Repertório Shakespeare

Liderado por Thiago Lacerda e Giulia Gam, Macbeth consegue honrar projeto de duas montagens simultâneas do bardo inglês no Sesc Vila Mariana

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20 de janeiro de 2016

A missão não é das mais fáceis. Encenar dois espetáculos do bardo inglês William Shakespeare, no Sesc Vila Mariana/São Paulo, de forma simultânea, alternados em dias da semana, com o mesmo elenco de 14 atores – em revezamento, onde os protagonistas de uma peça interpretam os segundos papéis na outra -, e a mesma cenografia. Assim é o Repertório Shakespeare, composto pela tragédia “Macbeth”  e pela comédia “Medida por Medida” (no original “Measure for Measure”), com tradução dos textos por Ron Daniels e Marcos Daud, e concepção e direção de Ron Daniels. Ron Daniels, é brasileiro, radicado em Nova York, e um dos diretores teatrais da britânica Royal Shakespeare Company de Stratford-upon-Avon. Para as encenações foram utilizadas uma maratona de mais de 800 horas de ensaios. O diretor, que também foi responsável pela fundação do Teatro Oficina, ao lado de José Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi, contabiliza 41ª encenações de Shakespeare, entre montagens nacionais e internacionais.

Medida por Medida 1

O casal protagonista de “Medida por Medida”, Luisa Thiré (Freira Isabella) e Marco Antônio Pâmio (Frei). Foto de Adriano Fagundes.

Medida por Medida” aborda temas como o poder, a corrupção e os dilemas éticos e morais da vida pública e privada. Quando se ausenta de Viena, o Duque Vicêncio deixa o poder nas mãos de Ângelo, um rigoroso juiz que faz cumprir à risca as leis contra a fornicação em vigor na cidade. Porém, a aplicação obstinada da lei resulta na separação de dois inocentes: por não terem seguido todos os trâmites legais ao casar-se. A gravidez de Julieta rende a Cláudio o encarceramento e uma condenação à morte. Isabella, noviça e irmã do prisioneiro, tenta reverter a sentença, mas Ângelo mostra-se irredutível – a não ser que a donzela esteja disposta a comprar a vida do irmão com a própria virgindade. Para tomar essa decisão, Isabella recebe a ajuda de um misterioso Frei, que surge para ajudá-la a combater os malfeitos de Ângelo. A concepção de Daniels para “Medida por Medida” mostrou-se um conceito bastante frágil em explorar um universo de pessoas comuns, mesclada com homens de poder no clero e na justiça. De uma forma muito tímida e pouco consistente, vimos o desfile de personagens esteriotipados em prostitutas, cafetões, bêbados, arruaceiros, e um homossexual interpretado por Marco Suchara de uma forma desengonçada e com nenhuma familiaridade com o salto alto que usa durante toda a peça. Ficando mais como rascunhos de personagens, do que personagens propriamente ditas. Tudo na encenação nos dá a impressão de esboço, e de uma primeira forma, do que de um trabalho desenvolvido contemporaneamente para uma nova leitura do bardo inglês. Tudo fica mais próximo de um teatro mais antigo, mais naturalista, que contrasta com a cenografia abstrata em formato de meia lua metálica, coberta de cortinas de plásticos e tendo ao fundo uma inspiração clara na pintura “Operários” de Tarsila do Amaral. Criando um universo visual também eclético e que não dialoga entre si. Não chega próximo nem a nos dizer a que veio e aonde tudo aquilo se encaixa. A adaptação do texto é bastante cansativa, modernosa por demais,  e fazendo ele parecer bem mais longo do que é, pelo seu tom arrastado e interpretado com pouca energia por grande parte do elenco. Muitas interpretações caricaturadas, sem timing de comédia, sem ritmo; e com composições cênicas tímidas demais do carnaval de Veneza e um rascunho de samba. Uma comédia em que apenas alguns espectadores riam, em alguns setores da plateia do teatro. Em alguns poucos momentos. O casal protagonista de “Medida por Medida” não tem química, não conseguimos sentir nenhuma empatia, ou acreditar em suas trajetórias.  Além de que todo o espetáculo é muito deficiente em sua encenação, com muitas cenas frontais, entre dois atores, ocupando o palco gigantesco do Sesc Vila Mariana, em marcações cênicas primárias que parecem concebidas em um primeiro ensaio e com soluções muito fáceis. Conceitos requentados de teatro e com uma execução primária. Feita quase que no automático. Dificilmente conseguimos acreditar, nesta montagem, nos conceitos de justiça e corrupção, equidade e abuso do poder, castidade e volúpia. E tampouco se impactar com a atualidade dos temas abordados por Shakespeare como poder, corrupção e dilemas éticos e morais da vida pública e privada. Em “Medida por Medida” quem desempenha melhor o seu papel é Thiago Lacerda como o conselheiro moralista Angelo. Thiago consegue emprestar à personagem momentos de sinceridade e onde conseguimos ver o melhor desenho de construção cênica. Marco Antônio Pâmio e Luiza Thiré, como o casal protagonista Duque e Freira Isabella, têm muita dificuldade em atingir suas personagens. Ele pelo excesso de interpretação e ela pela total ausência. Tudo em “Medida por Medida” é pequeno, pouco explorado e desenvolvido. Desde os figurinos heterogêneos de Bia Salgado, a cenografia anômala de André Cortez, a iluminação high tech de Fábio Retti, a direção de movimento quase inexistente de Sueli Guerra e a trilha sonora irregular de Gregory Slivar. Cada um apontando para um lado, e nenhuma das pontas se ligando.

Macbeth 1

O casal protagonista de “Macbeth”, Giulia Gam (Lady Macbeth) e Thiago Lacerda (Macbeth). Foto de Adriano Fagundes.

“Macbeth”, uma das peças mais fascinantes de Shakespeare, uma de suas tragédias mais curtas, e cercada de várias atmosferas e misticismos, como o de que ela seja uma peça amaldiçoada no meio teatral, e muitos não mencionam o seu nome em voz alta, referindo-se a ela como “The Scottish play” (“A peça escocesa”), já nos faz ir ao teatro com um olhar sempre mais atento, instigante e curioso sobre esta encenação. Dentro do Projeto Shakespeare, ela também nos aguçou o sentido, de cara, pelo fato de que o casal de protagonistas seria desta vez interpretado por Thiago Lacerda como Macbeth e Giulia Gam como Lady Macbeth. Apenas isso, já nos fez imaginar o quanto esta encenação teria tudo para ser bem mais pulsante, dinâmica e visceral. Macbeth, um general corajoso, ao voltar triunfante da guerra, encontra três criaturas misteriosas, videntes que lhe fazem a seguinte profecia: Macbeth será rei, em um futuro próximo. A ambiciosa Lady Macbeth, esposa de Macbeth, ao ficar sabendo da profecia, instiga seu marido a matar Duncan, o atual rei. Quando o crime é descoberto, os filhos de Duncan, Malcolm e Donalbain, sentindo-se ameaçados, resolvem fugir e Macbeth é coroado. Apesar do descontentamento em deparamos com a mesma cenografia do espetáculo anterior, nos parece que apesar de tudo, primeiro foi concebido “Macbeth” para que depois, toda a estrutura e elenco fosse reutilizado na encenação de “Medida por Medida”.  Tudo parece ficar mais interessante, e mais orgânico,  em “Macbeth”, sem precisar ressaltar já o fato de ser uma das mais intrigantes tragédias de Shakespeare, coberta de sangue, de traição, de culpas que matam, de ardilosos conluios, de grandes contrastes – como um grande herói de guerra se transforma em um vil assassino inescrupuloso e sangrento. Um dos vilões mais temidos, e mais cobiçados pelos grandes atores na história do teatro mundial. E o poderoso papel de Lady Macbeth, igualmente cobiçado como um dos mais importantes da dramaturgia mundial. Mulher diabólica, ardilosa, que engendra todos os planos de Macbeth, que é a grande responsável em instigá-lo a usurpar o poder do Rei, que para ela é a única coisa que tem que ser feita e ele precisa deixar de ser fraco, parar de pensar e de fato agir. Ela é a grande mentora de sua existência. De fato o que moveu a encenação de “Macbeth” foi a dupla de protagonistas. Thiago Lacerda demonstra enorme paixão, empenho, e dedicação em realizar um Macbeth em estado de apreensão e tensão permanente. Conseguimos enxergar nele o caminho a ser traçado, desde o grande guerreiro até seu trágico destino final. Giulia Gam, como Lady Macbeth empresta uma boa dose de austeridade à personagem. A força e a química de Lacerda e Gam são de fato o grande mérito do espetáculo; que apresenta momentos muito interessantes de teatralidade, força cênica e beleza plástica e estética. Destaque para o som forte e pontual de Gregory Slivar e a força corporal da coreografia dos guerreiros de Sueli Guerra, na cena inicial . Os efeitos fosforescentes de Fábio Retti na “floresta que anda” e no quadro “Operários” onde cria um belo e impactante efeito, que dialoga com pungência na cena. Um pequeno detalhe que passa quase despercebido, é uma discreta homenagem que a direção faz a maior estudiosa de Shakespeare no Brasil, a crítica teatral carioca Barbara Heliodora, falecida em abril de 2015, que aparece retratada no simbólico quadro de Tarsila. Apesar de ser a mesma cenografia, para “Macbeth” tudo parece fazer sentido, se encaixar melhor nesta encenação. A despeito de ainda encontrarmos muitos símbolos óbvios em paleta de cores de figurinos, marcas, ideias, e signos como a pena de abutre. No caso referido as interpretações, e as marcas, são melhores compostas. Uma boa surpresa também é vermos a ótima atuação e delicadeza de Rafael Losso como Malcolm. Mal aproveitado como Claudio em “Medida por Medida”, em Macbeth” Losso mostra toda a sua força e talento. Tendo um bom trabalho também Felipe Martins (apesar de um pouco igual nos dois espetáculos). O conjunto de “Macbeth”, ainda que com algumas irregularidades, e rara minúncia – onde poderíamos ver questões fundamentais como o sono e a consciência de culpa serem retratadas com mais filigranas -, é o responsável em honrar o projeto Repertório Shakespeare.

 FICHA TÉCNICA

Texto: William Shakespeare
Tradução: Marcos Daud e Ron Daniels
Concepção e Direção: Ron Daniels
Curadoria Artística: Ruy Cortez
Instalação cênica | Painéis: Alexandre Orion
Instalação cênica | Cenografia: André Cortez
Figurinos: Bia Salgado
Desenho de Luz: Fábio Retti
Composição e trilha original: Gregory Slivar
Diretor assistente: Gustavo Wabner
Preparação corporal e direção de movimento: Sueli Guerra
Coordenador de ação: Dirceu Souza
Visagismo: Westerley Dornellas
Preparação vocal: Lui Vizotto
Preparação de luta: Rafael Losso
Cenotécnica: Fernando Brettas | Onozone Studio
Figurinistas assistentes: Alice Salgado e Paulo Barbosa
Indumentária e adereços: Alex Grilli e Ivete Dibo
Costureiras: Francisca Lima Gomes e Marenice Candido de Alcantara
Camareiros: Diro Faria, Renato Valente e Regina Sacramento
Projeto de sonorização: Kako Guirado
Operador de som: Renato Garcia
Operadora de luz: Kuka Batista
Diretor de palco: Ricardo Bessa
Edição de texto: Valmir Santos
Foto de cena: João Caldas
Foto do processo | Still: Adriano Fagundes
Design Gráfico: 6D
Assessoria de Imprensa | SP: Adriana Monteiro

Relações institucionais: Guilherme Marques e Rafael Steinhauser
Administração: Flandia Mattar
Assistente administrativa: Mara Lincoln
Assistência de produção: Claudia Burbulhan, Diego Bittencourt, Marcele Nogueira e Paulo Franco
Produção Executiva: Luísa Barros
Direção de Produção: Érica Teodoro
Produção: CIT-Ecum, TRL e Pentâmetro
Realização: Sesc SP

Elenco I Personagens

Thiago Lacerda: Angelo (Medida por Medida), Macbeth (Macbeth)

Giulia Gam: A Sra. Bem-passada (Medida por Medida), Lady Macbeth

Marco Antônio Pâmio: Duque (Medida por Medida), Macduff (Macbeth)

Luisa Thiré: Isabella (Medida por Medida), Lady Macduff (Macbeth)

Sylvio Zilber: Éscalo (Medida por Medida), Duncan e Velho Seward (Macbeth)

Marcos Suchara: Lucio (Medida por Medida), Banquo (Macbeth)

Lourival Prudêncio: Pompeu (Medida por Medida), Sargento, Porteiro e Doutor (Macbeth)

Felipe Martins: Cotovelo e Barnabé (Medida por Medida), Feiticeira, Mensageiro, Assassino (Macbeth)

Ana Kutner: Mariana, Freira (Medida por Medida), Feiticeira, Enfermeira (Macbeth)

Rafael Losso: Claudio (Medida por Medida), Malcolm (Macbeth)

André Hendges: Superintendente (Medida por Medida), Ross e Oficial (Macbeth)

Fabio Takeo: Frei Thomas, Guarda + Franchão (Medida por Medida), Lennox (Macbeth)

Stella de Paula: Julieta e Katia François (Medida por Medida), Feiticeira, Fleance e Mensageiro Branquela (Macbeth)

Lui Vizotto: Lelé, Guarda, Frei Bento (Medida por Medida), Donalbain, Assassinos, filho de Macduff (Macbeth)

SERVIÇO:

Repertório Shakespeare, no Teatro do Sesc Vila Mariana:
De 05/11 a 31/01/2016. (de 21/12 a 06/01 – Intervalo de fim de ano)

Quinta a Sábado, às 21h. Domingo, às 18h
Macbeth – quintas-feiras e sábados, às 21h – duração: 100 minutos, sem intervalo. 12 anos

Medida por Medida – sextas-feiras, às 21h e domingo, às 18h – duração: 110 minutos, sem intervalo. 12 anos

Capacidade: 620 lugares

Indicação de faixa etária: 12 anos

(Excepcionalmente no feriado de 20 de novembro (sexta-feira) a apresentação de Medida por Medida será às 18h)

44 apresentações. 22 de cada obra. 2 sessões por semana de cada obra. 11 semanas.

Ingressos: R$ 60,00 (inteira) l R$ 30,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor de escola pública com comprovante) e R$18,00 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculados no Sesc e dependentes/Credencial Plena).

Venda online no Portal Sesc SP a partir das 20h do dia 27/10; nas bilheterias, a partir das 17h30 do dia 28/10.


Os ingressos podem ser adquiridos em todas as unidades do Sesc

Horário de funcionamento da unidade: Terça a sexta, das 7h às 21h30; sábado, das 9h às 21h; e domingo e feriado, das 9h às 18h30.

Bilheteria da unidade Vila Mariana: Terça a sexta-feira, das 9h às 21h30; sábado, das 10h às 21h; domingo e feriado, das 10h às 18h30.

Estacionamento: R$ 4,50 a primeira hora + R$ 1,50 a hora adicional (Credencial Plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). Para o público: R$ 10,00 a primeira hora + R$ 2,50 a hora adicional (outros). 200 vagas.

 


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