Retalhos

por

29 de janeiro de 2015

Baseado na história de vida de seu autor, “Retalhos” é um conto sensível. A premissa simples deveria se realizar uma pequena publicação, mas foi se agigantando graças ao prazer em escrever de Craig Thompson, além da clara possibilidade de auto exorcismo, usando sua graphic novel como um desabafo, um diário compartilhado com o mundo, cujo intuito seria  cooptar leitores com identificação imediata, ou o público capaz de sentir empatia por seus dramas, comuns demais em tempos modernos e em países de matizes cristãs.

Retalhos 3

Craig Robinson pode ser denominado como um “ex-crente”, um sujeito que já teve muita fé no evangelho protestante, ainda que atualmente tenha muito mais ressalvas – e repulsa – pelas práticas desleais ocorridas sobre os templos evangélicos. A bucólica vida no meio oeste americano é registrada em detalhes milimétricos, cuja intimidade ultrapassa qualquer barreira da inverdade, uma vez que a auto biografia prima pela visceralidade, da infância até a juventude de Craig, que resume em si o papel de personagem e de narrador da própria existência, tomando para si o papel de onisciência, retirando este direito das mãos do “deus” que o cercava.

Retalhos 4

A narração começa pela infância, onde o autor dividia a cama com seu irmão caçula Phil, convivendo com o comum sentimento de desprezo que ocorre entre fraternos na infância. Seu tamanho diminuto fica ainda mais evidente quando comparado com a enormidade das figuras da autoridade, mostradas com braços e pernas extensos e rostos desfigurados. Seu pai é um exemplo de extremismo religioso, que com mão de ferro, cuida de seus herdeiros com uma soberania castradora, que pune quando sua vontade não é estabelecida. Na mente dos infantes, mesmo um quarto escuro, cuja umidade é desequilibrada, torna-se o lar de pesadelos, de más lembranças provenientes da fase imaturo, que mesmo cedo, era capaz de produzir traumas que ecoariam pela vida inteira.

Retalhos 2

A incompreensão e deslocamento do mundo começa para Craig já na escola, com os violentes assédios morais que sofria, refletidos em seu caráter em formação, que produzia no caçula uma quantidade de impropérios que visavam amedrontar o irmão mais novo. O menino não era mal por essência, mas só podia reproduzir o que sabia, e o ódio era mais fácil de destilar do que a consciência e entendimento.

A necessidade básica mostrada no primeiro capítulo e que se arrasta por todo o livro, é a vontade de fugir, seja pela redação escolar, em que o rapaz descreve algumas pessoas do seu cotidiano se alimentando de fezes – todos os que o agrediram de alguma forma – como também o súbito interesse por geografia, um conhecimento adquirido para disfarçar seus planos de escape. Os motivos que o faziam desejar isto era a óbvia condição de opressão que sofria no colégio e em casa e a violência sexual, que acometeu ele e o irmão, retratada de modo singular em quadro, mostrando o agressor como uma figura monstruosa, cujas feições ele não conseguia exprimir dado o desespero que o tomava ao ter de rabisca-lo.

Retalhos 5

O desejo pela comunicação via desenhos é mostrada ainda na infância e é tratada como uma característica acessória, coadjuvante diante do papel da fé em Jeová e no Céu eterno. O artifício é pensado para ser exatamente assim, emulando a realidade que era o cotidiano de Craig, pondo a fidelidade religiosa acima de suas próprias necessidades. A adolescência começa com a postura de orgulho em relação ao seu deslocamento social, com o mantra repetido: “eu não sou daqui”, uma frase de auto engano, produzida pela massa litúrgica que o envolvia. O pesadelo da existência o fez queimar seus desenhos antigos, resultados da culpa de não ter se entregue a Deus e a sua obra como deveria.

O isolamento do menino prossegue também no acampamento cristão, o que para si é ainda mais cruel, uma vez que a rejeição na escola tinha a desculpa de ser um confronto com o “mundo”, enquanto ali, deveriam ser todos irmãos. A rejeição maior era a dele próprio, que imputava a isso o delito de não ter se dedicado A Obra como deveria, claro, numa visão míope das próprias atitudes. Logo, Craig encontra outros desajustados, bem mais transgressores que ele.

Retalhos 4

É no cenário do Acampamento que Craig percebe a impessoalidade da religião e a impossibilidade de aquela alegria forçada ser compartilhada por tantos, não sé pela óbvia hipocrisia dos que cantavam, mas também pelo fato de que algo tão singular quanto a intimidade com o Divino não poderia ser resumida numa canção dita por tantas vozes diferentes e dissonantes entre si. O Bom Pastor, capaz de largar todas as ovelhas para resgatar somente uma não poderia se encaixar naquele conceito comercial, produzido para uma massa que só tem carência como característica comum.

Em meio a mediocridade, o protagonista encontra um par, uma pessoa que consegue brilhar mesmo no meio dos carolas e dos rebeldes adolescentes. Raina ele se sentir diferente, isolado de um modo positivo, finalmente, uma vez que a convivência com ela é o único aspecto prazeroso de sua vida até então. Uma paixão começa, sentimento que é descoberto com o decorrer de suas vidas e com a descoberta de um com o outro. O encontro se intensifica, quando Craig vai visita-la, dormindo na casa de sua musa, para lá experimentar uma nova gama de sensações, encontrando avatares de suas crenças e descrenças no Divino, tomando exemplos como a “não crença no amanhã”, sentimento exercido pela irmã de Raina, mentalmente prejudicada – que teria ecos na vida adulta de Craig, simbolizada na incredulidade ao Deus – e no paralelo inverso de ressurreição da filha de Jairo, que Jesus havia retornado a vida, tendo o erro da figura divina não conseguido restaurar o casamento dos pais da hospedeira do narrador, o que certamente ajuda a formar a opinião abalizada do mesmo.

Ao se apegar a Raina, o protagonista muda de objeto de adoração, fazendo dela sua musa, tudo que a tange é visto por ele como sagrado, como dito a respeito do cobertos repleto de retalhos. Mas seu modo de relacionar prossegue distante, temeroso, sem coragem sequer para tocar em seu desejo de adulação. A pele branca, sedutora a visão e tato é um capo proibido, onde qualquer receio de estragar o momento ganhava a volúpia de experimentar. Mais madura, a menina queria usufruir de sua adolescência e hormônios, talvez até de seu sentimento, mas esbarrava na imaturidade e excessivo respeito religioso de Craig.

A proximidade de uma relação deteriorada faz com que o par juvenil tenha ainda mais receio de mergulhar na tentação de ficar juntos. A proibição até propicia momentos de quase transgressão, ainda que o receio do protagonista se agigante diante da possibilidade de consumação carnal. O que Raina precisa é de uma atitude drástica, precisa de uma decisão rápida de seu par, que Craig esteja presente, não muito, só a efêmera decisão de permanecer ao lado dela. Mas Raina era mais que uma paixão descompromissada, analisando de perto, notam-se semelhanças com as responsabilidades da vida adulta. Para atar um relacionamento com ela, Craig precisaria sair de sua zona de conforto, e perceber que isto não seria o fim do mundo, uma condição que a primeira vista seria a quebra da raridade, da fantasia presente na “neve eterna”, que se dissipava com os dias, mas que a longo prazo, poderia trazer mais prazer do que ele imaginava ser possível.

A maturidade se aproxima do pensamento do protagonista aos poucos, cedo o suficiente para ele recusar alguns sofismas moralistas religiosos, banais e recalcastes ao extremo, mas não cedo o suficiente para lhe permitir ter inteligência emocional, ao menos não o bastante para perceber o quão rara era a condição que tinha com Sua musa. A dolorosa despedida ainda guarda laços com o autor, que ultrapassa a barreira metalinguística e a quebra da quarta parede para tornar-se um incômodo real. Thompson já fez declarações contundentes, sobre a identidade real da menina objetificada, assumindo em meio a lágrimas que ainda guarda a colcha que ela lhe dera.

Interessante é notar o desmoronamento da fé do narrador, dita por este como algo repentino, o processo foi bem gradativo, ou ao menos, repleto de pistas durante a evolução de sua inteligência. O fato definitivo para sua incredulidade seria os adendos de Salomão ao livro de Eclesiastes, com inserções possivelmente feitas por ele ou por escribas. Notar que a “voz de deus” poderia ser tão deturpada, unicamente para se adequar ao status quo, pasteurizando-se para ficar mais palatável incomodava o jovem, afastando-o do estado de crente convicto para exibir-se em um homem repleto de dúvidas, mas de pensamentos e ações livre, que vivia cada dia de modo singular, sem esperar um desígnio para guiá-lo.

Segundo o pai de Craig, o aquecimento global era apenas uma arma da esquerda, montada para que as pessoas preocupassem-se mais com o ambiente do que com suas almas. A afirmação é dada com arrogância, em uma certeza que só é presente de modo tão taxativo nas falas de quem é munido da ignorância. O último capítulo reserva mas esse pensamento, da distância quase infinita de pensamento entre as gerações, com a mais instruída das partes ainda dobrando o seu discurso a tacanha e retrograda interpretação do mundo.

Retalhos 1

“Retalhos” é um exercício de exorcismo, onde Craig Thompson deixa de lado seu aspecto diminuto para enfim alçar voos mais altos, podendo contar histórias não necessariamente biográficas, mas ainda assim ligadas demais a sua alma – a exemplo do drama árabe Habibi. O escrito é basicamente uma ode a temporalidade e a efemeridade presente na construção da identidade pessoal do homem. O valor e louvor do livro é a constante transformação do registro individual, difícil de distinguir em quaisquer condições naturais, além é claro de ter um conteúdo confessional, de uma alma que não sofre mais de aflição e culpa, mas vê nestes adversários perenes.


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52