Relic

“Desde que o seu avô morreu a casa parece...pouco familiar.” Edna

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13 de agosto de 2020

Emily Mortimer appears in Relic by Natalie Erika James, an official selection of the Midnight program at the 2020 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Jackson Finter. All photos are copyrighted and may be used by press only for the purpose of news or editorial coverage of Sundance Institute programs. Photos must be accompanied by a credit to the photographer and/or 'Courtesy of Sundance Institute.' Unauthorized use, alteration, reproduction or sale of logos and/or photos is strictly prohibited

É inegável dizer que estes são tempos para os quais não estávamos preparados. O isolamento social imposto por uma das maiores pandemias da História levanta questões importantes acerca da necessidade de contato social e manutenção das relações familiares.

Contudo, por mais que determinados aspectos tenham piorado, certos problemas estão longe de serem recentes. Fala-se, em específico, do abandono que muitos idosos sofrem, o qual, por mais que tenha se alastrado com o coronavírus, sempre esteve presente em nossa sociedade. Com isso em mente, a diretora Natalie Erika James apresenta Relic, seu primeiro longa metragem, que aborda essa questão de maneira sensível.

Nesse sentido, quando a mãe idosa Edna (Robyn Nevin) desaparece inexplicavelmente, sua filha Kay (Emily Mortimer) e a neta Sam (Bella Heathcote) correm para a deteriorada casa de campo de sua família. Após um retorno tão misterioso quanto o desaparecimento, a preocupação de Kay de que sua mãe parece relutante ou incapaz de dizer onde ela esteve entra em conflito com o entusiasmo de Sam por ter sua avó de volta. À medida que o comportamento de Edna se torna cada vez mais volátil, ambos começam a sentir que uma presença insidiosa na casa pode estar assumindo o controle dela.

Emily Mortimer and Robyn Nevin appear in Relic by Natalie Erika James, an official selection of the Midnight program at the 2020 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Jackson Finter. All photos are copyrighted and may be used by press only for the purpose of news or editorial coverage of Sundance Institute programs. Photos must be accompanied by a credit to the photographer and/or 'Courtesy of Sundance Institute.' Unauthorized use, alteration, reproduction or sale of logos and/or photos is strictly prohibited

Trata-se, ao leitor mais familiarizado com o gênero do terror, de uma sinopse um tanto quanto comum, o desaparecimento e reaparecimento misterioso acompanhado de comportamentos um tanto quanto estranhos. A questão, porém, está nos paralelos traçados entre o apresentado em tela e o estado mental dos envolvidos.

Não de uma maneira particularmente escondida, pelo contrário, uma vez que a situação ali retratada é claramente relacionada ao drama enfrentado por incontáveis famílias no tratamento de seus membros mais idosos. Isto é, à medida que a narrativa progride, descobrimos que Kay tem sido, no mínimo, negligente no trato para com a sua mãe, deixando-a sozinha na casa e raramente fazendo contato. Forçada, porém, a retornar à cidade, deve ponderar possíveis tratativas, dentre elas a sua internação em uma casa de repouso.

Talvez esse seja o tipo de cenário no qual o gênero do terror mais consiga mostrar sua força. A utilização de metáforas para abordagem de problemáticas sociais, bem como familiares, conta com ótimos exemplos no decorrer da história do gênero. Recentemente, apenas a título exemplificativo, temos O Babadook e Hereditário, sendo Relic, inclusive, muito comparado a ambos. É normal que, à medida que as relações sociais se tornem cada vez mais complexas, busquemos relacioná-las à sensações mais primordiais e, sendo o medo, talvez, um dos primeiros instintos que temos como seres humanos, a relação se mostra apropriada.

A diretora Natalie Erika James, que também assina o roteiro, imprime grande pessoalidade à narrativa, o que dá um caráter intimista ao longa. Nesse sentido, ao filmar dentro da residência, não raramente se utiliza de shots distantes, transformando o espectador em um intruso da reunião familiar. Dessa forma, consegue, por vezes, criar cenas permeadas de tensão. Disse-se por vezes porque, infelizmente, parte da obra acaba pecando justamente neste quesito, sendo, sem dúvidas, um de seus maiores defeitos, com exceção da sequência final.

Capa

Nesta, especificamente, destaca-se o competente movimento de câmera que transmite à audiência grande ansiedade. Ao mesmo tempo, porém, jamais torna a cena incompreensível, pelo contrário. O controle da direção expõe de maneira clara a geografia do local, fazendo com que jamais nos percamos ao longo do caminho.

Felizmente, porém, o curto tempo de duração do filme – apenas 89 minutos – impede que haja problemas de ritmo, de modo que a narrativa flui sem grandes problemas. Ainda, o trio de atrizes entrega performances intensas, sendo o trabalho verdadeiramente catártico. As respostas aos problemas apresentados enfatizam as diferentes gerações.

Por mais que o eventual desenrolar da trama careça de uma revelação ou plot twist, ao menos aos mais atentos, a surpresa jamais parece ser a intenção da diretora/roteirista, não sendo sequer justo, portanto, considerar tal fator como uma falha da obra, pelo contrário. Ao final, há certa resignação com o destino das personagens, uma aceitação a um destino imposto por forças naturais das quais não podemos, ao menos por enquanto, escapar.

Portanto, Relic se mostra um competente terror psicológico que dialoga perfeitamente com alguns dos empasses que passamos em um período de difícil reflexão. Em seu primeiro longa-metragem, a diretora/roteirista Natalie Erika James estabelece seu nome como uma promessa ao gênero do terror que, felizmente, se mostra cada vez mais recheado delas.