Retrato de uma jovem em chamas

Fugere Non Possum

por

03 de março de 2020

0_D88JyjhH88cNLcHf

O que torna um filme uma obra-prima é a conjunção de aspectos objetivos, direção de arte, fotografia, atuação, trilha sonora, roteiro, com aspectos subjetivos, a capacidade do filme de arrebatar o expectador para dentro da sua trama de tal maneira que, mesmo com o filme terminado, ele continue a rodar dentro da sua cabeça, tão presente as suas cenas ficaram marcadas na sua memória.

Para mim, o filme francês Retrato de uma mulher em chamas (2019) preenche esses requisitos. Ele é uma obra-prima. Fui transportada para dentro da tela da primeira à última cena, seja porque a direção de fotografia é belíssima e as imagens parecem quadros de pintura, seja porque o ótimo roteiro aliado à alta qualidade de interpretação não te fazem piscar nem se mexer ao longo de toda a sessão. Retrato é tão silencioso, e ao mesmo tempo denso e sutil, que qualquer barulho de pipoca incomoda. Apesar de silencioso, feito de olhares, sussurros e sons da natureza, como o mar e o crepitar do fogo, a música tem um papel fundamental e aparece em três momentos importantes do filme. Um deles é no canto coral a capela. A música “fugere non possum” (“elas vêm voar”) é cantada em latim pelas mulheres do povoado, reunidas diante de uma fogueira em uma noite cálida, e marca o momento de superação do estágio platônico de atração entre as duas personagens principais. Como explica a diretora do filme, a beberagem e o ambiente seguro de sororidade e aconchego, liberta as barreiras repressoras que as impediam de se aproximarem fisicamente uma da outra, elas ‘voam’.[1]

Screenshot_20200219-141616_Google

Diferente de outros filmes de época que retratam simplesmente a forma como a falta de saída para a situação socialmente imposta de submissão ao patriarcado leva as mulheres ao isolamento e ao sofrimento, nesse testemunhamos como na ausência da autoridade representante do patriarcado, o homem, ou mesmo as mulheres que representam os seus interesses, a cumplicidade e a solidariedade entre as que por serem mulheres também estão presas a um destino do qual não podem fugir, ao menos não na época do filme, meados do século XVIII, aparece. No fundo, não importa a classe ou a origem social, todas são marcadas pela violência do sistema opressor patriarcal. A solidariedade surge do reconhecimento da dor que atravessa a todas.

O roteiro e direção é de Céline Sciamma (autora do outro belo filme Tomboy) e a direção de fotografia e arte é Claire Mathon. A dupla de diretoras e a tríade de atrizes principais, Noémi Merlant (Marianne), Adèle Haenel (Héloïse), e Luanà Bajrami (a empregada da casa de Héloïse) formam um núcleo artístico feminino de altíssima qualidade poética.

O mote do roteiro é fantástico. Em uma época na qual ainda não havia a fotografia, a pintura era o modo de registrar e eternizar acontecimentos passados. Quantas vezes diante de um retrato pintado não nos perguntamos sobre a história que ele quer nos contar? Mas, na verdade, não temos acesso a essa narrativa e só podemos especular sobre ela (por exemplo, até hoje especulamos sobre as razões do sorriso da Monalisa, ou sobre quem ela era de fato, se um autorretrato de Da Vinci ou uma mulher real). Somente o artista que fez o quadro poderia nos contar a história. Pois é essa a ideia do roteiro.

Surpreendida no meio da aula de pintura com um quadro que havia pintado há bastante tempo e cujo título é o mesmo do filme, a professora e pintora Marianne é levada a rememorar os acontecimentos que circundaram a cena pintada de uma mulher cujo vestido começava a pegar fogo. O espectador é então conduzido a visualizar as lembranças de Marianne. É uma viagem para dentro do quadro.

A pintora Marianne, interpretada por Noémi Merlant, recebe a encomenda de pintar o retrato de uma jovem aristocrata, Heloise (Adèle Haenel). Seu quadro seguirá para Milão como forma de selar sua união com um aristocrata italiano, para deleite de sua mãe italiana (Valeria Golino), saudosa da terra natal. Logo na chegada a casa da família, a mãe informa a Marianne que Heloise não pode saber que está sendo pintada, pois rejeita a ideia do casamento e, por isso, já havia rechaçado colaborar com o trabalho do pintor que a antecedeu. A mãe, então, diz que ela será apresentada como acompanhante da filha e que deve pintar o retrato sem que a retratada pouse para ela, mas apenas baseando-se na observação memorizada dos traços de Heloise ao longo das suas caminhadas comuns. Dá-se assim uma situação maravilhosa do ponto de vista da fotografia do filme, pois a câmera acompanha os olhares furtivos de Marianne sobre o rosto e as mãos de Héloïse, fazendo com que o espectador participe indiretamente do ofício de construção do retrato da autora. Há, porém uma reviravolta na história, na medida em que a observada e a observadora trocam de papéis, ou seja, achando que ela era a única a observar os detalhes, Marianne não percebeu que também estava sendo observada por Héloïse.

Sem ser em momento algum panfletário ou maniqueísta, Céline Sciamma faz um filme feminista em todos os seus aspectos sem abrir mão do seu compromisso com a arte e com a poesia. Seu filme aborda temas centrais da denúncia feminista às injustiças de gênero, tais como, opressão do casamento arranjado, a proibição ao exercício livre do desejo sexual, a temática do aborto, a dificuldade de reconhecimento artístico das mulheres, mas tudo isso permeado de sutilezas e poesia. A literatura, ao lado da pintura e da música, está também presente no filme na figura do relato da descida de Orfeu ao inferno para buscar Eurídice e de como na volta ela perdeu a esposa por olhar para trás –através da fala de Marianne é apresentada uma releitura da segunda parte desse mito que cabe como uma luva para a história que nos é contada (sendo inclusive efetivamente representada no filme).

Por fim, gostaria de deixar uma dica, prestem atenção no que Marianne diz a sua aluna sobre a impressão que esta tem dela por causa do relato do quadro. No meu entendimento, essa fala curta e simples é um exemplo da postura do feminismo contemporâneo representado no filme, não maniqueísta, poético e de resistência.

[1] http://almanaquevirtual.com.br/bastidores-da-melhor-cena-de-retrato-de-uma-jovem-em-chamas/

retrato