Respire

Feridas muito mais maduras que a adolescência finge não deixar na formação do adulto

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18 de janeiro de 2016

Segundos para inspirar e segundos para expirar. Esse é o tempo normal para a troca gasosa nos pulmões que alimentam vida no corpo humano. Só quem já passou por situações limites é que valoriza o quanto o ato de respirar é caro. Medo. Horror. Impotência. Humilhação. E o quão próximas estas sensações estão do calor explosivo das paixões e podem ser confundidas com o amor. Se ver refém de uma situação que prolongue tudo isto no tempo então, é insuportável. Veio daí a ideia para a atriz e também realizadora francesa Mélanie Laurent filmar “Respire”, um drama sobre uma adolescente normal, ligeiramente insegura, que na transição para a maturidade adulta se espelha na aparente autonomia fascinante da melhor amiga. Até que as aparências enganem e se voltem contra elas.

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Mais lembrada por suas atuações, como a dona do cinema em “Bastardos Inglórios” de Tarantino, a tão jovem atriz francesa começa a se destacar como cineasta, em plena segunda produção e já sob domínio da Mise-en-scène. Curioso que o tema emancipação feminina seja tão caro este ano, ainda mais porque Mélanie está no elenco também do novo filme dirigido por Angelina Jolie, “À Beira-Mar”, também sobre repressão social histórica da mulher. E o que surpreende em “Respire” é justamente a visão opressora não vir de um homem, e sim de como a mulher se vê na sociedade, com preconceitos herdados umas das outras.

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No papel da garota que chega na escola e arrebata todas as atenções com seu carisma enorme (da atriz Lou de Laage e de sua personagem), de modo que ninguém perceba os segredos obscuros escondidos sob esta armadura de aparências, a propositalmente insossa protagonista (Josephine Japy) começa a ser arrebatada junto com o espectador. O processo de maturação de personalidade que elas precisarão passar vai dando liberdade bem aos poucos para a diretora inverter aos poucos a polaridade de poder. Bem como a câmera também inverte. De princípio usando e abusando de um olhar idílico, idealizado pelos sonhos da adolescência ainda pura, intocada, como demonstram os campos bucólicos das férias de veraneio e a forma como as panorâmicas capturam as jovens de baixo para cima com a grandiosidade dos pastos e grama alta refletindo o sol. Até que a malícia começa a ganhar a cena, bem como o background urbano e acinzentado da fotografia, das vielas obscuras de metrôs e comunidades mais carentes do que aquelas com as quais os estudantes abastados da escola central da trama pudessem estar acostumados. Numa fase da vida que se vive de aparências, Laurent retira todas as máscaras e mostra as feridas muito mais maduras que a adolescência finge não deixar na formação do adulto que se tornará, se usando da quebra de gêneros a princípio em narrativa romântica, para se transformar de um drama em um excelente suspense psicológico.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4