passado e futuro, mas não de forma complicada que não se possa compreender. Para tanto Ruy usa de linguagens palatáveis ao espectador. O presente e futuro se unem no personagem de Carlos, interpretado duplamente por Tony Ramos e pelo surpreendente Charles Fricks (da série “Magnífica 70” da HBO), respectivamente mais velho e mais jovem, que se reúnem numa mesma brecha no espaço-tempo meio sombrio e taciturno para dialogar sobre seu pai, interpretado por João Miguel, num passado retratado de maneira inversamente bufona e colorida.

images

É deste contraste a gênese do tratado estético que Ruy pretende inovar, e consegue com isso alcançar uma tridimensionalidade impressionante mesmo sem qualquer técnica de computador ou óculos 3D, apenas no cinema de tradição feito a mão com efeitos de luz e fotografia, de modo a desenhar as cenas com tantas texturas que certos objetos ou personagens parecem às vezes saltar da tela. Um dos truques é o uso de luzes coloridas para realçar sequências como a um desenho animado, porém bastante real, especialmente nas cenas que se passam no passado. Como o personagem do pai é retratado com humor, há um tom galhofeiro, meio burlesco, inclusive no papel de sua esposa, na pele de Mariana Ximenes. Em termos de conteúdo, a atriz está subaproveitada, até porque o romance não a realçava tanto quanto os personagens masculinos (e não é uma história sobre a mãe, e sim sobre o pai), mas reserva uma das cenas mais líricas do filme, quando recolhem água da chuva para fingir ser um tônico medicinal trazido da Europa em mais uma das lorotas do patriarca. E é de lorotas que vive o cinema, resultando em grandes experiências visuais do mestre Ruy, às vezes em detrimento da narrativa, cujos saltos para trás e para frente, mesmo que não se percam por causa das identidades estéticas muito sólidas, podem alienar um pouco o espectador em termos de conteúdo. Afinal, o porte de tamanho empreendimento na fusão de gêneros tão complexos quanto intrincados não é tarefa fácil, nem para o realizador nem para o espectador, e nisto o espectador pode ficar um pouco aquém da intenção nobre do cineasta. Ainda assim, uma obra valorosa, que ao final parece ter de correr um pouco para o desfecho sem terminar o envolvimento na desenvoltura total dos dois Carlos, salvo pela dedicação do personagem na pele de Tony Ramos em capturar a plateia hipnoticamente como quem habilmente domina um peixe arredio com vara, anzol e uma boa isca, exatamente igual às histórias do pai.

20151009-quase-memoria-papo-de-cinema-08

*O filme estreia no circuito comercial de salas de cinema no dia 19 de abril de 2018

Festival do Rio 2015 – Première Brasil

Quase Memória (idem)

Brasil, 2015. 95 min

De Ruy Guerra

Com: Tony Ramos, João Miguel, Mariana Ximenes, Charles Fricks, Júlio Adrião

2014-767159414-joao-miguel.jpg_20141110