Ralé

Libelo de amor à evolução do cinema nacional e à forte figura feminina histórica

por

07 de maio de 2016

21792865466_caafea0ce0_b

Helena Ignez, cineasta, atriz-assinatura e viúva do icônico cineasta nacional Rogério Sganzerla, costuma homenagear em seus filmes todo um estilo de cinema novismo marginal da década de 70 de produções urgentes como da Belair, de representantes como também o grande Júlio Bressane e Cia. Em seu novo filme, “Ralé”, Helena repete a parceria acertada com o multitalentoso Ney Matogrosso e sua filha, Djin Sganzerla, como em seu último trabalho juntos, “Luz Nas Trevas”, onde já homenageava outra obra consagrada do marido: “O Bandido da Luz Vermelha”. Agora, faz um libelo de amor a outro clássico mor, “Copacabana Mon Amour”, estrelado à época pela própria Helena, e onde sua personagem marcou uma geração. Agora, realiza o intrincado e ao mesmo tempo simples desdobramento de um filme dentro do outro, apresentando seus muitos personagens com tranquilidade e delicadeza. Parte da história é centrada no personagem de Ney, o carismático ‘Barão’, ao redor do qual povoam inúmeros pensadores e artistas de vanguarda, todos incentivadores de um filme realizado por dois cineastas mirins, praticamente crianças, no qual os personagens anteriores ganham novas identidades e prestam tributo a Sganzerla e à forte figura da mulher histórica.

12031993_1688209621415404_7471223944433722098_n

Inspirado numa peça do russo Maximo Gorki e com uma narrativa a quebrar o que temos por linha tradicional, a linguagem do filme se apodera de movimentos artísticos não apenas do cinema como das artes plásticas, literárias e de contracultura para versar sobre o inconformismo de forma e conteúdo, como por exemplo falar diretamente com a câmera em primeira pessoa, o que pode parecer um discurso político estranho aos não acostumados, mas aqui necessário. Eis que os atores são usados em metalinguagem tripla como personagens de si mesmos, em um filme dentro de um filme dentro de um filme. Esta tríade poderia facilmente resvalar em algo incoerente ou difuso, mas é aí que entra a experiência da madura direção de Helena Ignez, fundindo força anárquica com apelo cinematográfico de gênero. Sensualidade, música, pop e rock mesclam uma sintonia energética altamente atrativa, muito mais do que uma simples história, e sim sensações. Há sim um fio condutor. Tudo gira em torno do personagem do referido Barão, encarnado com maestria e naturalidade por Ney Matogrosso, inclusive em números musicais que se encaixam com perfeição ao invés de apenas parecer que um músico estaria fazendo performances do que sabe fazer melhor, e sim enriquecendo o papel com outro talento nato que possui. Ao redor do Barão transitam o filho (interpretado pela revelação do recentemente premiado “Aspirantes”, Ariclenes Barroso), os amigos de longa data (interpretados pela própria Helena Ignez e José Celso Martinez) e muitos outros personagens que estão filmando o filme dentro do filme nos arredores de sua casa de campo. Uma homenagem a figuras femininas fortes com destaque para Simone Spoladore, muito à vontade com um biotipo que vem aperfeiçoando desde a série da HBO “Magnífica 70”, e para Djin Sganzerla, claramente criativa frente a confiança e sinergia adquiridas em trabalhar com a mãe.

12088524_995886440467429_5555127095386157930_n

Não à toa, os cineastas a dirigir o pequeno filme dentro do filme, ultra independente, são crianças, pois Helena quer exprimir o novo olhar sobre as obras clássicas que agregam novas simbologias para gerações futuras, num círculo virtuoso infinito, em defesa da mulher, dos índios, dos LGBTS, e de todas as minorias injustiçadas. Isto já exprime a irreverência despretensiosa do discurso, que aceita as experimentações do filme como uma grande brincadeira lúdica do que como manifesto impositivo. Um filme transgressor, ousado, ao mesmo tempo extremamente humano, com duas das cenas mais sensíveis do ano desde já, que são a dos personagens de Ney e do dançarino Roberto Alencar se casando numa cerimônia celebrada simbolicamente por uma Juíza de Paz Transexual interpretada por André Guerreiro Lopes. E noutra cena, Ney e Roberto realizam o humano ato de limpar um amigo de idade que suja as calças (na pele do envolvente Zé Celso Martinez), evocando a aceitação da velhice, da solidariedade frente à vulnerabilidade do próximo, e da amizade edificante sem fronteiras. Viva a filmografia brasileira, viva a ralé, viva a marginalidade que mantém acesa as chamas contra o conformismo e homogeneidade.

39ª Mostra de SP 2015 – Mostra Nacional

Ralé (idem)

De Helena Ignez

Com: Simone Spoladore, Ney Matogrosso, Djin Sganzerla, Helena Ignez, Zé Celso Martinez


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52