Rainha

Gênese de uma nova onda

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11 de setembro de 2017

É maravilhoso ver a história ser escrita de perto. Estamos vivendo um momento glorioso de reconhecimento do realismo fantástico em geral no cinema, com especial destaque para o gênero horror psicológico dentro da seara maior. Internacionalmente, temos apenas este ano sucessos como “Corra!”, “Ao Cair da Noite”, “It – A Coisa”, “Mother” e “The Shape of Water” que acabou de ganhar o Leão de Ouro no Festival de Veneza, além de filmes que estrearam aqui direto na Netflix, como o imperdível “Raw”. Eis que, no próprio Brasil, também há uma valorização do gênero de anos para cá, tanto que recebeu uma alcunha própria: “noir doméstico”, pois extravasaria as raias do psicológico e pegaria emprestados elementos do noir e do expressionismo alemão para despertar algo de fantástico no cotidiano a partir da rotina do lar. Acontecimentos estranhos, fantasmagóricos, demoníacos ou monstruosos, todos atrelados a uma aparente banalidade do dia-a-dia, dos afazeres domésticos de famílias ordinárias. E um valor extra desta nova onda é que está sendo capitaneada principalmente pelas mulheres cineastas brasileiras que tomaram o gênero horror/terror pelos chifres e assumiram o Capiroto.

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Uma destas cineastas que talvez ainda não tenha sido analisada sob a ótica avassaladora do “noir doméstico” é a diretora Sabrina Fidalgo, questão que precisa ser resolvida urgentemente para analisar suas enormes contribuições interseccionais que na verdade deveriam ser indissociáveis ao gênero no Brasil. Seus flertes com o realismo fantástico e a distopia já vem de seus primeiros trabalhos, como “Black Berlim” de 2009. O filme falava sobre questões de classe e raça com imigrantes brasileiros na Alemanha, e o resgate de suas raízes familiares em terra estrangeira através do uso fantasmagórico das lembranças regadas à jazz, as quais assombram o protagonista até ele reconhecer sua identidade antes à deriva nas técnicas de horror psicológico. De filtros descoloridos a distorções da imagem e do foco para impactar sua herança cultural ante o peso da influência estrangeira, todos recursos para simbolizar mais o sufocamento do que qualquer medo ou susto. A regra no horror psicológico é o estado febril e perturbado de seus personagens cujo psicológico fractal externaliza nos cenários e desenvolvimento narrativo.

Mas foi com seu filme “Personal Vivator” de 2014 que Sabrina assumiu de vez a distopia e inseriu o fantástico como metáfora mais mordaz. Na história, o alienígena Rutger Roy Scott (três nomes referenciados do sci-fi) interpretado por Fabrício Boliveira (“Faroeste Caboclo”) deseja estudar os seres humanos e sua condição de inversão de valores, disfarçando-se de documentarista a se inserir na rotina de uma mãe solteira que trabalha para sustentar a sua família, deixando os filhos para serem cuidados pela babá – daí o título “Personal Vivator”, dado pelo protagonista aos profissionais que vivem a vida dos outros na casa alheia, mas onde nada é seu. Ou seja, em seu exíguo tempo na Terra para voltar com uma análise completa, o alienígena irá descobrir os perigos de misturar objeto e sujeito de estudo, e que ele pode não estar tão imune assim ao ter ele mesmo objetificado as mesmas pessoas que ele queria valorizar. Com toques de afrofuturismo e maquiagem vanguardista de tinta fosforescente e desenhos tribais, assinados por Daniele Rispoli e Dinho Santos, é um trabalho metaforicamente elegante que ainda acrescenta músicas entre Cibelle e Jorge Ben como linguagem na reivindicação de Sabrina pelo “noir doméstico”, em torno de uma época que o gênero ainda nem possuía esta recente denominação.

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Pois música é o que ditará a personalidade de seu trabalho mais recente, o sofisticado “Rainha”, onde os ritmos deixam de ser coadjuvantes e passam a ser protagonistas com o samba e o carnaval, tornando-se a ambientação e a motivação das personagens. Não obstante, inova mais uma vez ao inserir distopia nas suas influências trazidas do neorrealismo italiano para descortinar as mazelas sociais sob as hipocrisias culturais. A atriz que já havia roubado a cena em “Personal Vivator”, Ana Flavia Cavalcanti (atualmente no filme “Corpo Elétrico” e em “Malhação”), agora assume a tocha de protagonismo nesta tragédia greco-brasileira de uma aspirante à Rainha de bateria, que todos os anos perde para a amante do dono da escola de samba à la mafioso. A personagem passa a se culpar e se autopunir psicologicamente em busca da perfeição estética acreditando ser a única forma de ser coroada. Esta situação homenageia o clássico “Belíssima” de Luchino Visconti, onde a personagem de Anna Magnani faria de tudo para ver sua filha virar uma estrela para compensar os tormentos passados na Itália do pós 2ª Guerra Mundial, mas é com a internalização da resiliência de “Noites de Cabíria” de Federico Fellini que Sabrina Fidalgo faz sua protagonista Ana Flavia agarrar as rédeas sociais da história.

E onde entra sua recorrente distopia na trama? O filme vai se transformando de um intenso drama social em um thriller psicológico impactando a brasilidade de nosso Carnaval com a inserção de uma gangue ficcional de mulheres fantasiadas como o personagem Alex DeLarge do clássico “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick, cuja analogia falava sobre os efeitos da anarquia ao desapego de todas as regras e seus reversos negativos na constituição do ser humano. Elas são a negação do culto à beleza perfeita que não existe, e atropelam as pulsões que anseiam por uma perigosa e sombria briga pela coroa de Rainha da Bateria, quase numa analogia à Rainha de Copas de “Alice no País das Maravilhas” que ao dizer “Cortem-lhe a cabeça!” queria na verdade impedir que qualquer outra disputasse sua coroa.  Isto coloca em xeque a vitória individual em perspectiva de um feminismo plural. A vitória de um ideal de beleza surreal e condicionante ou uma escalada social depreciadora poderia maldizer todas as mulheres em nome de uma única? Mas então a mulher como indivíduo não teria o direito também de tombar, reerguer-se e alcançar seu próprio ideal independente? Tudo isto narrado com justaposição de imagens oníricas e com não-linearidade para aumentar o tom lúdico de um pesadelo, em uma fotografia P&B belíssima que vai se tornando sufocante em torno da personagem central, com requintes de crueldade, até que ela possa se libertar também, assim como o ângulo de câmera que quebra a quarta parede para podermos nos libertar com ela.

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Sabrina Fidalgo é uma cineasta de vanguarda, com estilo e algo a dizer para agregar à gênese das novas ondas da sétima arte, como a distopia e os vários tipos de neo-noir com apreciação das raízes culturais no cinema brasileiro. Um dos nomes da nova geração para se ficar de olho quando seus longas-metragens alcançarem o circuito de salas de cinema e ajudarem a mudar o cenário da dramaturgia audiovisual de arte, sem deixar de ter apelo de entretenimento comercial.