‘Rastros de Ódio’ completa 60 anos

Dirigido por John Ford e protagonizado por John Wayne, este faroeste é um dos maiores clássicos da história do cinema mundial.

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18 de novembro de 2016

Numa semana em que dois longas-metragens inspirados em fatos da história americana estão em cartaz, “O Nascimento de Uma Nação” (The Birth of a Nation – 2016) e “Um Estado de Liberdade” (Free State of Jones – 2016), outro filme sobre o passado dos Estados Unidos merece destaque por estar comemorando o seu 60o aniversário: “Rastros de Ódio” (The Searchers – 1956).

Longa é baseado na obra homônima de Alan Le May (Foto: Divulgação).

Longa é baseado na obra homônima de Alan Le May (Foto: Divulgação).

Ao contrário dos protagonistas dos longas citados acima, Ethan Edwards (John Wayne) não existiu na vida real, porém condensa todo o horror e preconceito de um branco do velho-oeste contra os chamados “peles vermelhas”, os índios que foram massacrados e que também organizaram massacres, resultantes não apenas da procura pela prata da região, mas de um choque cultural de grandes proporções.

Baseado na obra homônima de Alan Le May, o filme é ambientado no Texas em 1868 e conta a história de Ethan, um veterano da Guerra Civil que retorna para a fazenda de seu irmão pouco antes da família ser assassinada por comanches liderados pelo temido Scar (Henry Brandon), que raptou a pequena Debbie (Lana Wood, infância / Natalie Wood, juventude), tornando-a uma de suas esposas. Obcecado em resgatar a sobrinha, Ethan inicia uma longa jornada que aumenta ainda mais sua amargura e ódio racial.

Sob a inconfundível direção de John Ford, “Rastros de Ódio” é um faroeste cujo colorido de suas belas imagens contrasta com o teor sombrio de sua trama, carregada de religiosidade ao mesmo tempo em que seu protagonista transmite ao espectador uma descrença ímpar, fruto do desprezo oriundo de sua dor. Esta religiosidade é inerente às obras de Ford, cineasta que captou como ninguém a atmosfera do velho-oeste e tornou a rica paisagem do Monument Valley, no estado americano de Utah, seu cenário favorito.

O Monument Valley era um dos cenários favoritos de John Ford (Foto: Divulgação).

O Monument Valley era um dos cenários favoritos de John Ford (Foto: Divulgação).

Com a fotografia primorosa de Winton C. Hoch e contando com a ajuda providencial de índios navajos, nativos da região do Monument Valley, que interpretaram os comanches, concedendo ainda mais veracidade ao longa, “Rastros de Ódio” é uma produção violenta tanto na ação quanto na subjetividade de algumas cenas, principalmente as que indicam que sua sobrinha e cunhada, Lucy (Pippa Scott) e Martha (Dorothy Jordan), respectivamente, sofreram violência sexual antes de serem assassinadas.

Rodado no período da Guerra Fria, quando a censura começava a perder força em Hollywood – curiosamente, Ford e Wayne eram membros da Aliança Cinematográfica pela Preservação dos Ideais Americanos (Motion Picture Alliance for the Preservation os American Ideals – MPAPAI), sendo que o ator chegou a presidi-la –, “Rastros de Ódio” é ainda um belo exemplar do cinema clássico no que tange ao seu puritanismo, valores morais e na estrutura do bem versus mal, ainda hoje utilizada. Neste sentido, refletindo os valores de uma fatia considerável da sociedade americana à época de seu lançamento, algo que pode ser exemplificado com a defesa da preservação da estrutura familiar em detrimento do amor proibido de Ethan e Martha, nítido na cena em que os dois se despedem antes do ataque comanche à fazenda.

No entanto, se diferencia do cinema comum por apresentar um protagonista que não se enquadra nem como mocinho nem como vilão, porque o objetivo inicial de resgatar Debbie é nobre, mas a demora com que isso se dá faz com que ele deixe de considera-la não apenas uma mulher branca, como também membro de sua família, nutrindo o desejo de assassiná-la, uma vez que a menina, por força das circunstâncias, se tornou uma das esposas de um líder comanche. É o personagem mais complexo da carreira de Wayne, que equilibra frieza e ódio no olhar para transmitir sua dor e desejo de vingança ao espectador.

“Rastros de Ódio” é imprescindível a qualquer cinéfilo, estudante de cinema e/ou profissional da área por ser o mais importante trabalho da parceria entre Wayne e Ford e um dos maiores faroestes lançados por Hollywood.