Rebento

Uma Odisseia das Mulheres -- Filme foi o sétimo/último inédito a ser exibido na competição principal da Mostra Aurora da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes

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27 de janeiro de 2018

Que agradável surpresa esbarrar no encontro lúdico entre o sertão e o abstracionismo que vai além do espaço-tempo em busca da identidade a despeito da seca, de queimadas ou geadas. “Rebento” de André Morais foi o sétimo/último inédito a ser exibido na competição principal da Mostra Aurora da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, e pode ter gerado uma reviravolta nas cabeças dos jurados que terão de escolher o ganhador do Festival neste sábado, dia 27 de janeiro de 2018.

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Apesar de já terem passado filmes incríveis pela tela de Tiradentes na competição principal até agora, como “Baixo Centro” de Ewerton Belico e Samuel Marotta e “Imo” de Bruna Schelb, “Rebento” com certeza se agrega junto a eles numa trinca no topo com sua narrativa lírica em meio a aridez do cenário atual. Numa pegada crescentemente onírica do naipe do cult “A História da Eternidade” de Camilo Cavalcante, “Rebento” começa aparentando seguir uma narrativa tradicional épica que se galga no neorrealismo pseudo docuficção. Mas este fantasma de realidade irá se afugentar quão logo. Apesar de o primeiro arco ser brutalmente cru e já conter um arco de desenvolvimento de personagem à la Medeia que irá ganhar sua própria Odisseia brasileira, meio “Macunaíma” meio “Hoje é Dia de Maria”, só que ao invés de a protagonista (Ingrid Trigueiro) ir se transformando fisicamente como nos outros contos citados, é ela quem vai resilientemente transformando todos ao redor.

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Ao longo da viagem da personagem, ela ganhará alguns nomes diferentes, geralmente nomeados por ela ou por terceiros de acordo com que metaforiza que parte da construção social que influenciou sua existência (mãe, pai, marido, filhos etc), e o movimento de câmera sempre a lhe acompanhar faz questão de inverter as situações em ordem crescente conforme ela ganha mais autoconsciência de si. Vai passando por inúmeros arquétipos de afirmação da identidade, tomando de volta o que o meio social hostil com as mulheres tende a trabalhar contra sua autonomia em regramentos que jamais lhe pertenceram. Ou seja, a câmera dá preferência a companhá-la de costas, quase sempre encerrando o ângulo de modo a não revelar seu rosto nem de lado, enquanto ainda está sendo nomeada por terceiros. E apenas a filma de frente quando é uma situação em que ela própria se nomeia. Inclusive levando em consideração o fato de que situações já ocorridas podem voltar a acontecer em chaves interpretativas diferentes, ciclicamente mudando e repetindo, como uma maldição que precisa ser libertada daquelas condições. — metáfora de um Brasil sem escolhas em regiões isoladas com o descaso público.

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O filme se dá como uma jornada, ou em inglês um ‘road movie’, onde importa mais o caminho a ser trilhado e as pessoas encontradas do que o destino/fim. Portanto, esta fábula da realidade, que vai se calcando aos poucos em toques mais abstraídos do real, Porém, nada disso necessita obrigatoriamente de um contexto fantástico que quebre a ordem da realidade. Muito pelo contrário. Enquanto os personagens estiverem em cena sob a égide daquele episódio, já que cada nome que a protagonista muda no decorrer da história vai gerando espécies de novos capítulos, todos obedecem à lógica fechada daquele jogo de cena específico, tornando-se a realidade tangível até ali — mesmo que ela mude radicalmente depois. Um bom exemplo que pode ser citado sem estragar nenhuma surpresa é a excelente intérprete Zezita Matos (que também está no cult absoluto “A História da Eternidade”), que ora encarna a mãe desmemoriada da protagonista, numa das cenas mais lindas, ora uma vizinha rígida, mas solidária.

Evidentemente, nada disso seria possível sem a performance inspirada de Ingrid Trigueiro, que torna o mistério que ronda sua identidade real em meio a tantos nomes em algo crível e palpável, não obstante sua personagem depender da incógnita lacônica para enlear todos ao seu redor. Neste sentido, especialmente quando os artistas trocam de papéis, lembra muito a escola de cinema à la Abbas Kiarostami como com seu jogo de cena de troca de máscaras em “Cópia Fiel”. Mas longe de se fazer uma analogia ao saudoso mestre iraniano para criar uma expectativa grande demais no espectador. Isto porque um dos maiores trunfos do filme é justamente conseguir manter sua extrema simplicidade e pé no chão, mesmo com alguns planos luxuosos e movimentos de câmera mais caprichados. A iluminação e a direção de arte que conseguem ampliar o leque cromático a partir de matizes de sépia predominante também merecem ser lembradas. E, claro, o roteiro a costurar todas as etapas da jornada e nomes dispendidos pela personagem em uma grande catarse-surpresa, sem a qual talvez o filme não se ressignificasse na proporção que alcança finalmente ao término da projeção graças aos dois últimos episódios, com participação especialíssima de Fernando Teixeira, caracterizado lindamente. Repito: tudo através de uma simplicidade extrema, calcada inteiramente nas palavras, diálogos e roteiro. Diálogos que vão num crescendo, a princípio não se dando nada por eles, até porque são escassos, depois repelindo-se outros, devido a personagens colaterais construídas de forma rasa e passageira no tempo fílmico, mas que ao chegarem ao ponto conseguem extrair emoção verdadeira. E isto é do que o cinema é feito realmente.

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É importante também mencionar que este projeto advindo da Paraíba jamais seria possível se não fosse patrocinado integralmente pela Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP), através de sua Fundação Cultural (Funjope). O filme foi um dos vencedores do Edital Walfredo Rodrigues do Audiovisual 2012/201 promovido pela Funjope. Rodado em várias cidades da Paraíba, com técnicos e atores do estado, o longa tem roteiro e direção de André Morais, direção de fotografia de João Carlos Beltrão, além de música original extraordinária de Eli-Eri Moura. No elenco, Ingrid Trigueiro, Zezita Matos, Fernando Teixeira, Zé Guilherme Amaral, Verônica Cavalcanti, Margarida Santos, Palmira Palhano, Itamira Barbosa, Angélica Lemos, Anna Luiza Pordeus e Franck Ferreira.