República

A fabulação espiritual da materialidade quarentenada

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29 de janeiro de 2021

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Revendo “Vaga Carne”, primeiro filme dirigido pela também atriz e dramaturga Grace Passô, inspirado no texto homônimo para o teatro de autoria dela mesma, e codirigido por Ricardo Alves Jr. (leia mais aqui), é impossível não refletir como a artista teve a idéia original de escrever sobre a voz de Deus encarnada no corpo de uma mulher negra. Mulher esta, no caso, interpretada pela própria em estado de graça, tanto na peça, quanto no filme. Um dos nomes mais criativos e necessários dos últimos tempos. Mas como superar este argumento bastante vanguardista? Ainda mais em momentos como estes pandêmicos, em que precisamos não só abrir novos canais de diálogo com o divino, como precisamos de novas formas de fazer perguntas para obter novas respostas?

Eis que a quarentena social conduziu Grace a um novo caminho com o curta-metragem “República” (2020): Em direção solo, presa em sua própria casa, no auge da curva ascendente de contaminação da pandemia, e tendo como parceria a sua companheira Wilssa Esser, uma das diretoras de fotografia mais premiadas dos tempos recentes (como por “Temporada” de André Novais). Encerradas num quarto com única janela para fora, além da virtualidade de um telefone para chamadas externas, ficamos condicionados a uma noção de mundo dividida entre a materialidade da casa e a virtualização do extracampo desde o princípio. O que Grace fará com isso consegue revolucionar mais uma vez com a dramaturgia que esperaríamos da vida atual, e para abordar o assunto, teremos de mergulhar em águas profundas.

Há duas formas imediatas de se escrever sobre esta obra surpreendente. Uma é sem spoiler, e preservando o espectador das surpresas por vir. Outra é com spoiler, para tentar conceber e decodificar as inúmeras correlações criadas pela inventividade da obra. Vamos começar sem spoiler para que todos possam ler tranquilamente e preservem cada emoção da descoberta. A partir da terça parte final, quando abordar os spoilers, o parágrafo conterá um alerta para apenas ser lido por quem já viu ou não se importa em perder parte da experiência (altamente não recomendável, pois faz parte da catarse).

Comecemos, então, pela parte sem spoiler. O filme aborda o confinamento a partir do apartamento da personagem que é intepretada pela própria diretora, a qual recebe um lampejo de epifania que redimensiona toda a realidade. Não iremos falar ainda sobre do que se trata esta descoberta, para preservar o impacto até desta parte – mesmo que ela esteja na sinopse (se puder nem ler a sinopse, tanto quanto melhor). Basta dizer que estamos debatendo a partir das imagens providas qual é o Brasil que representa quem aqui? E se representa algo real e presente ou algo que não existe ou talvez jamais tenha existido… Um ideal para ninguém.

Como definir uma democracia? Como definir para quem ela se destina? Por isso é importante a trama deste curta começar num quarto, na cama, lugar de intimidade sonhada e também de pesadelos… De representações etéreas, virtuais, dentro para fora de nós, como acordar de supetão do delírio dormente. Por isso é tão importante a cena seguinte ser para a janela do quarto, quando gritos externos irrompem a rasgar o entorno, de fora pra dentro. Invadem o extracampo do quarto, perturbam a harmonia… Mas qual harmonia?

A única outra comunicação é com a personagem da mãe da protagonista-diretora ao telefone, que não aparece corporeamente, mas tão somente nas reações da atriz em campo, sob a luz fosforescente da TV. Esta é quem absorve e reflete todas as reações à linha narrativa seguida. Um corpo criador de cena. De olhares. De gestos. De partilha destes gestos com o que possa ser comum aos que estão quarentenados – nas palavras de Jacques Rancière.

Eis que a narrativa se parte, irrompe a tela, e infiltra as fissuras. Na brecha da realidade, a personagem encontra a diretora dentro do quadro, sai do papel interpretado e dialoga com sua diretora de fotografia, Wilssa Esser. A partir deste momento apenas vozes e partes de corpos, nenhum inteiro. E isso é importante para brincar de quebra-cabeça a ser montado no final. As vozes nos levam à cozinha, apenas um quadro. O quadro com o retrato da atriz-diretora, agora objeto de arte. Sujeito que escreveu o roteiro e declamou os diálogos, mas agora arte. Estática. Espelhada. Inerte, mas ao mesmo tempo viva em quem observa. A diretora observa o quadro, tanto o retrato quanto o plano do filme.

Vale interceder com fatos que estão fora de quadro, como o próprio Título do filme. Pois se a diretora-atriz-dramaturga é mineira, o filme se passa onde atualmente sua personagem estaria residindo, em São Paulo, porém também como cidadã do mundo, cosmopolita, universal. E o título, ao mesmo tempo em que se refere à República de um País, também remete ao bairro de SP de mesmo nome. Na teoria, a palavra quer dizer um tipo de governo em que o Estado coloca na frente os interesses de seu povo, em oposição à Monarquia, por exemplo, mesmo que as primeiras presidências do Brasil após a proclamação da República tenham advindo de militares ainda demasiadamente demarcados pelo Império… República não é sinônimo de democracia, pois um pode existir sem o outro, e às vezes até se forçam de modo mutuamente excludentes.

Mas república também pode querer dizer moradia coletiva numa universidade ou em compartilhamentos habitacionais, algo que remete bem mais ao que as pessoas estão sentindo com a quarentena. Especialmente aqueles a residir fora de seus territórios de origem, abrigados por força maior e pela pandemia mundial de modo distante de seus familiares e amigos. O sentido desta república com ‘r’ minúsculo também quer dizer compartilhamento. Quer dizer outras formas de ver a vida que não a de dominação e ordenação como a República com ‘R’ maiúsculo. Algo que ressoa no filme nas mais diversas linguagens, físicas e etéreas, como desde citações à cosmologia indígena, bem como às músicas e letras, que nos lembram de outras comunicações com a essência da vida. A presença e trabalho de Grace somados à força indígena, por exemplo, são algo muito potente na tela. Que ecoa pra além de nossos confinamentos.

Por fim, apenas um pequeno spoiler, afinal, eu disse que deixaria o spoiler para o final. Melhor ficar sem spoiler, melhor não revelar nada. O spoiler é dizer que se você não assistir a esta experiência fílmica estará talvez perdendo uma das melhores catarses do ano, e uma das maiores experimentações estéticas que as imagens de quarentena poderiam ter nos proporcionado na tela, de modo a conseguir lidar com nossa própria dor. Como disse, apenas um spoiler: não deixem de ver o filme, senão quem sairá empobrecido é você. Você irá se encarar no final, naquele quadro, sob a máscara, sob os gritos, você. Você se sente representado? Você se sente contemplado? Você não está no quadro? Você não foi filmado? Então quem foi? Quem dirige esse plano? Quem atua nele? Para quem é este Brasil, senão para nós? Vá ver esse filme e participe dele.