‘Real – O Plano por Trás da História’: amadurecimento de um gênero que alia diversão e conteúdo sem ranço presunçoso

Dirigido por Rodrigo Bittencourt, filme estreia nesta quinta-feira, dia 25.

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24 de maio de 2017

Se o cinema é uma arte que reflete a situação sócio-política de um país, “Real – O Plano por Trás da História” está no caminho certo. Um ano após o impeachment de um governo problemático, corrupto e extremamente incompetente, o filme de Rodrigo Bittencourt surge como a retomada de um movimento que fazia sentido apenas para os ideológicos de plantão. A enorme quantidade de comédias (apelidadas de neo-chanchadas) e cinebiografias de celebridades (algumas bem duvidosas) que assolaram o mercado cinematográfico brasileiro nas últimas décadas só serviu para retirar um público acomodado em frente à TV e transportá-lo para as salas de cinema. Mas este tipo de cinema em nada contribuiu para a identidade cultural do nosso país, uma vez que retirou o pouco espaço disponível para a exibição de obras independentes com alguma substância. Quando falo das comédias é bom frisar que nada tenho contra o gênero, desde que estejam a serviço da construção de uma consciência expressiva como as chanchadas das décadas de 50/60 e/ou os filmes de Mazaroppi que além de realmente engraçados abriam espaço para uma crítica antropológica.

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O que acontece em “Real – O Plano por Trás da História” é um amadurecimento nítido deste movimento dito popular que não precisa recorrer ao óbvio estereotipado para se fazer entender e ser compreendido. Sem subestimar o público, nem abusar de termos em “economês”, o filme conta os bastidores da criação do plano Real em 1993 quando o país amargava uma hiperinflação descontrolada que atingia 50% ao mês. Após uma sequência de planos econômicos que não surtiram efeito, uma seleta equipe econômica, reunida pelo então Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, mergulha na missão de reformar o Estado e criar o Plano Real.

O interessante é que Rodrigo constrói um filme inspirado em fatos recentes, mas repleto de licenças históricas entrelaçando personagens fictícios e reais sem abalar a identificação primária de seu público, mesmo aqueles que não acompanharam a economia brasileira na época do lançamento do plano Real.

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Baseado no livro “3.000 Dias no Bunker – Um Plano na Cabeça e um País na Mão”, de Guilherme Fuiza, o roteiro alia diversão e conteúdo tendo como protagonista, o economista Gustavo Franco (Emílio Orciollo Neto), um vilão arrogante, antipático e ranzinza, uma espécie de Capitão Nascimento de terno e gravata. Bittencourt trabalha com maestria um material espesso sem grandes apelos populares, mesclando História e trama pessoal provando que é possível trazer discussões para a sala de cinema aproveitando o delicado momento histórico brasileiro.

Taxado de ser “de direita” por sete cineastas pernambucanos que retiraram seus filmes do Festival Cine PE, “Real – O Plano por trás da História” levanta discussões importantes (como a incapacidade de conviver com visões diferentes) e respeita o espectador que finalmente pode ir ao cinema e assistir um thriller político contagiante sem qualquer ranço presunçoso.

 

“Real – O Plano por Trás da História”:

Brasil, 2017. 106 min.

Direção: Rodrigo Bittencourt.

Com: Emílio Orciollo Neto, Paolla Oliveira, Juliano Cazarré, Mariana Lima, Bemvindo Sequeira, Norival Rizzo.

Avaliação Zeca Seabra

Nota 5
  • Fernando Monteiro

    Mostra a intrujice politiqueira e o ranço demagógico em detrimento de planos de recuperação econômica. Difícil colocar a razão sobre a paixão nos julgamentos.
    Gostei do filme.